quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A sociedade em tempo de capitalismo insustentável.


O tema da sustentabilidade ainda que não tenha conseguido a proeza de compor como peça integrante o emaranhado teórico que faz emergir nossas mais cotidianas ações, amiúde visita alguns de nossos pensamentos. É possível vê-la presente em ações de menor impacto como o descarte adequado de algum resíduo da civilização do consumo. Uma latinha lá, uma caixa ali, uma embalagem acolá, mas e essa embalagem? Difícil definir se jogamos no plástico ou no metal. Bom, alguém deve saber separar adequadamente esse material, então escolhemos uma das duas e jogamos nossa embalagem da batatinha e desoneramos nossa consciência deixando-a tranqüila com mais uma boa ação.
Tanto quanto muitos de nós, o mundo se questiona sobre o tema da sustentabilidade. Inúmeras conferências reunindo dignos representantes de grandes nações pensam em como viabilizar economicamente um mundo sustentável. Eco 92, Rio +20 entre outras tantas serviram para se discutir e avançar na temática sustentável, mas ainda vejo mais confusão do que direção. Ora, quando se pergunta sobre a viabilidade econômica para um mundo sustentável admite-se tacitamente que existe em nossa consciência um privilégio do econômico sobre o ecológico. Pode-se crer a partir dessa pergunta que se não for economicamente viável poderemos então tolerar um planeta insustentável o que seria um absurdo lógico, pois uma economia somente pode ocorrer em um planeta que pode comportar a vida dos seres humanos. A conseqüência disso seria toda a humanidade morrendo, mas com dinheiro no bolso! Uma vez não havendo planeta, - ou melhor, condições de vida humana no planeta, pois ainda que desmatado, ferido, sujo e desfigurado o planeta continuará ai -, economia alguma subsistirá, tampouco o homem!
Quero crer que isso se deve ao fato de que se interpôs o conceito de economia para mediar nossa relação com o planeta – penso que Henri Bergson atestaria essa afirmação caso estivesse ainda conosco. Perdemos uma relação imediata e acreditamos estar sempre sujeitos a essa mediação. Não é lógicamente muito menos ecologicamente necessário o questionamento sobre a viabilidade econômica para se ter um planeta sustentável. A economia, uma vez que fora criada pelo próprio homem pode eventualmente ser recuperada, modificada, transformada, abolida, o planeta pode não ser!
Uma vez que essas reuniões são, no mais das vezes, orquestradas pelas grandes potencias mundiais que assumiram para sí um papel de liderança no sentido de arbitrar sobre o tema da sustentabilidade, pode-se admitir que a pergunta sobre a viabilidade econômica para se ter um mundo sustentável tenha por pano de fundo uma outra questão escamoteada, a saber: quem irá arcar com o ônus das ações com vistas à sustentabilidade? Ora, se tomassem somente para si esse ônus, correriam o risco de perder o status de nações ricas, mas uma vez que o ônus seja compartilhado democraticamente o status, tanto quanto os privilégios perdurariam. O questionamento não é necessário, mas somente se dá na medida em que se querem mais sócios minoritários para essas ações.
Por outro lado, tampouco a nossa própria relação com o planeta se dá de modo imediato. Elegemos (ou não!) um ou mais tutores para mediar essa relação. Continuamos a acreditar que alguém deve fazer alguma coisa e com isso retiramos o ônus dessa responsabilidade de nossos ombros. Jogamos a latinha ou a embalagem nos cestos coloridos e acreditamos estar fazendo a nossa parte! Mas quem é esse alguém? O governo, as empresas, as ONG’s ecológicas? Ora o que são essas ONG’s senão possibilidades de nós mesmos da sociedade civil nos organizarmos em torno dos temas que nos afetam? Organizações não governamentais, que não visam o lucro e portanto não são empresas. São sociedades que atuam e que podem adquirir força suficiente, advinda da união de muitos em torno de um ideal, para discutir em pé de igualdade com os outros atores, isto é, empresas e governos. Temos um papel que pode ser decisivo nessa questão e só não será se, influenciados por uma super estrutura teórica que preconiza a individualidade e a competição com o outro, não nos organizarmos em torno de uma cooperação mútua.
Cedo ou tarde precisaremos nos defrontar com o problema do consumo, do descartável, do lixo, da impermeabilização do solo, com o desmatamento e nem falo o de florestas, mas mesmo o desmatamento das cidades. Esse desmatamento urbano provoca um aquecimento. Se ainda não é um aquecimento global ao menos é local. Tapamos o sol com a peneira ou com o ar-condicionado para arrefecer o calor. Reclamamos das enchentes e criamos os piscinões, aí reclamamos da dengue e nos abrigamos nos shoppings. Compramos e jogamos as embalagens nos cestos coloridos, novamente dragados pelo redemoinho do consumo e da economia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Hábitos de consumo!


Geladeira, fogão, ferro elétrico, máquina de lavar roupa, celular...  Todas essas coisas são classificadas dentro da economia como “bens duráveis”. Contudo, ultimamente eles não andam durando muito! Por mais que estejamos satisfeitos com nosso moderno aparelho de celular, ao cabo de pouco mais de um ano, se tanto, ele dará seus evidentes sinais de esgotamento. A bateria já não segura carga e o aparelho desliga no meio da ligação, ou então sua carenagem já apresenta riscos que o enfeiam, ou somente porque ele não está mais na moda. Claro, poderíamos adquirir outra bateria, trocar a carenagem, mas muitos sabem que para efetuar tais reparos ficaria “quase” o mesmo preço de um aparelho novo e mais moderno. Então trocamos. O mesmo vem se dando com outros tantos bens duráveis. As peças do motor ou do mecanismo de funcionamento de geladeiras e máquinas de lavar roupa, após seu desgaste natural (ou proposital!), precisam de reposição. Em muitos casos somando-se mão de obra e tudo mais, a manutenção fica financeiramente inviável. Essa é uma guerra entre produção e consumo que não se dá em pé de igualdade. Os aparelhos são feitos para ter uma duração pequena para podermos voltar a consumir o produto novo girando a economia. Não fosse apenas o problema de produzir lixo de lenta decomposição, impossível reutilização e de difícil reciclagem. O próprio fato de sermos manipulados já é revoltante. Acho que esse é um ponto central no fraternalismo. Acho que uma nova postura deveria ser a de recuperar a todo custo nossos bens duráveis. Consertar, consertar até realmente não dar mais, mas, sobretudo, mapear as empresas fabricantes para que elas mesmas durem tanto quanto seus produtos. Uma empresa que fabrica bens que não duram, também não deveria durar! Esse seria um grande “selo verde” de consumidores conscientes. Claro, que precisaríamos mudar também nossa postura. Falamos em reciclagem e até jogamos nossas garrafinhas e latinhas no lixo reciclável, mas não reutilizamos. Uma mesma garrafinha pode ser usada por bastante tempo, mas logo vai para a reciclagem sem antes ser reutilizada para outros fins.
Não se trata de refrear os avanços tecnológicos, mas de ter um consumo consciente. A maioria das pessoas que tem notebooks ou celulares sequer utilizam 30% do potencial que a tecnologia oferece. Se a tecnologia é interessante e nos proporcionará um benefício compensador. Tudo bem! O que não podemos é ficar refém de uma compulsão pelo consumo. Ficar passivos ante a uma descarada manipulação! Claro isso irá exigir que olhemos para nossa televisão “velha” por mais alguns anos. Que nosso divertimento de explorar o celular novo fique para mais pra frente, mas pense bem: O aparelho que apenas sai da sua frente não deixa de ser problema seu. O que é feito desse aparelho? Será que se rastrearmos suas peças não as encontraremos em algum rio ou em algum lixão por ai em algum ponto daquela montanha de coisas mal descartadas, poluindo o lençol freático? Que confiança você tem de que o seu lixo será descartado ecologicamente? Não temos como garantir isso então que tal refrear nosso ímpeto de consumo somente a produtos realmente duráveis feitos por empresas também duráveis?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Respeito!


Falei tempos atrás sobre algumas ilusões generalizadas que por serem compartilhadas por um grande numero de pessoas nos aparecem com ares de verdade. Entre essas ilusões esta nossa idéia de respeito. Tantas pessoas entendem respeito de um modo bastante peculiar. Acreditam que respeitar é aceitar o outro como ele é. Aceitar placidamente como o outro pensa acreditando que “essa é sua opinião!”. Não, isso não é respeito, isso é não se envolver!  Quando estamos envolvidos nós nos incomodamos. O modo como se pensa interfere diretamente nas ações como também nas reações.
Quando alguém que nos é caro faz algo que nos incomoda, não nos cabe simplesmente respeitar o modo de agir e de pensar do outro. Quando agimos temos como guia todo um conjunto de crenças, valores, que nos fazem ter um modo particular de ver o mundo, de agir nele e de esperar do mundo uma determinada resposta. Se a outra pessoa faz algo que colide com esse nosso modo de ver o mundo ela também de algum modo esta desrespeitando o modo como eu vejo o mundo. Não que ela esteja me desrespeitando, mas o meu modo de ver o mundo está sendo desrespeitado.
Por outro lado não há que se respeitar todos os diversos modos de ver o mundo, isso é completamente impossível. Aceitar o que o outro faz é desrespeitar a si próprio. Afrontar o outro é desrespeitá-lo. Quando ocorre esse tipo de colisão, de confronto entre diferentes sistemas crenças de pessoas que se importam entre si, dói, machuca, incomoda! Tampouco conseguimos ceder sempre pelo bem da relação! Sempre que voluntariamente cedemos, isto é, engolimos sem concordar com a atitude do outro, também colocamos um pesinho de um dos lados da uma balança imaginária e ficamos aguardando que o outro deposite outro tanto no outro prato da balança para ficar equilibrado. Coisa que raramente ocorrerá e se ocorrer pensaremos sempre que o que nós depositamos foi maior até pelo fato de que medimos o peso do outro com os nossos próprios critérios, mas o fato é que sempre aguardamos, - quando não cobramos – uma contrapartida.
Bom, pelo rumo da conversa qual é solução?
O problema é que pensamos respeito de modo errado. Pensamos conflito de modo errado. Buscamos evitar o conflito, buscamos preservar nosso espaço e o outro age do mesmo modo. Uma vez instaurado o conflito ele deve ser resolvido, ou ultrapassado ou tolerado. Não há que se evitar o conflito, ou encará-lo como lamentável fatalidade. O conflito faz parte de nossa vida e devemos aprender a conviver com ele. Tirar o máximo proveito dele.
Como disse, o modo que pensamos nos faz agir de determinado modo e nos faz ter determinadas expectativas. Mas a ação, tanto quanto a expectativa são a parte mais superficial do que somos. Se tudo vai bem nessa camada superficial é nessa mesma superficialidade que reside a relação. Nenhuma relação será realmente profunda se não revolver e abalar o mais profundo de nos mesmos. Uma relação que não nos abala no mais profundo de nós mesmos é somente uma relação superficial.
O primeiro passo é confrontar os fundamentos mais primordiais que edificam nosso modo de pensar e de agir no mundo e questionar sua coerência e sentido. Se saímos fortalecidos desse primeiro confronto com o nosso próprio espelho nosso dever é questionar o outro do mesmo modo. Corremos, contudo, o risco de ver insultadas nossas vaidades, mas, cá entre nós, se as vaidades têm mais força que a relação, então, abandone a relação. Mas se a relação nos for suficientemente cara, então, abandone as vaidades!
Se o conflito nos fez refletir, repensar nossas convicções e transformar nossa postura; crescemos com isso e o responsável pelo crescimento foi exatamente o conflito. Não haveria a transformação sem o conflito. Todavia não há que se exigir do outro, postura idêntica. Que tenhamos claro que o outro necessite do mesmo grau transformação, mas se ele ainda não chegou a essa conclusão, nos cabe respeitar seu momento. Não que devamos aguardar pacientemente até que o outro caia em si espontaneamente. Podemos dar uma forcinha e fomentar vez por outra o conflito. Costumo usar uma imagem para ilustrar o que acabei de dizer. Todos que já viram um pé de limão sabem o tamanho de seus espinhos. Não há que se subir no pé para apanhar o limão, os espinhos não o permitiriam. Tampouco há que se ficar aguardando no chão até que um ou outro limão resolva cair por livre e espontânea vontade. Nesses casos enfia-se um belo pontapé no tronco do limoeiro de modo a abalar o máximo possível. O limão que estiver maduro vai cair. O que ainda não estiver maduro ainda vai ficar paradinho lá no alto aguardando até estar maduro.

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu só queria te entender!


Essa é outra ilusão que por ser compartilhada por muitos acaba por ser considerada natural ou prática sem maiores comprometimentos. Vou fazer algumas afirmações um tanto quanto categóricas e sei que elas certamente irão confrontar com o que estamos habituados a pensar.

- Todo ato de entendimento é necessariamente um ato de julgamento.
- Todo ato de entendimento é também um ato de controle
- Todo ato de entendimento é também uma ausência

Quando tentamos entender alguém procuramos perceber suas práticas mais habituais e confrontamos com aquilo que historicamente em nossa vida já foi fruto de avaliação.  Claro, não temos como aquilatar aquilo que é novo, portanto recorremos ao nosso passado e, sobretudo, tomamos por base a similaridade que tais comportamentos têm com o comportamento de outras tantas pessoas. Acabamos, com isso, por comparar comportamentos e aquilatar condutas. Na maioria das vezes acabamos por desprezar o contexto de ambas e ficamos apenas com a parte superficial. Apenas o comportamento e a esse juntamos seu significado histórico por nós atribuído. Esse procedimento que nos é tão habitual acaba por oferecer como que uma tábua de significados dos comportamentos, crivados da chancela de “certo” ou “errado”. Mesmo sem consciência e na maior das boas intenções acabamos por julgar a tudo e a todos por esses critérios de modo bastante impessoal. Esse procedimento é ato habitual do entendimento e mesmo que não tenhamos a intenção acabamos por julgar a todo instante baseados apenas nessa nossa tábua de significados. Julgamos, absolvemos e condenamos baseados em nossos próprios critérios pessoais.
Fazemos tudo isso sempre no intuito de balizar a nossa própria conduta. Como devemos proceder para conseguirmos determinado tipo de resposta específica do outro. Queremos, mesmo que o outro reaja de um tal modo à nossa conduta e não de outro. Nosso maior esmero em colecionar comportamentos e significados visa também eleger quais são nossas práticas mais produtivas e bem sucedidas. Pensamos como devemos agir de modo a obter como resposta exatamente aquilo que esperávamos. Variamos nossa conduta de modo a termos ao nosso dispor o mais amplo leque de alternativas no intuito de obter sempre o que almejamos. Queremos com isso estar no controle das situações para que não nos causem surpresas inesperadas. Ocorre que assim nosso ato de entendimento do outro é sempre um ato de controle sobre o outro. A convivência nos municia de informações suficientes para esperarmos por reações razoavelmente padronizadas. Quem de nós já não usou do expediente da chantagem emocional para conseguir o que queria? Ou mesmo traçar os mais duros cenários, apenas para garantir que aconteça o que queremos?
Ocorre que o ato de entendimento do outro se faz nesse balanço entre as significações do passado e eventuais interesses futuros. Temos tanta prática nisso que na maior das ocasiões podemos supor as mais diversas respostas aos nossos mais variados comportamentos. Como se o balanço efetuado em nossa consciência entre passado e futuro pudesse exigir que o outro reaja sempre do mesmo modo. Esse balanço entre passado e futuro é tão freqüente que nos deixa ausente do próprio momento presente. Momento este que poderia nos proporcionar sentir o outro, percebê-lo com maior atenção a tal ponto que além de travarmos contato com a parte superficial de seu comportamento nos garantiria também acesso ao seu íntimo. Quem sabe até do mais profundo de seu sentimento. Ganharíamos com isso em descobrir as aflições que o exigiram a comportar-se como se comportou. Ganharíamos com isso o real motivo dentro do contexto específico e não um motivo mais fruto de nossas próprias suposições.
Nisso reside também a presunção de que o outro é uma maquininha que sempre vai agir de modo habitual. Ora, se, como se diz, Deus nos deu o livre arbítrio para agirmos a partir de nossas próprias deliberações seria profundamente insensato abrir mão dessa liberdade em prol do hábito. Habito é procedimento padrão, irrefletido e em geral descontextualizado. Prescindir de nossa liberdade em prol do hábito é cercear nossa própria liberdade de agir. Pense um pouco nisso quando quiser “entender” ou conhecer alguém.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O sempre desafiador ato de "Delegar"

Do modo como é feito costumeiramente, o ato de delegar poderia ser inserido num glossário qualquer de administração desse modo: Delegar: ato de retirar de nossas responsabilidades as atividades mais chatas e enfadonhas e que não rendem nenhum ponto com o superior imediato. Todavia, se a tarefa delegada não for satisfatoriamente cumprida pode render alguns pontos negativos. Tudo bem, no ato de delegar também vão de brinde as responsabilidades inerentes à tarefa, então poderemos colocar a culpa nas costas do incompetente que não a realizou.
 Por outro lado, se fosse encarada de modo mais sério e responsável a definição apresentada ficaria por demais carente. Primeiro precisamos saber quais as competências fundamentais precisa ter o determinado profissional para poder absorver a tarefa em questão. Uma vez de posse dessa informação, o segundo passo é o de identificar entre os liderados qual deles tem aproximadamente o perfil adequado. Aproximadamente, pois pode ser que não existam as condições necessárias, então precisaremos desafiar o profissional a desenvolver novas capacidades. Tampouco podemos negligenciar que essa possa ser uma limitação que vai envolver não só um aprendizado, mas uma superação.
Deve-se acompanhar o processo de desenvolvimento e superação e fustigar para que ele ocorra o mais breve possível, tomando o cuidado de equilibrar o nível de stress para que se transforme em motivador, mas que não sacrifique o aprendiz. Ora, se ele foi digno da confiança para a tarefa deve ter lá seu valor e esgotá-lo ao limite pode ser prejudicial para ambos. Corremos o risco de transformar o ato de delegar numa pequena fábrica de incompetência.
Após o desenvolvimento das competências deve-se acompanhar a tarefa bem de perto de modo a garantir que será executada a contento. Um cuidado especial na passagem do bastão deve ser tomado para delegarmos o objetivo final e não o como fazer. Permitir que o profissional não seja um mero reprodutor de processos, mas que possa ter a criatividade e a iniciativa de inovar nos caminhos. Desde que o objetivo seja alcançado, pouco importam os caminhos, e com freqüência, nos surpreenderemos ao ver que havia um modo de chegar a ele mais produtivo do que o nosso modo. Assim a pessoa também pode dar o seu toque pessoal que transformará a tarefa em realização pessoal, mais do que mera reprodução.
Esse seria o melhor dos mundos imaginados se fosse real. Na prática isso não é assim tão fácil. Isso porque existe um ingrediente intangível que foge ao planejamento. O obstáculo! Costuma-se pensar o obstáculo, metaforicamente, como uma pedra qualquer no caminho e que qualquer um que passasse por ele teria de enfrentar. A experiência nos dá conta de algo diverso. Os obstáculos não são meramente impessoais. Eles são nossos obstáculos e fustigam especificamente nossas dificuldades particulares. Algo como: se a pedra cair no seu pé ela não vai cair em qualquer dedo, mas cairá sempre naquele que tem aquela danada da unha encravada, ou exatamente em cima daquele calo que mais dói, ou bem na ponta do joanete. No ato de delegar certamente haverá de se superar um duplo obstáculo o de quem delega e o do outro.
Nosso modo costumeiramente egocêntrico de ver a vida costuma nos dizer que a dificuldade do outro é incompetência. Que o jeito do outro é errado. Que o outro não tem capacidade suficiente para executar e, com isso, so delegamos no pior momento possível, quando não há mais tempo para cumprir todas as etapas do processo. Acabamos por postergar a tarefa de delegar até o ponto onde ela se torna altamente crítica. Esbarramos em uma comunicação falha, uma expectativa falsa, e em um ilusório resultado perfeito logo da primeira vez. Carregamos toda a atividade de uma densa e negra névoa de stress, ambiente muito pouco apropriado para o aprendizado. Obtendo sucesso ou não, nesse modelo sempre sobram arranhões na relação entre ambos. Como ainda não estamos habituados a lidar com conflitos, mais fácil é eliminar o conflito do que superá-lo.
A experiência me contou que todo relacionamento pressupõe conflito. Se não há conflito, não há verdadeiramente um relacionamento. Quer seja profissional ou emocional. Se existem dificuldades a serem superadas no outro, haverão outras tantas a serem superadas em nos mesmos, e eliminar o conflito não vai ajudar em nada a superar nossas dificuldades. O conflito é exatamente o obstáculo que nos fustiga a todo instante e continuará a fustigar enquanto não superarmos definitivamente. Quantas dificuldades teimam em nos assombrar repetidas vezes? Mais fácil acreditar que os outros são os incompetentes e seguir arrastando nossa enorme sacola de dificuldades pessoais.