terça-feira, 8 de março de 2011

Não basta ser competitivo! II

Ressaltamos no post anterior a importância de se cultivar a sensibilidade social, mas não explicamos como isso pode ser feito. Neste post ainda não falaremos o que pode ser feito, mas queremos observar dois cases do que NÃO deve ser feito.

Dissemos também da importância da definição da visão, missão e valores. Muito bem, gostaríamos de expor sem dar nomes aos bois um caso que considero emblemático.  Cerca de uns dez anos atrás li a declaração de visão e missão de uma grande empresa. Estava escrita em relevo sobre grandes totens de grosso metal afixados no hall de todos os andares da empresa. Esteticamente eram lindos e imponentes. Grande trabalho de endomarketing. Contudo, o trabalho continha algumas ciladas. Se bem me recordo, na visão da empresa tinha algo como “...ser reconhecida como a melhor...”. Eis ai uma profunda falta de sensibilidade social. Equivoco número um: Ora o que teria a capacidade de fazer um colaborador se empenhar para que sua empresa fosse reconhecida como a melhor? Vamos mudar de panorama para ficar mais didático. Imagine que eu sou gerente e diga para minha equipe que tenho por objetivo ser reconhecido como o melhor gerente da empresa. O que faria você se empenhar nessa empreitada? Caso eu de fato seja um gerente bastante humano, sensível você fará isso naturalmente, caso contrário só fará se for bastante bem remunerado. Equivoco numero dois: quando você coloca em seu objetivo “ser reconhecido” você automaticamente retira de suas próprias mãos o sucesso de sua missão. O reconhecimento sempre vem do outro. A evidência de que você atingiu seu objetivo deve contemplar as idiossincrasias de todos os que tem em mãos o desejado reconhecimento. Pronto, você deverá necessariamente dividir sua atividade em ser o melhor e em buscar o reconhecimento. Enquanto estiver dedicando-se a ser o melhor não estará buscando reconhecimento e, por outro lado, se estiver dedicando seu tempo em ganhar o reconhecimento pode estar diminuindo seu esforço em ser o melhor. De qualquer modo você estará dividido e nunca saberá com quais critérios será avaliado.
Ao ler esse texto conclui que essa empresa não teria mais de dez anos de vida. Dei dez anos, pois era uma grande empresa filha dileta de outras empresas também grandes. Dito e feito. Hoje ela ainda existe, mas não passa de um mero apêndice de um de seus genitores sem o mesmo brilho vaidoso de outrora.
De prático o que ocorria nessa empresa, embora quase nenhum colaborador soubesse conscientemente o que estava escrito nos totens, é que todos os colaboradores buscavam em suas atividades o tempo todo ser melhor que o outro e ganhar reconhecimento de todos. A grande busca de cada uma das pessoas era sempre fruto internalização do egoísmo institucionalizado. Cada um por seu turno trazia em suas ações diárias a busca incessante e inquietante por ser reconhecido como o melhor.  

O segundo case que gostaria de trazer ocorreu em outra empresa. Uma quantidade considerável de profissionais estava já há cerca de seis meses, trabalhando quase todos os finais de semana para conseguir atender à implantação de um grande cliente. Internamente sabia-se que algumas pessoas estavam passando por sérios problemas de relacionamento afetivo, devido a distância do convívio familiar que o esforço adicional exigia de.
Sabia-se também que a relação entre a empresa e o cliente era bastante delicada e o risco de que todo esforço fosse em vão era latente. O que aumentava sobremodo o nível de estresse. Reuniões para descobrir os culpados eram frequentes. Nem seria preciso mencionar que os objetivos pessoais da maioria dos colaboradores tinham sido postergados ou, no mínimo, passados para segundo plano.

Num determinado dia qualquer o “presidente da empresa” convoca a todos para um comunicado. Todos os colaboradores envolvidos no projeto iriam parar suas atividades para ouvir ao pronunciamento do presidente. Ao seu lado um dos representantes do tal cliente: O suspense paira no ar: o que será anunciado?

De dentro de uma bela caixinha o presidente retira um pequeno cartão plástico, fruto de uma das simulações do projeto. E diz que aquilo era o resultado de tanto esforço e empenho dos colaboradores. O que o presidente apontava era para um sucesso! Simulado, mas um sucesso! Sabia-se que muito fora “mascarado” para se atingir esse sucesso e que o resultado final ainda estava longe. Mas esse não é o caso. O nosso personagem em questão colocou no pequeno pedaço de plástico de mentirinha o ícone do sucesso.

O que ficou patente no semblante das pessoas naquele instante foi que o hercúleo esforço que tanto custara às famílias e a saúde dos colaboradores resumia-se a apenas um pequeno pedaço de plástico de mentirinha. Não se pensou, ou ao menos não se disse que por trás daquele plástico havia uma promessa de estabilidade para os próximos anos. Que tudo aquilo representava uma oportunidade de crescimento profissional que seria futuramente recompensada ou qualquer outra coisa mais nobre.

O que ficou claro é que todo o esforço resumiu-se a um plástico sem valor algum! Resumo da ópera: baixou ainda mais o moral da equipe, muitos como eu foram buscar novos “desafios” se é que me entendem.

Digo novamente. Não basta ser competitivo. É preciso ter sensibilidade social!   

Jadir Mauro Galvão

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