quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Economia horizontal

Economia horizontal
(Por Jadir Mauro Galvão)

Ainda hoje estamos habituados a uma economia verticalizada. A regra dessa economia é a iniciativa privada com fins lucrativos. Esse modelo ainda vai perdurar, mas ele é pouco amigo e pouco inclusivo. Nós ganhamos dinheiro com ele, mas só o mínimo possível. Aqui vale a regra de quem pode mais chora menos. Quem está no meio dessa pirâmide fica refém das demandas que vem de cima. Quem ganha mais é sempre aquele que é dono do negócio. Mesmo empreendedores que estão num nível intermediário ficam também com uma parcela intermediária. O dono de um mercado, por exemplo, claro, ganha mais, muito mais, que seus empregados, mas mesmo esse é somente um mero empregado das grandes marcas que ele comercializa. Para essas grandes marcas você é só um ponto de venda maior ou menor. Uma gráfica é só “um funcionário terceirizado” das grandes indústrias de papel ou das editoras.  E mesmo esse empresário precisa pagar por quase tudo. Não há nesse tipo de relação econômica algo como uma real parceria ou colaboração. Como sua finalidade é meramente lucrativa, isto é, visa um benefício próprio, só se consegue aliados quando se paga por eles. É preciso que esse empreendedor pague pela propaganda, pela panfletagem, pelo anúncio, placa com seu nome, pela limpeza, pela organização, pela impressão, pelo transporte...
Quem está mais abaixo nessa verticalização acredita que “todos têm oportunidades, basta que se esforcem”. Contudo, as oportunidades somente são demandadas por quem está no patamar mais acima, e mesmo esse, só consegue demandar na medida em que tem recursos financeiros para bancar tal oportunidade. Essa relação é conhecida como emprego. Um tipo de trabalho privatizado, que pertence a uma iniciativa privada. A maior parte de nós nasceu, viveu e cresceu dentro desse cenário que, de modo atípico, dominou a economia mundial desde um ou dois séculos, mas com mais força e vigor após o término da segunda grande guerra. As grandes organizações demandaram enorme contingente de empregados e prosperaram magnificamente.
A ideia de emprego, de mercado de trabalho assumiu uma importância tal que levou de roldão a educação, as iniciativas governamentais e outras tantas para a mesma direção. As universidades que até então nos serviam para adquirir um conhecimento geral de nível superior, se tornou basicamente um ensino profissionalizante para além do técnico. As iniciativas governamentais foram no sentido de dar todo o apoio e infraestrutura para que essa via prosperasse. As pessoas escolhiam como seria sua vida, onde morariam, muito em função do mercado de trabalho.
Os espaços públicos, os bairros foram formados a partir desse cenário. Temos em São Paulo bairros inteiros que foram formados ao redor de indústrias, como Penha, Brás, Mooca, Água Branca entre outros. As antigas cidades europeias giravam ao redor do castelo real, nossos bairros mais tradicionais ao redor de indústrias. Mas mesmo hoje, bairros como Vila Olímpia, Brooklin, são reformulados ao redor dos edifícios de grandes empresas. Os imóveis residenciais mais valorizados ainda são os que estão mais próximos do emprego.
Mas esse mundo das empresas funciona baseado em determinadas regras. Produtividade, competitividade, redução de custo, domínio de mercado... Tudo isso produziu um cenário em que o próprio fenômeno do emprego entrou em declínio. Na medida em que as empresas ganharam em eficiência administrativa, menor é a necessidade de mão de obra. Na medida em que, visando domínio de mercado consumidor, empresas grandes adquirem outras tantas menores, são ceifadas centenas, senão, milhares de estações de trabalho, ou melhor, vagas de emprego. Na medida em que as empresas conseguem mapear processos e boas práticas, menor é a exigência de qualificação do profissional. Qualquer profissional que aceite uma remuneração mediana pode realizar tarefas até então intrincada, pois já se tem sistemas, metodologias, processos, e todo o mais que possibilita ao empresário uma redução custo em sua folha de pagamentos de empregados.
Ainda que se considere que estamos em pleno curso de uma crise econômica nacional, senão mundial, com o desemprego assombrando famílias e mais famílias. Já é possível perceber sinais claros de que esse fenômeno do emprego vai se ajustar a patamares mais modestos do que fora outrora. Não será possível reabsorver todo o contingente de milhões de desempregados ao redor do mundo. Estatísticas recentes deram conta de que vinte e cinto por cento da população da Espanha estava desempregada. Cenário semelhante vivem Itália, Portugal e outros países ditos ricos. Que dizer então dos “em desenvolvimento”? Mas o que será desse magnífico contingente de desempregados. Serão deserdados sociais?
Não. Ainda temos muito trabalho, o que nos falta é emprego. Será preciso certo tempo e mesmo esforço para se compreender que emprego é um fenômeno que assumiu responsabilidades que não lhe pertenciam. Com a farta oferta de empregos durante tanto tempo, nós desaprendemos de trabalhar em outros modelos. A abundância de empregos foi um fenômeno sazonal. Ainda que tenha durado longo tempo, agora ele tende a se acomodar em outro patamar. Precisaremos nos organizar de outro modo. Quem sabe em um modelo que seja mais horizontal.
Emerge cá e acolá outros modelos associativos, colaborativos, cooperativos. É preciso que se desenvolvam modelos menos travados de associativismo. Projetos de iniciativa colaborativa, pois sozinhos teremos dificuldades de prosperar qualquer que seja nossa iniciativa. Juntos, apoiados podemos ser grandes. A divulgação de um projeto, de uma iniciativa, se feita por muitos, tende a prosperar, mas será preciso que o projeto não seja concebido meramente como uma iniciativa privada com fim lucrativo. O próprio projeto precisa ser engendrado concebendo a hipótese de benefício de muitos. Cada qual que veja uma iniciativa ainda que esta seja individual, pode pleitear não só a colaboração como a de propor que ele também se beneficie dos resultados. Empreender, visto desse modo, não é uma iniciativa privada, mas colaborativa, compartilhada, em união e não em sociedade de capital. Não se divide os lucros, mas se compartilha os resultados.
No modelo vertical muitos trabalham para o maior benefício de poucos e para a subsistência de outros tantos. No modelo horizontal todos trabalham para o benefício de muitos. Os benefícios não são aritméticos, mas exponenciais. A matemática aqui é outra e a postura também. Talvez não seja o caso de se aliar a uma iniciativa por cinco ou dez anos, mas adquirir um espírito livre, permeável a novas ideias, novas perspectivas, novas concepções que podem mudar de tempos em tempos. Empreender agora é conjugado com outros verbos como: conseguir mobilizar valores, pessoas, objetivos, iniciativas. É agregar, é expandir, é somar e não adquirir, reter, absorver, dominar e comprar. Não pensamos mais em comprar e vender, mas em contribuir e usufruir. Se colabora não pensando no que se terá em troca, mas porque a iniciativa é de valor.
No modelo vertical você contratava e pagava, no modelo horizontal você precisa conquistar e encantar. No vertical você estava disposto a fazer coisas que não gostava se isso lhe rendesse um bom dinheiro. Agora você pode colaborar fazendo o que você faz melhor, no tempo que achar melhor. Num se fala em “eu”, noutro em “nós”. Trabalho temos muito o que precisamos agora é aprender a nos organizar em rede, em teia, de modo horizontal em iniciativas nossas ou de outros.