quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Nasci e cresci dentro de um cenário de emprego. Quase tudo girava ao redor dessa ideia. Dentro de uma família que trabalhava empregado em grandes empresas. As pessoas organizavam suas vidas dentro dessa realidade que por arrastar um grande contingente soava como realidade última e natural, assim como respirar ar. Dormia-se cedo, pois o emprego cobrava. Estudava-se para se ter melhor sorte no emprego. Se, por obra da sorte ou do acaso, ocupássemos uma vaga na área de contabilidade, de compras, de vendas ou outra qualquer de uma grande empresa, o mais “natural” era dedicar seus estudos a essa área, pois isso iria potencializar suas oportunidades. Perder o emprego era contingência e a busca por outro o caminho a ser seguido.

Nem todos conseguiam ocupar vagas em grandes empresas, mas essa possibilidade era sonho majoritário. Um cargo de liderança em uma grande organização era sinal de prestigio, bom salário, competência e mesmo a garantia de certa estabilidade financeira. Faculdades guiavam seus esforços no intuito de prover o conhecimento necessário para que seus formandos tivessem a capacidade de ocupar boas vagas dentro desse mercado. Algumas empresas mesmo usavam a formação em determinadas instituições de ensino como critério ou requisito de seleção.

As ofertas de emprego eram exigentes, mas fartas. Havia certa sazonalidade das profissões, mas um mercado aquecido também aquecia a oferta, tanto quanto a concorrência. Tudo isso era alavancado por um crescimento econômico sem precedentes e que oferecia um razoável mercado para profissionais de diversos tipos e múltiplas competências. Em geral não se consultava previamente as qualidades dos postulantes a profissional. Era a necessidade do mercado de trabalho que regia a lei de oferta e procura de empregos, bem como a direção de seus esforços da educação e das pessoas. Se o mercado tivesse necessidade de engenheiros, jovens de todos os lados de acotovelando para conseguir formação na área com maior carência. Se por outro lado o mercado precisasse de economistas, seus profissionais eram mais bem remunerados e dai em diante. As regras eram ditadas pela empregabilidade, estabilidade profissional, remuneração, etc. Se não eram profissões altamente técnicas, ainda havia bastante espaço para as posições dentro da burocracia administrativa. Um formado contador poderia ocupar vagas em contas a pagar, a receber, contabilidade, finanças, custos e outros mais.

Este cenário perdurou por várias décadas e muitos, como eu mesmo, viram nessa dinâmica algo de real e verdadeiro que duraria por todo o sempre. A mecânica de funcionamento da sociedade contemporânea. Qualquer que fosse o regime político a interferência no processo seria maior ou menor, mas, de qualquer modo, incapaz de modificar significativamente o quadro. Algumas épocas de recessão, de crise econômica ou até mudanças na economia arrastavam as vagas da indústria para o comércio, depois para os serviços, bancos, financeiras. Surgiram com vigor os cartões de crédito, as seguradoras e os negócios que giravam para o e pelo dinheiro acabaram por arrastar elevados contingentes de profissionais para suas fileiras. As crises faziam minguar as vagas, mas tempos depois elas reapreciam, redimensionadas, reconfiguradas, pagando um pouco menos, mas perduravam.

Mas algumas das regras desse jogo já prenunciavam seu destino. Redução de custo, redução da folha de pagamento, fusões, mercado globalizado, computação, robotização, otimização de processos, adoção de boas práticas, automação comercial, sistemas de gestão, sistemas gerenciais... Tudo isso fazia o barco remar na direção da parte mais rasa do rio até então caudaloso de oportunidades profissionais. Todo o ganho de excelência administrativa, todo o crescimento econômico alcançado, não teriam como desembocar, senão no cenário atual de crise de emprego. A curva de crescimento que teve seu pico nos anos 70, 80 e 90 tomou outra direção e começou a entrar em franco declínio.

Não se trata de uma crise momentânea para depois se reaquecer, mas de se estabilizar num patamar mais condizente. No fundo, o bum do crescimento econômico produziu uma quantidade de empregos que não poderia se sustentar sem que isso produzisse efeitos danosos a todos. A produção da indústria se estabilizou, o comércio acompanhou e também reduziu. Cresceram os serviços, mas a ponto de também não conseguirem absorver todo o contingente migratório da indústria e do comércio.

No fundo o cenário de abundância de empregos cresceu como uma bolha e, como tal, cedo ou tarde explodiria ou murcharia. A farta oferta de empregos ao longo de décadas funcionou como um grande torrão de açúcar próximo a um formigueiro. Mas, o fato de o cenário perdurar por décadas nos fez acreditar que seria uma maneira perene de ser e de existir. Não havia necessidade de outro tipo de economia, de outros tipos de trabalho, nem de organização profissional. O emprego supria a necessidade da maioria. Arrastava potenciais atores para o perfil de vendas, músicos para funções burocráticas, agricultores para as fábricas, pensadores para o ramo da computação. Era mais fácil aproveitar as oportunidades e as razoáveis remunerações do que arriscar tentar ganhar a vida com a arte, com a música ou com a filosofia.   

Hoje o mundo experimenta uma grande crise de emprego. Não que não exista trabalho, o que minguou foi o emprego. Aquele trabalho focado na iniciativa privada, com fins lucrativos. Trabalho privatizado, pago por quem tem uma empresa e precisa crescer, aprimorar e atingir novos mercados. As grandes empresas cresceram, alcançaram novos mercados. Se estabilizaram em seu mercado consumidor. Já estabeleceram suas posições, compraram seus concorrentes que ofereciam maior risco. Atingiram certo grau de excelência administrativa que não requer mais tanta mão de obra. E da mão de obra necessária nem é necessária grande competência. Os processos se incumbem de mitigar os riscos de inexperientes. Os movimentos de crescimento que ocorriam aqui, lá e acolá por onde se olhasse agora funcionam como esperança dos que não perceberam a mudança de cenário, tanto quanto refutação para nosso argumento. Nos pequenos focos de crescimento se aglutinam grandes porções de desempregados reivindicando valores cada vez menores e se dando por contente com uma oportunidade de emprego por tempo determinado, mesmo que terceirizado ou quarterizado.

O emprego continuará existindo, mas demandando cada vez menos profissionais e a população precisará encontrar outros meios de subsistir. Hoje ainda temos esse enorme contingente de desempregados procurando desesperadamente e em vão pelas antigas vagas de trabalho.

O cenário mudou, definitivamente mudou. Não é uma crise ou acomodação momentânea. O cenário mudou, mas ainda não se reconfigurou. Veremos ainda muitas crises na educação, pois as faculdades ainda estão formando profissionais para integrar esse mercado ora extinto. Nos serviços, pois os restaurantes e lojas que funcionavam próximos aos escritórios terão de se ver com o Home Office, com o desemprego etc.

Longe da tutela de um grande emprego em uma grande empresa os profissionais precisarão buscar alternativas para seu ganha pão. Em resposta a tudo isso vem ganhando força algumas ideias que nem são assim tão novas, mas que surgem como válvula de escape. Economia colaborativa, associativismo, cooperativismo, organizações do terceiro setor. Economia de bens intangíveis onde se pode produzir sem agredir o meio ambiente. Novos conceitos como uso substituindo a propriedade. Compartilhamento de serviços de espaços. Não nos basta “procurar” por oportunidade, precisaremos criá-las. Todo o cenário descrito anteriormente também nos estimulou a um individualismo que desembocou num certo grau de egoísmo, e essa característica não é muito bem-vinda se pensarmos em ideias associativistas. A população civil terá de se rearranjar, de se reagrupar, de criar cenários econômicos para além de produzir e vender. É uma reconfiguração profunda nas ideias de empreender, de trabalhar, de consumir, de ter, ganhar, comprar. Precisaremos visitar outras páginas no dicionário para compreender o significado de contribuir, cooperar, usufruir, utilizar, disponibilizar e inúmeros outros verbetes que há tempos não visitávamos.

A maioria das faculdades, sobretudo as grandes redes de ensino superior, não são mais empresas de educação, mas sim empresas comerciais. Talvez tenhamos de remodelar a ideia de escola. Diferente do modelo de empresa privada com fins lucrativos, para um modelo cooperativo. Talvez não apenas formando um técnico apto para uma vaga de emprego técnico ou burocrático, mas oferecer um real ensino superior.

Será melhor, como tenho recomendado ao longo dos anos, primeiro verificar os talentos, os dons internos das pessoas para depois ver como coloca-los a serviço não do emprego, nem da indústria ou de bancos, mas sim da sociedade em geral, da coletividade.

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