segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Cada um tem sua verdade?

Cada um tem sua VERDADE?

Esta é uma pergunta tão antiga quanto polêmica. Hoje em dia, ainda muitas pessoas pensam que cada um tem a SUA verdade, o que nos remete a um relativismo ou subjetivismo que eu diria, no mínimo comprometedor, embora comum.
Os tempos de ditadura militar foram duros, mas uma de suas heranças foi a falta da vontade do debate, a falta de um posicionamento, até porque se posicionar em tempos de ditadura era muitíssimo arriscado.
A falta de vontade de promover um debate de idéias, onde o que se debate são as idéias e não os debatedores. Onde não temos vencedores nem vencidos, mas uma oportunidade de aprendizado mútuo. Onde eu não precise mudar minha posição, nem pretenda convencer o outro de que eu estou certo, mas aproveitar a oportunidade para aclarar quais são os pontos que fundamentam a minha opinião e quais conseqüências minha opinião pode gerar. Conseqüências que já posso ter pensado ou conseqüências que só vou pensar a partir da oportunidade do debate. Robert Dilts costuma dizer que se eu dou um dólar(ele é americano) para uma pessoa e esta mesma também me dá um dólar, eu continuo com a mesma quantia ao final da troca, mas se simultâneo a isso eu ainda dou uma idéia para o outro e este me oferece a dele, no final eu tenho duas idéias(mesmo que não as utilize) e ou outro também.
Sobre este assunto devemos também abordar os sempre vizinhos do debate: A Sra. Tolerância, e o Sr. Respeito. Num determinado instante nos sentimos fustigados a despejar os dejetos da nossa falta de argumentos no quintal do Sr. Respeito, o que seria um insulto, embora este possa afagar nosso ego e desonerar nossa razão, mas ouvindo os conselhos da Sra. Tolerância, amargamos um fracasso de argumento, muito embora este possa se tornar uma vitória do crescimento.
Mas se eu sempre ouvir os vizinhos de um lado, posso maltratar os do outro lado: O Dr. Desafio e o Prof. Crescimento.
O argumento: “...esta é minha opinião!”, ou o “...isto pode estar certo na sua opinião!”, encerram a discussão sem vencedores, apenas vencidos. E somos convidados a acompanhar o funeral do Sr. Aprendizado.
É importante o desafio até para que o outro(ou eu mesmo) tenha a oportunidade de pensar melhor nos pressupostos que sustentam suas opiniões(se é que sustentam!).
Não conseguimos discernir de forma adequada o certo do errado. O certo vira errado(mas é minha opinião), o errado vira certo(porque para mim e certo).
Discussão sobre futebol, pouco ou nada adianta, pois o argumento definitivo é, tão somente, a paixão, mas ao contrário do que a maioria pensa, debater sobre política(principalmente), sobre religião, filosofia, sociologia, antropologia e outras tantas logias, pode ser muito esclarecedor, desde que o debate se faça de forma sadia, amistosa, com argumentos conseqüentes, sustentados por premissas verdadeiras onde a paixão se faça presente na paixão pelo debate e não na ânsia da vitória.
O debate fortalece as relações. A falta de debate enfraquece a ética. Corremos o risco de ouvir(ou de falar): “...se o outro não faz pois não acha que é certo, por quê EU devo fazer?”.
Nesta época de crises éticas, de corrupção, onde o errado vira MEIO-CERTO, é preciso resgatar o valor do universal, onde bom senso não é refém de julgamentos privados, do tipo meu bom senso, seu bom senso.
Na Grécia antiga haviam as figuras dos filósofos e dos sofistas. A diferença é que os filósofos buscavam a verdade em si, o bom em si, o justo, o correto e os sofistas buscavam a argumentação retórica do convencimento, da persuasão, sem compromisso algum com a verdade. O importante era o convencer, o persuadir mesmo que a argumentação fosse recheada de falsidades ou truques de retórica. As até hoje ditas falácias.
O primeiro debate deve ser o interno, o particular. Pergunte-se sobre quais são as premissas que sustentam suas opiniões. O que leva você a acreditar nas coisas que acredita? A primeira resposta fica no óbvio, ou seja tudo aquilo que já se pensou, mas não pare por ai. Não se convença com pouco. Vá mais fundo. Pense no que ainda não foi pensado. Depois parta para as conseqüências de suas opiniões e de novo vá além do óbvio. Pense no que ainda não pensou.

Trabalhar para quê?

Grande parte do mercado de trabalho hoje em dia, ou pelo menos os postos mais bem remunerados estão situados em atividades de cunho financeiro. Bancos, financeiras, cartões de crédito, seguros etc. E uma outra grande sorte de empresas de consultoria que giram ao redor deste mercado. Entretanto, precisamos ter claro que dinheiro é meio e não fim! Meio de se conseguir o que se quer. Sendo este “o que se quer”, algo de efetivo valor, onde o dinheiro cumpre função de meio para obtê-lo. Ocorre que em muitos casos transformamos a obtenção do dinheiro em um fim em sí. E buscamos de forma desmedida obtê-lo a qualquer custo. Somos, com isso absorvidos por um redemoinho que nos rouba a paz e agride nossos valores de maior importância em prol do dinheiro, pelo dinheiro, para o dinheiro sem que para tal, tenhamos algo em vista que, de fato, tenha real valor. É comum vermos minadas nossas energias quando, ao acordar de manhã nosso cérebro conspira para que voltemos ao aconchego de nossa cama pois ele não consegue ver o sentido e a verdadeira importância do que está por vir no transcorrer do dia. Respiramos fundo e com grande esforço sobrepujamos a letargia e de fato “enfrentamos mais um dia”.

Costumo dizer ha anos que devemos dar espaço para o nosso sonho, para nosso projeto pessoal aí nosso trabalho ganha em valor e importância, na medida em que se torna um bom meio para atingirmos esses projetos pessoais. Mas o que é de fato um projeto pessoal? Trocar de carro, adquirir ou trocar de casa ou de celular? Não! Quando nossos projetos pessoais giram em torno disso é quando estamos absorvidos no redemoinho do consumo desmedido e alienado. Um bom meio de descobrir um projeto pessoal é: Olhe ao seu redor. Veja o que te aborrece na vida, nas coisas ou nas pessoas, isto não aborrece a todos da mesma forma, mas especificamente a você, ou seja, “você” se aborrece com isso. Isto tem a capacidade de te incomodar, portanto mantém uma relação estreita com você, o problema se mostra diferente para você do que para outras pessoas. Pense, por outro lado, nas suas capacidades, sobretudo aquelas que são mais simples, coisas que faz sem o menor esforço onde não é necessário empenho ou dedicação. Falar, escrever, analisar, mostrar, ensinar, qualquer coisa que pessoalmente considere banal e que no entanto outras pessoas gostariam de fazer tão bem quanto você. Pense agora de que forma, com estas capacidades você poderia interferir neste meio que te aborrece e torná-lo melhor, resolver o problema ou no mínimo alertar a todos sobre o efetivo problema e torná-lo mais claro e evidente. Olhar a vida não no binômio Trabalho-Diversão, mas sim no sentido de Contribuir-Usufruir. Contribuir com suas capacidades para a melhoria de algum aspecto da vida. Quem sabe não temos ai o nascimento de um bom projeto pessoal que faça sentido e proporcione uma nobre resposta para a pergunta: Trabalhar para que?



Jadir Mauro Galvão 26/11/2009

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Eu fiz minha parte!

Grande parte daquilo que nos parece óbvio hoje, foi objeto de discussões filosóficas seculares. Poucos sabem disso, mas dois séculos de discussão foram precisos para que hoje nos apresentassem um objeto qualquer e de pronto perguntássemos: “Para que isso serve?” Esta é a evidência da vitória de uma doutrina filosófica chamada “Utilitarismo”. Doutrina filosófica que apregoava que bom e ético é tudo aquilo que é útil. (Mas ética é isso?!?)
Outra expressão ainda é corrente: “Eu fiz a minha parte!”. Karl Marx, há mais de um século nos alertava para as dificuldades da divisão do trabalho. De que adiantaria o produto do trabalho de um artesão especialista em fivelas se não fossem feitos os cintos ou bolsas? Há, com a divisão do trabalho, uma desvinculação natural do trabalho individual, com seu produto final. Cada pessoa somente se vê comprometida, responsável, com a “sua” tarefa, perdendo a dimensão do todo. Grandes organizações necessitam repartir tarefas pois uma única pessoa não conseguiria dar conta de todas as atividades. Sequer teria conhecimento suficiente para tal. O lançamento de um novo produto, precisa de profissionais de propaganda, de informática, de embalagens, de infra-estrutura, de distribuição, logistica, mas não adianta nada cada um fazer “sua parte”. Se uma roda não roda, a máquina não roda. Se uma roda, roda sem que a máquina rode, ela não faz parte da máquina. Esta é uma analogia comum nas grandes empresas, a comparação de pessoas a engrenagens industrializando nosso cérebro. O pior é que muitas vezes nós assumimos esta metáfora e trabalhamos apenas como engrenagens reclamando que a engrenagem ao lado está atrapalhando o nosso trabalho e por isso não conseguimos rodar.

A idéia aqui é: a divisão do trabalho é necessária, entretanto, equipes auto-lideradas mantém seu foco no resultado, no produto final. De nada adianta ficar girando em torno de sí mesmo, se aquele que está ao nosso lado não está na mesmo frequência. Se continuamos a rodar quebramos a máquina. Se paramos travamos a máquina. Mas nós não somos máquinas, tampouco engrenagens! Somos sêres inteligentes, de relacionamento, de liderança, de ação e de visão. Mas isso requer uma mudança de postura. Assumir responsabilidades, assumir riscos, aparecer. Diferente da postura de desaparecer no conjunto. Uma habilidade digna de camaleão que nos momentos críticos consola sua consciência dizendo: “Eu fiz a minha parte!”. Você não precisa, nem deve fazer tudo, ninguém consegue isso, mas acompanhar, conduzir, comprometer-se, apoiar, perguntar, são verbos úteis e éticos. Claro que nem todas as atividades tem em sí, visível, um valor, uma importância digna de tal comprometimento, desprendimento e empenho, mas o fato de existir um monte de coisas erradas ao nosso redor não deveria ter a capacidade de fazer-nos errar também, tampouco de justificar nosso erro. Mas motivação e propósito são assuntos para outra matéria.

Jadir Mauro Galvão 09/09/2009