quarta-feira, 14 de março de 2012

Transformações

Costuma-se dizer com certa freqüência de que não se deve esperar mudança nos resultados se continuamos a fazer as mesmas coisas. Insensato seria lançar qualquer tipo de objeção sobre essa máxima. Contudo muitos ainda que mudem suas ações continuam a obter os mesmos resultados, ou resultados diferentes, mas de mesma qualidade.
Diante disso, é preciso esclarecer que mudança de ação é muito diferente de transformação. A ação, em que pese sua grande importância de ordem prática não é mais do que uma fina camada exterior de um gigantesco “iceberg” interior. Interior esse ainda pouco explorado! São valores, crenças, capacidades ainda inexploradas ou até desconhecidas, opiniões sobre os valores dos outros, sobre as crenças dos outros, sobre a capacidade dos outros. Nossa visão peculiar do mundo. Um mundo particular composto por imagens, sons e sensações, muito mais frutos de um olhar maculado pelo medo. Passando nossa consciência em exame, percebemos que ainda que busquemos realizar tudo aquilo que queremos, empenhando para tal preciosos esforços é o medo o motor de nossas ações mais urgentes. Caminhamos com nossas ações na direção futura do que queremos, mas parece que aquilo que tememos vem sempre correndo em nossa direção, exigindo sempre maior urgência de nossa atenção e, claro, de nossas ações.
Não é menos verdadeiro que muitos dos nossos objetivos mais imediatos encerram, num primeiro ou num segundo momento, estratégias para se evitar o duro confronto com o medo. Contudo, o tempo, nosso grande mestre, cedo ou tarde nos revelará que essas estratégias são inúteis. Atingimos nossos objetivos e esses tinham, teoricamente, em seu pano de fundo todos os ingredientes necessários para nos apartar do medo. Retraçamos as estratégias varias vezes, perdemos até a consciência de qual era o medo que nos assolava, mas ele ainda está lá, emaranhado em um monte de planos para eliminá-lo.
É que ainda acreditamos com muita força que nossa inteligência foi feita para nos desvencilharmos dos problemas. E estaríamos cobertos de razão se também utilizássemos nossa percepção de modo mais apurado no intuito de descobrir exatamente “qual é o problema?” Precisamos passar em revista nossa visão de mundo, nossas crenças, o modo como vemos a vida, nós mesmos e as outras pessoas. Buscar diligentemente refinar nossas representações de modo a alinhá-las mais fielmente com a realidade. 
Fazemos chacota das crianças que têm medo de que exista algum mostro embaixo da cama ou dentro do armário, mas já estive em contato com muitos marmanjos ditos “normais” que temiam bichos-papões que eles mesmos haviam criado e alimentado a vida inteira. São medos, vergonhas ou coisas do tipo que discretamente exercem pressão em nossas escolhas. Nossos medos não são nossos inimigos, pelo contrário, cada qual está ai para orientar nosso caminho, para nos fazer ver o que anda errado conosco. É que o medo é menos resultado do iminente perigo que vem de fora do que de alguma fragilidade do que esta dentro, Sendo assim, é imperioso cuidar da fragilidade que esta dentro. O medo é do confronto não do que está fora, mas do que esta dentro.
É preciso criar o gosto por combater o bom combate. O combate que faz crescer e eliminar definitivamente a fragilidade. Vê-se com tudo isso que uma mera mudança de ação nos fará mudar os resultados, mas não terá força para transformar toda a estrutura interna que nos move  muito em função dos nossos medos e de nossas insatisfações.

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