sábado, 8 de setembro de 2012

Eu só queria te entender!


Essa é outra ilusão que por ser compartilhada por muitos acaba por ser considerada natural ou prática sem maiores comprometimentos. Vou fazer algumas afirmações um tanto quanto categóricas e sei que elas certamente irão confrontar com o que estamos habituados a pensar.

- Todo ato de entendimento é necessariamente um ato de julgamento.
- Todo ato de entendimento é também um ato de controle
- Todo ato de entendimento é também uma ausência

Quando tentamos entender alguém procuramos perceber suas práticas mais habituais e confrontamos com aquilo que historicamente em nossa vida já foi fruto de avaliação.  Claro, não temos como aquilatar aquilo que é novo, portanto recorremos ao nosso passado e, sobretudo, tomamos por base a similaridade que tais comportamentos têm com o comportamento de outras tantas pessoas. Acabamos, com isso, por comparar comportamentos e aquilatar condutas. Na maioria das vezes acabamos por desprezar o contexto de ambas e ficamos apenas com a parte superficial. Apenas o comportamento e a esse juntamos seu significado histórico por nós atribuído. Esse procedimento que nos é tão habitual acaba por oferecer como que uma tábua de significados dos comportamentos, crivados da chancela de “certo” ou “errado”. Mesmo sem consciência e na maior das boas intenções acabamos por julgar a tudo e a todos por esses critérios de modo bastante impessoal. Esse procedimento é ato habitual do entendimento e mesmo que não tenhamos a intenção acabamos por julgar a todo instante baseados apenas nessa nossa tábua de significados. Julgamos, absolvemos e condenamos baseados em nossos próprios critérios pessoais.
Fazemos tudo isso sempre no intuito de balizar a nossa própria conduta. Como devemos proceder para conseguirmos determinado tipo de resposta específica do outro. Queremos, mesmo que o outro reaja de um tal modo à nossa conduta e não de outro. Nosso maior esmero em colecionar comportamentos e significados visa também eleger quais são nossas práticas mais produtivas e bem sucedidas. Pensamos como devemos agir de modo a obter como resposta exatamente aquilo que esperávamos. Variamos nossa conduta de modo a termos ao nosso dispor o mais amplo leque de alternativas no intuito de obter sempre o que almejamos. Queremos com isso estar no controle das situações para que não nos causem surpresas inesperadas. Ocorre que assim nosso ato de entendimento do outro é sempre um ato de controle sobre o outro. A convivência nos municia de informações suficientes para esperarmos por reações razoavelmente padronizadas. Quem de nós já não usou do expediente da chantagem emocional para conseguir o que queria? Ou mesmo traçar os mais duros cenários, apenas para garantir que aconteça o que queremos?
Ocorre que o ato de entendimento do outro se faz nesse balanço entre as significações do passado e eventuais interesses futuros. Temos tanta prática nisso que na maior das ocasiões podemos supor as mais diversas respostas aos nossos mais variados comportamentos. Como se o balanço efetuado em nossa consciência entre passado e futuro pudesse exigir que o outro reaja sempre do mesmo modo. Esse balanço entre passado e futuro é tão freqüente que nos deixa ausente do próprio momento presente. Momento este que poderia nos proporcionar sentir o outro, percebê-lo com maior atenção a tal ponto que além de travarmos contato com a parte superficial de seu comportamento nos garantiria também acesso ao seu íntimo. Quem sabe até do mais profundo de seu sentimento. Ganharíamos com isso em descobrir as aflições que o exigiram a comportar-se como se comportou. Ganharíamos com isso o real motivo dentro do contexto específico e não um motivo mais fruto de nossas próprias suposições.
Nisso reside também a presunção de que o outro é uma maquininha que sempre vai agir de modo habitual. Ora, se, como se diz, Deus nos deu o livre arbítrio para agirmos a partir de nossas próprias deliberações seria profundamente insensato abrir mão dessa liberdade em prol do hábito. Habito é procedimento padrão, irrefletido e em geral descontextualizado. Prescindir de nossa liberdade em prol do hábito é cercear nossa própria liberdade de agir. Pense um pouco nisso quando quiser “entender” ou conhecer alguém.

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