segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Filosofia como ferramenta profissional

Filosofia como ferramenta profissional

(Por Jadir Mauro Galvão) 

Introdução

Nossa intenção aqui é demonstrar que nossa atual maneira de pensar o mundo das empresas foi fruto de uma escolha que á sua época foi bastante sensata, mas que acabou por abandonar outras tantas e ricas formas de pensar. Mais do que isso, compreender que nosso atual estilo de pensamento não responde adequadamente às demandas de nossa época. Será preciso lançar mão das ferramentas da filosofia, no intuito de reorganizar nossa compreensão sobre nosso tempo. As ferramentas que a filosofia proporciona servirão como trunfos no atual jogo corporativo, mas mais do que nos permitir um bom posicionamento no jogo atual, nos possibilitará ditar novas regras para o mesmo jogo. Regras mais sensatas do que as atuais, mais honestas e, sobretudo, mais humanas. Para tanto precisaremos percorrer por algumas dessas tantas correntes de pensamento, verificar quais foram as condições que influenciaram nossas escolhas, bem como apontar quais foram nossas renúncias e que preço elas tiveram em nossas vidas. 


1.      Origem histórica


Empresas, como conhecemos nos dias de hoje, só começaram a se formar depois de uma transformação em nossa organização social ocorrida por conta da revolução industrial, concomitante com a revolução francesa. Até então a filosofia gozava de certo prestigio e circulava livremente pelas rodas da alta sociedade. Ainda que não houvesse unidade de pensamento, todas as correntes filosóficas partilhavam a importância da reflexão profunda. Digladiavam-se entre sí no embate de pensamentos os Idealistas metafísicos, os Empiristas, os Utilitaristas entre tantas correntes filosóficas contemporâneas. O modelo de sociedade vigente na época era monárquico. A sociedade era dividia entre nobreza e plebe. As camadas sociais ainda permitiam divisões como o clero, os homens de armas e os de ofícios. Alguns outros muito poucos giravam ao redor dos castelos e da nobreza exercendo influência sobre esse poder central. Por mais démodé que nos pareça, esse tipo de organização perdurou por mais de mil e quinhentos anos e alcançou horizontes em todos os cantos do mundo.
Essa sociedade monárquica valorizava a arte, a música a religião, o sagrado, a elegância, o comportamento nobre... tinha na metafísica sua filosofia predileta e mesmo que dessa filosofia não se retirasse resultados práticos, só o rebusco das abstrações já conferiam certo prestígio ao seu elaborador e, com isso, posição social. Era um modelo que relegava a população fora dos altos círculos sociais, uma condição bastante miserável. Sem estudos, sem dinheiro, sem terras cultiváveis expostos ao frio e a fome. Podia-se morrer de fome com a cabeça recostada em um saco de farinha, pois o ofício da panificação era restrito a classe dos padeiros ou, as rodas dos palácios. Podia-se morrer de frio ao lado de uma ovelha pelo puro desconhecimento dos ofícios da tosquia, do curtume e da fiação.
A mudança no modelo de organização social sofreu profunda influência dos pensadores Iluministas que viam na ciência, nos ofícios e nas atividades práticas muito mais interesse, sobretudo social, do que uma metafísica que discutia sobre o Eu, sobre o Absoluto, sobre a Vontade ou outra abstração qualquer. Entre os que mais prosperaram com o novo modelo o Reino Unido era sede do pensamento filosófico Utilitarista na figura de Jeremy Bentham. Bebiam da filosofia utilitarista os mais brilhantes economistas que deram o tom e o brilho de uma sociedade que visava a produção do excedente, a expansão de fronteiras, o lucro e a prosperidade. Criaram-se escolas de ofícios que proviam os profissionais para trabalhar nas fábricas e mesmo em escritórios que controlavam a produção, seu escoamento, bem como a aferição de lucros e a destinação de investimentos.
Esse novo modo de olhar para a sociedade e para o sistema de produção de riquezas acabou por produzir resultados materiais expressivos. A produção em escala dos mais diversos bens materiais como vestuários, alimentos, e toda a sorte de utensílios, bem como o emprego remunerado que podia gerar a renda necessária para aquisição desses bens, organizou a sociedade de outro modo e deslocou o centro que antes era ocupado pelo castelo agora para as fábricas.
A grande expansão econômica acabou por coroar também um modelo de pensamento. O importante agora é o que é útil, prático, as ciências que permitem o desenvolvimento de novos materiais, novas tecnologias, novas energias e todo o mais que possa prover produtos, vendas, renda e, sobretudo, lucro para uma nova classe emergente de pessoas que não nasceram nobres. A nobreza ainda era valorizada, mas somente na medida em que trabalhava e produzia ou gerenciava uma organização produtiva. O trabalho começa a ter mais importância que um título de Conde, Duque ou Barão. Mesmo os antigos nobres experimentam uma abastança da qual jamais haviam imaginado. Incluir socialmente tornou-se bastante lucrativo. Empregados livres oneravam a cadeia produtiva menos do que escravos.
O modelo de pensamento prático, utilitarista e de ofícios era mais produtivo do que todos os outros somados. Fica então acordado que este é “melhor modo de pensar”. O mais produtivo, mais lucrativo, que produz mais riqueza e, com isso, felicidade. Ficam então proscritos outros modelos de pensamento. Agora temos os pensamentos úteis e todos os outros se mudam agora em sua antítese: inúteis. Para esse lado se mudam de supetão a metafísica, a arte (não lucrativa), o sagrado, o pensamento reflexivo profundo... Mesmo a busca pela verdade fica suprimida. Antes de se perder tempo tão precioso na busca pela verdade pensemos primeiro em sua utilidade. Mesmo que algo não seja realmente verdadeiro, se se mostra útil, ainda que durante certo tempo, acaba sendo preferível. O ócio até então bastante cultuado se estabelece como sinônimo de preguiça e fraqueza. Consolida-se então a sociedade da cultura do “Tempo é dinheiro”.
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2.      Carta de valores corporativos

Sem que houvesse necessidade de uma promulgação oficial, tão pouco de um documento escrito, estabelece-se um extenso conjunto de valores, crenças, práticas de conduta aceitos, cultuados e valorizados num mundo remodelado e reestilizado. Empenho, dedicação e esforço; eficácia, eficiência e produtividade; comprometimento, confiança e profissionalismo. Fidelidade para com empresa. Negligenciar o sigilo era o mesmo que traição e sua punição era pior do que a excomunhão: demissão por justa causa.
O trabalho não é para prover a vida dos recursos que ela necessita, mas, ao contrário, é a vida que provê os recursos que a empresa necessita. O desempregado é somente um ser com uma semivida. Inútil, ineficaz, inepto. Sua vida é sem valor. Oferecer um emprego era misericordioso. Ato divino de uma religião onde o olimpo era nobremente mobiliado e os deuses eram os diretores, presidentes, superintendentes onde eram tomadas as decisões sobre os rumos da humanidade.
Um bom emprego conferia prestígio social e recobria de responsabilidade o seu ocupante. Esse critério também promove uma suprema inversão de valores: não são as empresas que servem a sociedade, mas a sociedade é que serve às empresas. Visto desse ângulo é possível observar e compreender a conduta de inúmeros dos nossos gestores. Se precisar escolher entre manter o trabalho de uma centena de trabalhadores, seu meio de sobrevivência e sua dignidade e conseguir um aumento de produtividade automatizando ou robotizando uma operação, já sabemos qual será sua escolha. Se tiver de optar entre manter ou não um trabalhador menos produtivo, ainda que a equipe renda mais com sua presença e tenha uma melhor qualidade de vida no trabalho, já sabemos qual opção será mais bem vista. O paradigma do lucro e da produtividade constrói um conjunto de “verdades” que só fazem sentido se observados a partir de seu próprio critério. Uma doença que afasta um profissional de suas atividades produtivas é temporariamente tolerada, contudo se ela derrubar os índices de produtividade por tempo maior será preciso demitir o mesmo até para que “ele possa cuidar de sua saúde em tempo integral“.
Cada empresa nutre maior apreço por um conjunto seleto de valores em detrimento de outros e essa escolha edifica um conjunto de condutas aceitas tanto quanto outras malvistas. São estes os critérios que definem quem irá progredir ou não dentro dessa organização. Colidir ou confrontar essas condutas é confrontar os valores escolhidos e, com isso, afrontar o critério particular de verdade. O termo Verdade aqui é tomado apenas em sentido didático. Verdade não pode ser nunca particular, mas esse critério é pouco útil para as empresas que mudam seus gestores. É preferível uma verdade mais plástica que se adapte ao gestor, ao momento econômico da empresa. Revoltar-se contra essa máxima é improdutivo.
É claro que esse movimento no sentido inverso da verdade retira grande parte do sentido original de uma empresa: sua razão social. Muitos trabalhadores percebem esse critério de verdade particular e acabam por justificar seu próprio critério de verdades e trabalha orientado neles, mas somente se o confronto das suas verdades não ultrapasse os limites das verdades da empresa. Surge aqui uma hipocrisia bastante generalizada onde são confrontadas as verdades de cada um ou de pequenos grupos. Surgem as panelinhas, os conflitos e cada qual calcado em “sua” própria verdade acaba por se justificar. Cada grupo, por assim dizer, remando para o seu lado o mais distante do lado do outro. Nesse ponto cabe ao gestor o pulso firme de fazer com que todos orientem seus esforços no sentido contrário de suas próprias verdades para alinhá-los na direção das verdades da empresa, provocando assim insatisfação generalizada.
Se esse tipo de conduta reconduzisse a todos na direção de uma verdade realmente verdadeira, penso que todos se beneficiariam, mas nesse caso todos acabam por se prejudicar, inclusive as organizações. Essa é uma das dificuldades de que padecem a maioria das empresas. Esse tipo de conduta produz uma competitividade corrosiva. A ideia de competitividade original que era a de selecionar os melhores profissionais acaba por ser fomentada dentro do ambiente de trabalho entre os melhores, que acabam por não dar de si o seu melhor por não ver o menor sentido nisso. É nesse ponto que a filosofia pode e deve entrar com seu papel de reflexão conciliadora.
    

3.      O resgate da filosofia

Algumas das ocupações mais tradicionais da filosofia é buscar o sentido das coisas. Não uma significação particular subjetiva, mas um sentido próprio e genuinamente verdadeiro que por si só se impõe como valor e arrasta as diversas condutas para a mesma direção por força de sua própria autoridade de verdadeira. Por outro lado, uma das coisas que mais reduz o desempenho profissional é justamente a falta de sentido experimentada por quem executa a atividade profissional mecanicamente.
Experimentamos toda sorte de conflitos que geram estresse, desmotivação e falta de engajamento. As empresas pretendem excelência profissional com o menor custo possível. Querem profissionais criativos, mas que sigam os processos previamente estabelecidos. Querem que seus faturamentos aumentem sem ferir a sustentabilidade. Querem obter mais lucro, mas com o menor esforço.
Essas inconsistências podem não revelar suas contradições internas se olhadas pelo paradigma utilitarista, mas uma reflexão mais profunda facilmente revelará a completa falta de sentido dessas e de inúmeras outras práticas do mundo corporativo e que hoje são bastante insuspeitas. Mas a reflexão profunda ficou proscrita junto com a metafísica, a arte e o sagrado. Será preciso oferecer um indulto para que ela possa resgatar seu próprio valor. O próprio estilo de pensamento utilitarista não conseguirá sozinho resgatar a ideia de verdade, tampouco observar suas próprias inconsistências internas. A utilidade tem características próprias e usos próprios que foram bastante uteis em determinada época e em determinadas circunstâncias, mas é incapaz de oferecer respostas adequadas para coisas que ultrapassam sua competência. É preciso resgatar do calabouço não somente a filosofia, mas uma porção de outras maneiras de pensar que vão muito além do pensamento utilitarista. Não será preciso deixar de pensar de modo utilitário, mas apenas utilizá-lo para aquilo a que ele se presta melhor. Para todo o restante podemos ter um conjunto de outros modos de pensar, mas ricos e elegantes.




REFERENCIAS

BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1842

GALVÃO, Jadir Mauro. Filosofia nas empresas. São Paulo: Paulus, 2014

ROBINSON, Joan. Liberdade e necessidade. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Coleção Os Pensadores)




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Nasci e cresci dentro de um cenário de emprego. Quase tudo girava ao redor dessa ideia. Dentro de uma família que trabalhava empregado em grandes empresas. As pessoas organizavam suas vidas dentro dessa realidade que por arrastar um grande contingente soava como realidade última e natural, assim como respirar ar. Dormia-se cedo, pois o emprego cobrava. Estudava-se para se ter melhor sorte no emprego. Se, por obra da sorte ou do acaso, ocupássemos uma vaga na área de contabilidade, de compras, de vendas ou outra qualquer de uma grande empresa, o mais “natural” era dedicar seus estudos a essa área, pois isso iria potencializar suas oportunidades. Perder o emprego era contingência e a busca por outro o caminho a ser seguido.

Nem todos conseguiam ocupar vagas em grandes empresas, mas essa possibilidade era sonho majoritário. Um cargo de liderança em uma grande organização era sinal de prestigio, bom salário, competência e mesmo a garantia de certa estabilidade financeira. Faculdades guiavam seus esforços no intuito de prover o conhecimento necessário para que seus formandos tivessem a capacidade de ocupar boas vagas dentro desse mercado. Algumas empresas mesmo usavam a formação em determinadas instituições de ensino como critério ou requisito de seleção.

As ofertas de emprego eram exigentes, mas fartas. Havia certa sazonalidade das profissões, mas um mercado aquecido também aquecia a oferta, tanto quanto a concorrência. Tudo isso era alavancado por um crescimento econômico sem precedentes e que oferecia um razoável mercado para profissionais de diversos tipos e múltiplas competências. Em geral não se consultava previamente as qualidades dos postulantes a profissional. Era a necessidade do mercado de trabalho que regia a lei de oferta e procura de empregos, bem como a direção de seus esforços da educação e das pessoas. Se o mercado tivesse necessidade de engenheiros, jovens de todos os lados de acotovelando para conseguir formação na área com maior carência. Se por outro lado o mercado precisasse de economistas, seus profissionais eram mais bem remunerados e dai em diante. As regras eram ditadas pela empregabilidade, estabilidade profissional, remuneração, etc. Se não eram profissões altamente técnicas, ainda havia bastante espaço para as posições dentro da burocracia administrativa. Um formado contador poderia ocupar vagas em contas a pagar, a receber, contabilidade, finanças, custos e outros mais.

Este cenário perdurou por várias décadas e muitos, como eu mesmo, viram nessa dinâmica algo de real e verdadeiro que duraria por todo o sempre. A mecânica de funcionamento da sociedade contemporânea. Qualquer que fosse o regime político a interferência no processo seria maior ou menor, mas, de qualquer modo, incapaz de modificar significativamente o quadro. Algumas épocas de recessão, de crise econômica ou até mudanças na economia arrastavam as vagas da indústria para o comércio, depois para os serviços, bancos, financeiras. Surgiram com vigor os cartões de crédito, as seguradoras e os negócios que giravam para o e pelo dinheiro acabaram por arrastar elevados contingentes de profissionais para suas fileiras. As crises faziam minguar as vagas, mas tempos depois elas reapreciam, redimensionadas, reconfiguradas, pagando um pouco menos, mas perduravam.

Mas algumas das regras desse jogo já prenunciavam seu destino. Redução de custo, redução da folha de pagamento, fusões, mercado globalizado, computação, robotização, otimização de processos, adoção de boas práticas, automação comercial, sistemas de gestão, sistemas gerenciais... Tudo isso fazia o barco remar na direção da parte mais rasa do rio até então caudaloso de oportunidades profissionais. Todo o ganho de excelência administrativa, todo o crescimento econômico alcançado, não teriam como desembocar, senão no cenário atual de crise de emprego. A curva de crescimento que teve seu pico nos anos 70, 80 e 90 tomou outra direção e começou a entrar em franco declínio.

Não se trata de uma crise momentânea para depois se reaquecer, mas de se estabilizar num patamar mais condizente. No fundo, o bum do crescimento econômico produziu uma quantidade de empregos que não poderia se sustentar sem que isso produzisse efeitos danosos a todos. A produção da indústria se estabilizou, o comércio acompanhou e também reduziu. Cresceram os serviços, mas a ponto de também não conseguirem absorver todo o contingente migratório da indústria e do comércio.

No fundo o cenário de abundância de empregos cresceu como uma bolha e, como tal, cedo ou tarde explodiria ou murcharia. A farta oferta de empregos ao longo de décadas funcionou como um grande torrão de açúcar próximo a um formigueiro. Mas, o fato de o cenário perdurar por décadas nos fez acreditar que seria uma maneira perene de ser e de existir. Não havia necessidade de outro tipo de economia, de outros tipos de trabalho, nem de organização profissional. O emprego supria a necessidade da maioria. Arrastava potenciais atores para o perfil de vendas, músicos para funções burocráticas, agricultores para as fábricas, pensadores para o ramo da computação. Era mais fácil aproveitar as oportunidades e as razoáveis remunerações do que arriscar tentar ganhar a vida com a arte, com a música ou com a filosofia.   

Hoje o mundo experimenta uma grande crise de emprego. Não que não exista trabalho, o que minguou foi o emprego. Aquele trabalho focado na iniciativa privada, com fins lucrativos. Trabalho privatizado, pago por quem tem uma empresa e precisa crescer, aprimorar e atingir novos mercados. As grandes empresas cresceram, alcançaram novos mercados. Se estabilizaram em seu mercado consumidor. Já estabeleceram suas posições, compraram seus concorrentes que ofereciam maior risco. Atingiram certo grau de excelência administrativa que não requer mais tanta mão de obra. E da mão de obra necessária nem é necessária grande competência. Os processos se incumbem de mitigar os riscos de inexperientes. Os movimentos de crescimento que ocorriam aqui, lá e acolá por onde se olhasse agora funcionam como esperança dos que não perceberam a mudança de cenário, tanto quanto refutação para nosso argumento. Nos pequenos focos de crescimento se aglutinam grandes porções de desempregados reivindicando valores cada vez menores e se dando por contente com uma oportunidade de emprego por tempo determinado, mesmo que terceirizado ou quarterizado.

O emprego continuará existindo, mas demandando cada vez menos profissionais e a população precisará encontrar outros meios de subsistir. Hoje ainda temos esse enorme contingente de desempregados procurando desesperadamente e em vão pelas antigas vagas de trabalho.

O cenário mudou, definitivamente mudou. Não é uma crise ou acomodação momentânea. O cenário mudou, mas ainda não se reconfigurou. Veremos ainda muitas crises na educação, pois as faculdades ainda estão formando profissionais para integrar esse mercado ora extinto. Nos serviços, pois os restaurantes e lojas que funcionavam próximos aos escritórios terão de se ver com o Home Office, com o desemprego etc.

Longe da tutela de um grande emprego em uma grande empresa os profissionais precisarão buscar alternativas para seu ganha pão. Em resposta a tudo isso vem ganhando força algumas ideias que nem são assim tão novas, mas que surgem como válvula de escape. Economia colaborativa, associativismo, cooperativismo, organizações do terceiro setor. Economia de bens intangíveis onde se pode produzir sem agredir o meio ambiente. Novos conceitos como uso substituindo a propriedade. Compartilhamento de serviços de espaços. Não nos basta “procurar” por oportunidade, precisaremos criá-las. Todo o cenário descrito anteriormente também nos estimulou a um individualismo que desembocou num certo grau de egoísmo, e essa característica não é muito bem-vinda se pensarmos em ideias associativistas. A população civil terá de se rearranjar, de se reagrupar, de criar cenários econômicos para além de produzir e vender. É uma reconfiguração profunda nas ideias de empreender, de trabalhar, de consumir, de ter, ganhar, comprar. Precisaremos visitar outras páginas no dicionário para compreender o significado de contribuir, cooperar, usufruir, utilizar, disponibilizar e inúmeros outros verbetes que há tempos não visitávamos.

A maioria das faculdades, sobretudo as grandes redes de ensino superior, não são mais empresas de educação, mas sim empresas comerciais. Talvez tenhamos de remodelar a ideia de escola. Diferente do modelo de empresa privada com fins lucrativos, para um modelo cooperativo. Talvez não apenas formando um técnico apto para uma vaga de emprego técnico ou burocrático, mas oferecer um real ensino superior.

Será melhor, como tenho recomendado ao longo dos anos, primeiro verificar os talentos, os dons internos das pessoas para depois ver como coloca-los a serviço não do emprego, nem da indústria ou de bancos, mas sim da sociedade em geral, da coletividade.