terça-feira, 12 de abril de 2016

Diálogo

(Por Jadir Mauro Galvão)

Diálogo
Se nos perguntassem: você sabe prestar atenção, ou você sabe fazer perguntas, ou você sabe dialogar? Muito possivelmente a maioria de nós responderia afirmativamente. Contudo, acredito que no fundo respondemos sem pensar. Percebo mesmo que no fundo não sabemos falar, não sabemos respirar, não sabemos andar. Claro, andamos, respiramos, falamos, fazemos perguntas... mas não fazemos isso nem com elegância, nem com maestria. Alguém de yoga poderia nos ensinar a respirar. No teatro se aprende a falar, entonar a voz, pronunciar as palavras. Só depois que fiz minhas formações em PNL entendi que antes eu não sabia prestar atenção, tampouco sabia fazer perguntas.

Mas disso tudo que falei o pior de todos é o diálogo. A maior parte das pessoas conversa, debate, discute, troca informações, interage, dá ordens, mas raros são os que dialogam.  O que mais se vê por ai são coisas que se descrevermos vai parecer conversa de maluco. Vejamos numa festa qualquer onde se encontram pessoas que não tem essa oportunidade no seu dia a dia. Entramos em uma conversa, falamos sobre uma doença qualquer que um membro da família foi acometido, buscando, com isso, compartilhar nossa dor com o outro, mas ao invés do outro se condoer com nossa história ele apenas aguarda a oportunidade de contar a sua própria dor, em um caso com certa similaridade. Não que ele esteja realmente passando pela mesma dor e também queira compartilhar, mas o caso do conhecido o fez recordar de uma experiência dele mesmo e essa experiência assumiu maior importância em sua consciência do que a dor do amigo. Em geral até se para de prestar a devida atenção ao que o outro está falando, ficando apenas no aguardo de que o ele pare de tagarelar para que possamos contar a nossa experiência. Quando não se interrompe o interlocutor deselegantemente.

Ou num caso mais corriqueiro, mas nem um pouco menos maluco. Um começa por contar seus feitos na última pescaria, o outro vem na sequência e conta todos os motivos que o fazem não comer peixe, pois já se engasgou gravemente com uma espinha, um terceiro que conta como sua filha também engasgou com uma bala, um outro que, aproveitando o ensejo, pergunta se alguém tem uma bala pois está desde cedo com um amargo na boca, um outro mais que diz estar sofrendo com uma gastrite nervosa pelo estresse no trabalho que também deixa sua boca amarga e mais um que diz que anda trabalhando demais e não tem tempo para férias e por ai vai até que um puxa uma piada de português que faz todos caírem na risada. Após isso pode-se esperar que outra piada venha ou se suceda um breve silencio até eu outro assunto reinicie a conversa fiada. Em qualquer dos casos não houve diálogo efetivo. Cada qual colocou na roda o que era apenas seu e tomo de volta apenas o que era seu. Não houve troca, nem aprendizado, nem crescimento. Não colocamos em dúvida nossas convicções, não fomos obrigados buscar nas profundezas de nosso ser algo que pudesse revolver nossas crenças, nem nossos valores. Ficamos na superfície. Não corremos riscos, apostamos no conhecido e permanecemos nele.

Em uma discussão política inicia-se um debate onde cada uma das polaridades ideológicas busca defender suas posições. Contudo, o debate se transforma em embate, luta, disputa e isso pressupõe vencedor e vencido. Quando muito um empate técnico. Cada qual, postado soberanamente sobre suas próprias crenças irracionais, faz uso de todo seu poder de raciocínio lógico associando fatos com significações deliberadamente atribuídas ou intenções apenas supostas na busca por argumentos racionais que ratifiquem suas posições irracionalmente conquistadas.

Discussões entre pais e filhos ou mesmo entre marido e mulher invariavelmente prescindem do diálogo em prol de outros propósitos. Se de uma parte a discussão visa educar, do outro a intenção é de autoafirmação. De um lado pode-se expor razões pelas quais se quer fazer algo e justificar, do outro é não querer se anular ou ser deixado para trás. Interrupções sucessivas, pressuposições sobre as intenções do outro. Tudo isso produz um clima improdutivo de conflito onde o diálogo fica esquecido na bandeira de escanteio.

Mas se tudo isso não é diálogo o que é então? Não sou expert em etimologia, mas diálogo parece pressupor uma troca efetuada por dois Lógos. Duas almas, duas consciências, dois seres humanos dotados de razão, mas também de emoções, medos, anseios... O diálogo era tido por Platão (ou Sócrates) como o meio, por excelência, de dirimir as imperfeições das opiniões (doxa). Para eles, as opiniões seriam verdades impuras. Não erros, não mentiras, não verdades pessoais, mas apenas verdades encobertas por uma nuvem de engano. Através do diálogo e sob o crivo sensato da razão, os argumentos que não se sustentassem deveriam ser encarados como engano e qualquer um que antes admitisse como verdadeiro deveria reconhecer que era falso. Um processo de desconstrução das ilusões interiores em prol de uma nova construção verdadeira (Episteme). Ambos, inclusive acreditavam que o diálogo era mesmo um modo de se expiar máculas da alma. Processo de espiritualização.

Os diálogos platônicos eram por vezes longas exposições de uma só pessoa, mas as interrupções e objeções eram benvindas e mesmo serviam para dirimir ou reforçar as verdades. Afora um ou outro diálogo tido com desafetos de Sócrates, no mais das vezes, todos os participantes dos diálogos saiam engrandecidos. Deixando o engano de lado, mas sendo quase que obrigado a colocar suas próprias convicções sob suspeitas para serem ratificadas do que contestadas e posteriormente retificadas. Diálogo ensejava o crescimento de ambos. Vencedores sem vencidos.

Mas o ambiente para o diálogo precisa ser propício. Não há que se entrar em uma conversa, buscando, convencer, ganhar, defender e se postar cheio de armas e de armaduras, mas sim de alma mansa, de coração aberto a colocar em questão suas mais profundas convicções. Num bom diálogo não se perde nem se ganha, mas se aprende. Deixa o engano para se ganhar em dúvidas ou em novas convicções.