terça-feira, 4 de setembro de 2012

O sempre desafiador ato de "Delegar"

Do modo como é feito costumeiramente, o ato de delegar poderia ser inserido num glossário qualquer de administração desse modo: Delegar: ato de retirar de nossas responsabilidades as atividades mais chatas e enfadonhas e que não rendem nenhum ponto com o superior imediato. Todavia, se a tarefa delegada não for satisfatoriamente cumprida pode render alguns pontos negativos. Tudo bem, no ato de delegar também vão de brinde as responsabilidades inerentes à tarefa, então poderemos colocar a culpa nas costas do incompetente que não a realizou.
 Por outro lado, se fosse encarada de modo mais sério e responsável a definição apresentada ficaria por demais carente. Primeiro precisamos saber quais as competências fundamentais precisa ter o determinado profissional para poder absorver a tarefa em questão. Uma vez de posse dessa informação, o segundo passo é o de identificar entre os liderados qual deles tem aproximadamente o perfil adequado. Aproximadamente, pois pode ser que não existam as condições necessárias, então precisaremos desafiar o profissional a desenvolver novas capacidades. Tampouco podemos negligenciar que essa possa ser uma limitação que vai envolver não só um aprendizado, mas uma superação.
Deve-se acompanhar o processo de desenvolvimento e superação e fustigar para que ele ocorra o mais breve possível, tomando o cuidado de equilibrar o nível de stress para que se transforme em motivador, mas que não sacrifique o aprendiz. Ora, se ele foi digno da confiança para a tarefa deve ter lá seu valor e esgotá-lo ao limite pode ser prejudicial para ambos. Corremos o risco de transformar o ato de delegar numa pequena fábrica de incompetência.
Após o desenvolvimento das competências deve-se acompanhar a tarefa bem de perto de modo a garantir que será executada a contento. Um cuidado especial na passagem do bastão deve ser tomado para delegarmos o objetivo final e não o como fazer. Permitir que o profissional não seja um mero reprodutor de processos, mas que possa ter a criatividade e a iniciativa de inovar nos caminhos. Desde que o objetivo seja alcançado, pouco importam os caminhos, e com freqüência, nos surpreenderemos ao ver que havia um modo de chegar a ele mais produtivo do que o nosso modo. Assim a pessoa também pode dar o seu toque pessoal que transformará a tarefa em realização pessoal, mais do que mera reprodução.
Esse seria o melhor dos mundos imaginados se fosse real. Na prática isso não é assim tão fácil. Isso porque existe um ingrediente intangível que foge ao planejamento. O obstáculo! Costuma-se pensar o obstáculo, metaforicamente, como uma pedra qualquer no caminho e que qualquer um que passasse por ele teria de enfrentar. A experiência nos dá conta de algo diverso. Os obstáculos não são meramente impessoais. Eles são nossos obstáculos e fustigam especificamente nossas dificuldades particulares. Algo como: se a pedra cair no seu pé ela não vai cair em qualquer dedo, mas cairá sempre naquele que tem aquela danada da unha encravada, ou exatamente em cima daquele calo que mais dói, ou bem na ponta do joanete. No ato de delegar certamente haverá de se superar um duplo obstáculo o de quem delega e o do outro.
Nosso modo costumeiramente egocêntrico de ver a vida costuma nos dizer que a dificuldade do outro é incompetência. Que o jeito do outro é errado. Que o outro não tem capacidade suficiente para executar e, com isso, so delegamos no pior momento possível, quando não há mais tempo para cumprir todas as etapas do processo. Acabamos por postergar a tarefa de delegar até o ponto onde ela se torna altamente crítica. Esbarramos em uma comunicação falha, uma expectativa falsa, e em um ilusório resultado perfeito logo da primeira vez. Carregamos toda a atividade de uma densa e negra névoa de stress, ambiente muito pouco apropriado para o aprendizado. Obtendo sucesso ou não, nesse modelo sempre sobram arranhões na relação entre ambos. Como ainda não estamos habituados a lidar com conflitos, mais fácil é eliminar o conflito do que superá-lo.
A experiência me contou que todo relacionamento pressupõe conflito. Se não há conflito, não há verdadeiramente um relacionamento. Quer seja profissional ou emocional. Se existem dificuldades a serem superadas no outro, haverão outras tantas a serem superadas em nos mesmos, e eliminar o conflito não vai ajudar em nada a superar nossas dificuldades. O conflito é exatamente o obstáculo que nos fustiga a todo instante e continuará a fustigar enquanto não superarmos definitivamente. Quantas dificuldades teimam em nos assombrar repetidas vezes? Mais fácil acreditar que os outros são os incompetentes e seguir arrastando nossa enorme sacola de dificuldades pessoais.

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