quinta-feira, 28 de junho de 2012

Criatividade, processos e boas práticas!


Com freqüência lemos em alguma revista especializada ou ouvimos dizer que as empresas valorizam profissionais criativos. Por outro lado percebe-se um grande empenho das organizações em mapear processos e listar e divulgar boas práticas. Nada contra qualquer uma dessas iniciativas, mas vale dizer que elas se auto-anulam.

            Processos são, bem grosso modo, sequencias de procedimentos repetidas ao longo do tempo e que mostraram sua eficiência para chegar ao resultado esperado. Boas práticas são o modo como são executados esses procedimentos como correções, verificações, check-list’s, que, se bem repetidas, terão a capacidade de arredondar o processo tornando-o ótimo ou excelente. Contudo precisamos esclarecer que expectativas, processos e boas práticas são sempre modos de repetir no futuro algo que “deu certo” no passado. Tanto quanto dar certo é ter uma expectativa determinada e agir de modo a que se atenda exatamente essa expectativa e que outras coisas não aconteçam.
            Diferente disso tudo criatividade pode ser entendida de dois modos: Primeiro como algo que é novo por se tratar claramente coisas que não se assemelham ao antigo e desse modo nunca podemos ter em mente processos, tampouco boas práticas, pois essas são representantes da repetição do antigo e segundo criatividade como algo que é completamente desprovido de expectativas, onde o que impera é a surpresa, isto é, não existe a comparação nem o contraste com o antigo e ai mais ainda o processo e as boas práticas nem sequer batem à nossa porta.

            Criatividade, sem bem podemos dizer de modo genuíno, é desprovida de expectativa, ou melhor as expectativas não são de ordem prática. Permite-se a surpresa e o brilhantismo. Não se pode falar em fracasso quando tratamos de criatividade, pois fracasso é tão somente a inadequação do resultado com o esperado. E na criatividade essa inadequação tem outro nome: surpresa! Claro, a surpresa pode ser agradável ou desagradável, mas a criatividade é evolutiva enquanto o processo é, quando muito, generativa. Podemos querer otimizar o processo, mas só a criatividade nos conduz a outro patamar evolutivo mais elevado. A otimização do processo pode somente nos levar ao ápice do patamar evolutivo que já nos encontramos. A criação é um salto! Nõa um salto quantitativo, mas qualitativo.
            Assim, se você, enquanto líder, tem em mãos realmente um profissional criativo e o coloca para atuar dentro de um processo e recomenda boas práticas, você está, sem saber, matando o potencial criativo do seu profissional. Senão matando ao menos amarrando seus braços e pernas. Do mesmo modo se sua métrica de avaliação tiver por base as mesmas metrificações do processo só enxergará diante de você uma pessoa medíocre. Dito de modo bem claro: o processo transforma o gênio em imbecil!
Quando você tem um bom processo e boas práticas bem mapeadas qualquer profissional mediano é capaz de executá-lo. Contudo, como falamos trata-se de repetição e, como tal, a repetição assim o é justamente pela falta da surpresa e a falta da surpresa é sempre enfadonha. Não estranhe se o nível de erros na condução do processo aumente de tempos em tempos. Não se trata de incompetência de seus profissionais, mas sim da falta de surpresa. Existem bons profissionais que se adaptam bem à execução de processos, mas não exija deles criatividade e brilhantismo. Tampouco coloque profissionais brilhantes e criativos sob o jugo do processo, isso irá cercear sua criatividade e apagar seu brilho.
E você que acredita ser um profissional criativo e está sendo fustigado por um alto índice de insatisfação, veja se isso não é por conta do processo que você esta sujeito.

De qualquer modo, é importante ressaltar que no processo o resultado é sempre previsível e será avaliado, de acordo com a expectativa em sucesso ou fracasso, já na criatividade o resultado é sempre surpreendente. Mesmo que exista alguma expectativa qualquer inadequação ao resultado é simples surpresa, mas nunca fracasso. Portanto pensar em profissionais criativos dentro de processos é sistematicamente anular a criatividade ou inutilizar o processo.        

domingo, 24 de junho de 2012

Talento e mercado de trabalho!


Interessante ver como algumas práticas comuns em épocas antigas ainda resistem nos dias de hoje. Ainda verificamos passar de pai para filho ou de mãe para filha o “ofício” de rendeira, a manufatura de cestas de vime, o artesanato de carrancas; o fabrico de barcos artesanais, a própria atividade da pesca. Novas gerações continuando o ofício dos pais. Em tempos idos essa era uma prática tão comum que por vezes oferecia o sobrenome à família. Ainda hoje vemos gente famosa preservando o sobrenome de Sapateiro, Açougueiro, Alfaiate, entre outros tantos. Contudo, nas grandes metrópoles o que mais se verifica é a escolha da profissão balizada pelo mercado de trabalho.
Certa sazonalidade pode fazer com que tenhamos em um período, menor número de engenheiros, em outra de médicos... Avanços tecnológicos podem fazer esse mercado padecer da falta de especialistas na dita tecnologia e, com isso, sobrevalorizar a atividade especializada, tanto quanto provocar uma corrida desenfreada para se conseguir formação adequada nessa área e,  com isso, aproveitar o momento para dar um upgrade na remuneração.

Seria prematuro dizer que o talento para exercer o ofício de alfaiate fosse preservado de pai para filho por algum tipo de hereditariedade, tanto quanto seria imaturo dizer que o mercado de trabalho teria a capacidade de forjar engenheiros, médicos ou professores. Mas também ficar dentro desses limites das profissões classicamente demarcadas e estabelecidas é acreditar que a marcha do progresso se dê apenas dentro de muros estreitos. Não é isso que se verifica. Embora as universidades ainda formem, administradores, médico e engenheiros, na prática surgem a todo instante determinados tipos de atividade profissional que até então não existiam. Hoje temos designers de todos os tipos para uma variada sorte de produtos; Programadores de computadores, líderes de projetos e toda uma sorte de atividades que seria insano mapear.
Em termos gerais poderíamos pensar, de modo abstrato, que cada uma dessas atividades (já não falo mais em profissão e nem oficio), requeira um mix de competências, que muitos de nós podemos desenvolver, mas gostaria de concentrar o foco na ideia de talento.

Quero chamar de talento, até para não confundir com a ideia de competência ou de inteligência, aquelas aptidões naturais que afloram sem o menor treinamento, muitas vezes até em terna idade. Gostaria de definir talento como aquelas atividades que realizamos com imensa facilidade, grande prazer e que não nos requerem qualquer esforço e que por serem assim tão simples para quem realiza, muitas vezes não damos o menor valor, muito embora outros, sem a mesma aptidão achem impressionantes!
Lembro de um amigo que tinha um filho bem pequeno que fazia bonecos de argila com tanta facilidade e perfeição que conseguiria arrancar elogios até de mestre Vitalino. Colocá-lo para realizar atividades burocráticas dentro de um banco seria ao mesmo tempo assassinar um artista quanto forjar um incompetente. Digamos até que a atividade bancária pudesse se apresentar tentadora, na medida em que, com a participação nos resultados isso pudesse oferecer uma remuneração superior à que ele conseguiria com as artes plásticas, mas a atividade do artista se não fosse exercida ao menos como hobby, certamente provocaria um sentimento de profunda insatisfação.
Percebo no mundo corporativo uma quantidade enorme desse tipo de exemplo. Pessoas suportando atividades que lhes exigem grande esforço por não terem aptidão alguma para executá-las e talentos desperdiçados competindo em desigualdade com os mesmos incompetentes que cobram menos para fazer de qualquer jeito.
São essas mesmas pessoas que quando acordam pela manhã vão à luta, que quando voltam do almoço vão para o segundo round!
Por outro lado, quando já em idade madura resolvi trocar a análise de sistemas pela filosofia, muitos acreditavam tratar-se de uma mudança radical. Ledo engano, pois os talentos exigidos para ambas atividades é bastante similar. Se como analista de sistemas eu buscava entender o funcionamento de determinado processo de uma empresa, sua sequencia lógica e buscar os meios de racionalizá-los de modo a serem executados com maior eficácia, eu utilizava de uma alta capacidade de abstração e sistematização. Para a filosofia isso também é válido. O que mudou foi o tamanho do sistema. De um processo de compras ou de cálculo de juros passei a pensar um processo histórico de formação de uma cultura. 



              Chegamos agora aos pontos precisos que gostaria de tocar: Primeiro, que tomar como critério de escolha de nossa atividade o mercado de trabalho ou a atividade dos pais é ficar sujeito a fatores que nos são bastante alheios e com isso entregar à sorte os rumos de nossa força produtiva. Se conseguirmos encaixar nossos talentos nessa atividade muito bem, caso contrário, teremos de lidar todo o tempo com a amargura da incompetência. Se, por outro lado, tomarmos por base primeiro nossos talentos mais naturais e com ele descartarmos as atividades onde esses talentos não são interessantes. Teremos diante de nós apenas atividades que poderemos exercer com facilidade, desenvoltura e prazer. Transformar essa atividade que realizamos com talento em uma atividade lucrativa passa agora a uma mera questão de: “como?”