sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Panorama da crise I

Panorama da crise I.

O momento é de reflexão! Ora estamos mergulhados em uma crise internacional. É possível que você ainda não tenha sentido na pele os efeitos desta crise, mas qualquer que seja o caso, não podemos fazer vista grossa para este fato. Certo que o governo brasileiro tem tentado esforços no intuito de minimizar seus efeitos ou de maquiá-los. Contudo estamos em época de globalização, o que significa dizer que nosso mercado de trabalho esta entremeado de empresas multinacionais com sede em outros países onde a crise é ainda mais séria e neste contexto o efeito cascata é inevitável. Traçando uma pequena história dos últimos anos, a oferta de crédito em nosso país foi bastante expressiva, para compra de bens de consumo, bens móveis e imóveis. Podemos até postergar o pagamento da passagem do ônibus que você vai tomar agora para daqui a quarenta dias! O que estou dizendo é que, somente alguns poucos privilegiados não têm comprometidos várias de suas horas de trabalho dos próximos meses, ou anos, para pagar um tipo qualquer de financiamento. Isto não seria problema se nós estivéssemos com uma farta oferta de trabalho, contudo isto não é assim totalmente verdadeiro. Salvo alguns outros privilegiados que dispõe de um amplo mercado de trabalho o risco de cessar nossa entrada mensal é bastante grande e aí começa o drama psicológico. Nossa roda continua girando. A despeito de não ter aonde ir na próxima segunda feira suas contas de consumo e seus boletos dos mais variados credores sabem direitinho o caminho de sua caixa de correio ou quiçá seu endereço de e-mail. Sabemos o quanto é aterrorizante para muitos receber ligações de cobrança em seu aparelho celular e não ter como efetuar ligações com o mesmo, pois o serviço foi cortado. Aliás, é curioso notar como as mensagens gravadas que nos oferecem novos serviços tem voz suave e agradável. O mesmo não se pode dizer quanto àquela voz terrificante que nos diz que nossa conta está sem pagamento. Nossos credores querem a todo custo que saldemos nossos débitos e usam de todos os tipos de meios para atingir seu objetivo, mesmo que para isso tenham de submeter seu devedor a toda sorte de açoites psicológicos. Não é de longe algum tipo de apologia à insubordinação, desobediência civil nem tão pouco uma defesa do calote. Mas essas relações estão trocando os pés pelas mãos e esta nem parece uma frase metafórica, na medida em que nos obrigam a trocar as mãos que trabalham pelos pés que correm para fugir dos credores. Ora, falando sinceramente: sabemos o quanto se sente indigno aquele que fica alijado de conseguir seu pão pelo seu próprio esforço pessoal, mas de onde vem que minha dignidade está depositada em um saldo credor? Que me recorde somente foram feitos depósitos de dinheiro ou cheques em nossa conta corrente. Nunca depositei ou vi alguém depositar sua dignidade na boca do caixa ou em algum caixa eletrônico, muito menos pela internet. É preciso que seja dito que a dignidade humana não vem, em absoluto de suas posses, mas tão somente pela sua condição de ser humano. É certo que muitas vezes somos assaltados por comportamentos regados com alguns vestígios de animalidade no trânsito, nos trens do metrô em hora de pico. Acabamos em alguns momentos ao sair de casa pegando a carteira, a chave, o celular e esquecendo nossa dignidade humana na gaveta! Mas isso não é justificativa para sermos tratados como uma manada! Ficar à mercê do chicote do capataz para entrar pela estreita porta curral dos que tem seu saldo pintado de azul e “nome limpo”. Ora o meu nome é limpo independente de qualquer outra coisa. O ponto de alerta é: Estamos trocando nossa dignidade humana por uns poucos trocados. Deixamos nos escravizar pelas nossas dívidas. Somos escravos do dinheiro. Nós trabalhamos para ele. Trabalhamos de forma alienada apenas para pagar por coisas que ficaríamos perfeitamente bem sem. Tanto credores quanto devedores. E o dinheiro é que deveria trabalhar para nós. Possibilitando o acesso a facilidades e comodidades. No entanto nos submetemos a tantas severidades apenas para satisfazer um gigante voraz.
Triste criador dominado pela sua criatura!


CONTINUA...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Os Efeitos da Monetarização.

Eram-se os tempos em que a economia girava em torno do produtivo!
Nos anos de JK, o boom da indústria produziu além de produtos industrializados nacionais, também “novos ricos” nacionais. A economia produziu frutos e estes frutos produziram bens, materiais, econômicos e sociais, embora se estivesse como ainda hoje se está longe de se solucionar os problemas das discrepâncias econômico-sociais. Mais para frente ganhou força o comercio. A indústria produzia e o comercio incumbia-se de escoar a produção até o seu consumidor final. A zona franca de Manaus fincou a bandeira nacional onde era terra de ninguém e atraiu como ainda hoje atrai, por conta dos atrativos fiscais, inúmeras indústrias brasileiras e multinacionais. Nos idos de 1970, aparecem os primeiros Shoppings Centers, deslocando o comercio para outros pontos além dos centros, embora as grandes lojas de departamentos como Mappin, Sears, e Mesbla ainda atraíssem, sobretudo em datas comemorativas, um grande público que entrava de mãos abanando e saia com produtos e os famosos ‘carnês’. A economia seguia o seu ritmo, mesmo apertada pela morsa da inflação.
Nos anos 80, com a derrocada do regime militar e a democratização, unidas a patacoadas econômicas de vários tipos a inflação galopa feito um corcel puro sangue, à frente de todos e a ECONOMIA ganha status privilegiado. Aplicações financeiras eram quase que obrigatórias para não permitir que a inflação corroesse a lucratividade. Os estoques minguaram, pois mercadoria na prateleira não rendia juros, nem dividendos, nem correção monetária. Os bancos, oportunamente lançavam produtos que ‘protegiam’ os industriais e comerciantes, contra a corrosão monetária. Over-Nigth, Open-Market, letras de câmbio, os mais diversos subterfúgios para não correr o risco de colocar uma cédula no bolso e vela diminuída ao retirá-la do mesmo. Mesmo os profissionais e as profissões deslocaram seu norte. Os melhores empregos que antes moravam nas indústrias multinacionais, agora, sem caminhão nem nada, passaram a morar nos bancos e quem não experimentou esta mudança pode ter experimentado morar no banco ‘da praça’. As empresas do setor financeiro absorviam mão de obra e serviços aos borbotões, os melhores computadores, as melhores tecnologias deslocavam-se para este setor. A competitividade no setor bancário fazia o homem escravo dos próprios prazos para o lançamento de algum produto ou propaganda. O mercado descobriu a bolsa de valores, o Dólar e a criatividade especulativa foi muito bem remunerados. O empresário, ou administrador que sabia jogar com o mercado financeiro fazia a empresa prosperar, independente de que produto ela produzisse ou comercializasse.

Com o fim da inflação algumas empresas tiveram de encarar uma condição mais Real. Muitas fecharam, outras modificaram sua forma de agir, sobretudo após o ‘Código de Defesa do Consumidor’. A maquininha de remarcação de preços caiu em desuso e quase foi extinta sem que os ambientalistas fizessem campanha qualquer.

A globalização e as mega-fusões vieram bagunçar mais o nosso sofrido mercado. Profissionais com anos de empresa, com um nome a zelar foram, num passe de mágica, transformados em um número a mais após uma ou outra grande fusão. Conglomerados financeiros prosperaram e hoje absorvem um grande percentual do mercado de trabalho.
Bancos, cartões de crédito, seguros, financeiras emprestando dinheiro a qualquer um que possa ser seduzido a um empréstimo, seguradoras, consórcios, previdência privada, ufa!

O mercado gira entorno do dinheiro, pelo dinheiro, para o dinheiro e por mais dinheiro.

Até o próprio setor produtivo se rendeu ao dinheiro! Suprido o mercado ele inventa uma nova demanda, uma nova moda para que o consumo possa gerar mais e mais dinheiro. Quando o consumidor não precisa comprar mais nada, nós fazemos ele precisar de alguma coisa. A propaganda é fera nisso! Costumo dizer que muito melhor do que um psicólogo, um profissional de propaganda conhece a subjetividade do ser humano e sabe jogar com ela para lá e para cá.

O problema é que estes fenômenos acabaram por colocar a carroça na frente dos burros!
O dinheiro que originalmente era um ‘meio’ para se conseguir ‘algo’, tornou-se ‘fim’, em-sí. Perdemos a noção do ‘algo’ diferente do próprio dinheiro. Compramos sem a menor necessidade.

Quando era criança eu ia para o fundo do quintal de casa, colocava uma bacia destas de roupa virada com a boca para baixo, deixava uma abertura com um gravetinho qualquer e nele amarrava um barbante e me escondia, colocava grãos de milho embaixo do que chamávamos de ‘arapuca’ e quando as pombinhas seduzidas pela boca livre, apos a passagem do período de espanto entravam embaixo da arapuca então! Bingo! Eram capturadas. Depois eu as soltava. Hoje em dia as lojas de shopping nos fazem a mesma coisa. Armam arapucas que o consumidor rodeia, rodeia, mas acaba caindo e com a maior facilidade a financeira, que já está no lugar oportuno, puxa o barbante.

O mundo das grandes corporações também é afetado por inúmeros efeitos colaterais destes fenômenos. Os profissionais trabalham sem a devida motivação, pois não vêem nada de nobre no que fazem. A finalidade do seu esforço volta-se tão somente para o dinheiro e pelo dinheiro que nem é para eles. Falta um propósito, um sentido de direção e de fim que realmente valha a pena. Ele é incentivado a desempenhar mais e mais e sua recompensa também é o dinheiro, mesmo que este seja bem menos. Então ele busca um sentido para ele mesmo. O consumo! Que retro-alimenta o sistema de forma alienante.

A proposta não é dar um ou mais passos para trás, mas questionar o sentido de tudo isso. É deliberadamente reorganizar nossa cadeia de valores de modo a que nossos objetivos, pelo menos pessoais, ganhem um quê a mais de reputação. Que nós tenhamos uma resposta convincente para a pergunta: Para que eu acordei esta manhã?