quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ganho competitivo!


A maior parte de nós nasceu, cresceu e vive mergulhado numa cultura capitalista. Digo a maior parte, pois podem existir aqueles que passaram pelos horrores vindos do outro lado da antiga “cortina de ferro” onde se experimentou uma frustrada tentativa de socialismo. Frustrada, pois houve menos um socialismo e mais uma disputa gananciosa pelo poder e retirou um grande poder de iniciativa própria da população que era então, bem ou mal assistida pelo governo e que após Glasnost,  deixou um grande contingente de pessoas à míngua e criou por outro lado outro tanto de novos milionários que venderam muitos dos grandes segredos da guerra fria e que antes eram guardados a sete chaves.
Uma vez fracassada a experiência socialista soviética e com sérias dificuldades em entender como socialista ou comunista uma China que cresce economicamente em altos índices nos resta entender o mundo como um lugar capitalista. Aliás, o capitalismo é tido por muitos, tão natural quanto “respirar ar”. Diriam: “É assim que funciona! Assim é o mundo!” Contudo, os que lançaram seus olhos na história sabem que o capitalismo tem quase que um registro de nascimento e nem tão absurdamente longínquo assim. Poderíamos colocar a “revolução francesa” concomitante com a “revolução industrial”, como sendo seu signo astrológico.
Não muito longe dessa época, ganham espaço as idéias evolucionistas de Darwin e suas mais diferentes, inusitadas e quiméricas leituras. Surge nesse molho filosófico a competitividade no capitalismo, com força evolucionista. É mais “adaptado” aquele que é mais competitivo e somente este sobrevive. Uma profunda crise econômica assolava a Europa em fins do sec. XIX. Havia demanda para a venda dos produtos fabricados, mas uma horda de pobres europeus de diversas nacionalidades não tinha dinheiro para comprar nada. Essa legião de des-endinheirados migra, então, para o nosso querido Brasil. Foram alemães, italianos, espanhóis, portugueses... (bem digam a maioria de nossos antepassados. Os meus eram alemães misturados com franceses mais portugueses e índios canibais de Ubatuba. Que salada!). Junto desses vieram também muitas empresas dessas mesmas regiões. Krupp, Manesmann, Siemens, Saint Gobain, entre tantas outras. Esses imigrantes vieram para fugir da pobreza européia da época e de sua falta de oportunidade. Fugir da fome e da morte e isso tudo antes das duas grandes guerras mundiais.
Entrelaçando rápida e temerariamente os assuntos, o fato é que hoje, nosso imigrante mais conhecido, o capitalismo, se arraigou de tal modo nas nossas consciências que salvo uma abnegada disposição para mudar muita coisa, somente uma lobotomia daria cabo de retirá-lo e com ele seus alicerces. Na mesma esteira e com aparência de um selo distintivo também se impregnou a competitividade. Poucos são os que conseguem conceber algum pensamento, desejo ou projeto que não esteja atravessado de competição e capitalismo.
Passamos muitos de nossos dias tentando sobreviver, quando não em eliminar o oponente que nos oferece risco. Contudo, eu pergunto: Trata-se realmente de sobrevivência ou somente é um apelo irrefletido proveniente de um sulco cultural que foi se aprofundando no decorrer dos anos e que se entranhou como parasita em meio aos nossos mais primitivos instintos irracionais?
Na competição capitalista pressupostamente existem vencedores e perdedores. Os primeiros, necessariamente, em número bem menor aos segundos. O perdedor “morre” então é coisa de sobrevivência. Nessa guerra por sobrevivência poucos valores éticos teriam uma hierarquia superior à sobrevivência. Com isso, cada qual ao seu modo buscará se armar de todos os modos para ter um ganho competitivo nessa batalha pela vida. Fica instaurada uma dinâmica social onde o outro é, até que se prove contrário, meu adversário. Ficam, assim, justificadas todas as iniciativas capazes de nos proteger ou nos garantir um bom flanco de ataque. Gastamos mais tempo de nossas vidas nos protegendo e estrategiando nossas defesas ou ataques que não nos sobra tempo para sermos simplesmente nós mesmos.   
Não será possível propor uma nova dinâmica social?  Tenho para mim que cada um de nós tem um conjunto ímpar de capacidades, talentos, dons que o tornam o melhor em determinadas atividades, pouco eficaz em outras e incompetente nas demais. Querer concorrer em pé de igualdade na atividade que o outro executa melhor com seus talentos é estar certo de perder ou, se tanto, ganhar trapaceando. Mas para que é mesmo preciso competir? Meu conjunto de competências me torna ótimo em algumas atividades e bom em outras. Seria insano exercer uma atividade da qual eu tenho pouca ou nenhuma competência. Por esse ângulo, trata-se menos de competir e mais de re-escolher nossa atividade. Trata-se menos de competir e mais de contribuir. Contribuímos com aquilo que nos é mais fácil, mais prazeroso, sobretudo com aquilo que temos mais competência e prazer. Podemos, com isso menos “ter” para demonstrar uma vitória, mas apenas Usufruir. Usufruímos daquilo que necessitamos sem exageros, nem ganância? Em épocas de vacas gordas, podemos nos esparramar na fartura. Em época de vacas magras precisaremos contribuir mais, mas estaremos apenas contribuindo com aquilo que nos é mais fácil e mais prazeroso. Isso já não é um bom diferencial competitivo? 

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