terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Organograma!

Herança de uma época disciplinadora, o organograma parece ainda ter seu status e não somente entre os que figuram no topo da pirâmide. Mesmo entre os que compõem as demais camadas inferiores o anseio de galgar andares mais elevados é sonho de consumo.

Ter um organograma não apenas com papeis definidos, mas também com nomes, denota certo ar de organização, hierarquia, baixo turn-over, solidez administrativa...

Se nem todos têm acesso a fitar os organogramas, é uma tarefa de quebra-cabeça prestar a devida atenção ao seu modelo mais aparente: os crachás! É comum em algumas empresas adotar colorações diferentes para diferentes níveis na escala hierárquica. O supra-sumo ocorre para os que trafegam pelos corredores ou entram no meio de uma importante reunião tendo a prerrogativa de fazê-lo sem ostentar qualquer identificação. Oh, quem será esse que pode dar-se a esse luxo? Eu deveria saber seu nome! Deveria saber que é um figurão! Deve ser alguém importante!

Fato é que a ideia de organograma suscita em todos o sentimento de hierarquia. De um lado, uma superioridade altiva que pode a qualquer momento fazer valer a coloração de ser crachá. De outro, uma postura de vassalagem e subserviência. O ditado: manda quem pode e obedece quem tem juízo! Ainda parece atual.

Se tudo isso trouxesse ganhos para as empresas, mesmo que a custa de aborrecimentos despeitados apenas dos que trafegam por entre as soleiras, era de se apostar em continuidade da prática. Todavia passeando pelos mais diversos corredores de grandes empresas o que se vê é uma disputa altamente vaidosa por poder e privilégios que quase sempre promove perdas, desperdícios e disputas de força que minam a atmosfera da empresa tornando-a corrosiva. Como se tivéssemos uma corrida de revezamento onde o corredor que está à frente e que deveria passar seu bastão para o corredor que vem logo atrás se recusasse a passar o bastão. 
Nesse caso todos perdem!

Em determinados níveis os comandantes somente se arvoram em missões de alto risco se em troca obtém uma equipe mais numerosa ou mais verba em seu orçamento, sinais característicos de força política. Pouco importa se a empreitada irá ou não ser bem sucedida, basta que se eleja bem um bode expiatório e se mantém a força mesmo na derrota.

É até frequente que se almeje o fracasso apenas para se provar que a ideia do outro nem era tão boa assim!

Que existam diferentes papéis em uma empresa é mais do que sensato. Que alguns papéis exijam uma visão panorâmica, uma visão de todo também. Mas isso não tem relação alguma com hierarquia! É fácil de se entender que de uma posição fisicamente mais elevada o supervisor tenha uma visão de todas as etapas do processo e que o operário que embala o produto tampouco saiba de onde veio ou para onde vai a embalagem. Que o supervisor saiba identificar falhas em alguma etapa e tenha um livre trânsito para tomar as medidas necessárias à correção. Mas ainda isso não tem relação alguma com hierarquia! Por outro lado o folclore empresarial é rico em lendas sobre pessoas do chão de fábrica que deram preciosas ideias de como se obter melhores resultados.

Que se justifique que sem um comando, sem uma hierarquia se poderia descambar para uma grande desordem, mas isso não se daria apenas como resposta livre a uma opressão obsessora?

Não há como libertar uma ideia de outra. Uma hierarquia pressupõe oposição de forças e, consequentemente, disputas. Disputa pressupõe vencidos, embora não exija vencedores. Todos podem sair derrotados! Também não há que se modificar apenas a representação gráfica piramidal por outra matricial. 

Há que se modificar profundamente a postura, mas certamente o exemplo deve vir dos níveis mais altos, pois cabe a esses o papel da organização. Contudo será necessário se despir de toda vaidade individual para fazer emergir a força do grupo em detrimento de prerrogativas pessoais. São papeis diferentes e não necessariamente hierarquias diferentes.

Não espero que esse pensamento tenha a capacidade de transformar organizações seculares como num passe de mágica, mas na próxima crise de disputas políticas onde certamente teremos mais vencidos do que vencedores. Na próxima revolução interna você sair com a nítida impressão de que havia um monte de gente torcendo para o circo pegar fogo, não vá dizer que eu não avisei!   

Nenhum comentário:

Postar um comentário