segunda-feira, 11 de julho de 2011

Darwinismo corporativo!

Dia desses recebi uma queixa que é bastante usual e por esse motivo resolvi falar um pouco a respeito. Trata-se de um engano bastante comum e que nos consome em demasia, minando nossas esperanças e configurando a realidade de um modo bastante sombrio.  A dificuldade é que não se trata apenas um engano, mas, sim três, o que deve demandar algumas linhas mais do que estamos habituados a ler na internet. Contudo, embora sejam dificuldades distintas andam quase sempre de mãos dadas. Vou tratá-las uma a uma e no final tentarei agrupá-las. Bom, primeiro vamos à queixa. Uma amiga encontrava-se bastante triste e decepcionada (palavras dela) com a conduta de alguns parceiros de negócio. Eram parceiros antigos e que ela já havia defendido e se empenhado em prol deles noutras ocasiões. Viu-se traída pela conduta dos parceiros e isso provocou, primeiro uma grande tristeza, depois se transformou ou acumulou-se em raiva e finalmente em desesperança na “humanidade”.

Vamos ao primeiro dos enganos: em muitas ocasiões agimos para com os outros do mesmo modo como gostaríamos que os outros agissem conosco. Atitude bastante comum e bem bacana para balizar nossa conduta. Ocorre que só nós sabíamos disso! Só nós sabíamos qual era o motor daquela nossa ação. Que nela depositávamos uma determinada expectativa de que o outro agisse conosco em determinado momento de tal ou tal modo. Para nós isso era bastante claro, mas para o outro certamente não. Fundamentados em nossas crenças e agindo em consonância com elas, criamos um conjunto de critérios que nos separam em certo e errado algumas condutas. Mas corremos o risco em muitas ocasiões de fantasiar e de confiar mais em nossas fantasias do que na própria realidade. Afinal das contas são nossas crenças de certo e errado e com isso criamos algumas ilusões que nem todos compartilham.
Só isso não tem a capacidade de arrefecer a decepção que o outro nos causou. Todavia, é importante saber que fomos nós que criamos as expectativas. Não foi o outro que nos frustrou. Foi somente nossa expectativa irreal. O erro maior foi nosso.

Vamos para o segundo dos enganos: Uma das faculdades que mais utilizamos em nossa inteligência é a faculdade de generalização. Das experiências de nosso cotidiano pegamos algumas similaridades costuramos a partir delas e criamos arbitrariamente uma experiência geral. Isso é bastante benéfico para nossa vida prática. Contudo, na medida em que ligamos as ações das pessoas às nossas frustrações isso nos leva a um grau de desesperança que se estende para todos os seres humanos. Podemos até enevoar nossa visão sobre o mundo e sobre as pessoas que passamos pela rua e acreditar que toda a raça humana está perdida. Ocorre que tanto no primeiro engano quanto no segundo fomos nós que efetuamos as associações. Criamos as expectativas e a conduta do outro não correspondeu ao que esperávamos. Generalizamos nossas frustrações e nos desencantamos com a humanidade!

Tudo bem, resta ainda a conduta do outro que não se adequou ao que acreditávamos fosse correto. Aqui temos o engano do outro, mas esse sim é um engano mais geral do que se pensa e nosso também. Disse em uma postagem anterior que em geral não nos damos conta de que uma determinada corrente filosófica exerce influência sobre o modo como vemos o mundo. Pois bem, existe na maioria de nós uma dessas influências que pouco nos damos conta. A idéia de evolução proposta por Darwin chegou até nós por intermédio da cultura pragmática utilitarista americana. Nosso cotidiano está profundamente impregnado dessas idéias, mas elas foram corrompidas com o tempo. Temos hoje uma conduta fruto de uma adesão a um sistema filosófico corrompido. Na verdade é uma conduta irrefletida, que se deu, muito mais a partir de aprovações ou reprovações sociais. Chega-nos apenas por sua camada mais exterior, já cristalizada e menos na validade dos conceitos. A idéia de seleção natural transposta indevidamente para outras paragens deu luz a uma idéia de darwinismo social. Agimos muito em nossa vida sob a justificativa de preservação da espécie. No darwinismo o mais adaptado tem melhores chances. Traduzimos isso para: o mais forte vence e seu oposto lógico o mais fraco desaparece, é eliminado. Convenhamos, pouquíssimas são as ocasiões em que estamos lutando, de fato, por nossa sobrevivência. Contudo, essa idéia permeia nosso imaginário mais do que deveria. Podemos verificar a afirmação em algumas de nossas expressões mais corriqueiras: “vamos à luta!” ; “quem pode mais chora menos” entre outras tantas. No mundo corporativo isso e bastante usual. Se você, em determinado momento questiona a decisão de algum superior é muito mais fácil ele se sentir ameaçado do que reconhecer seu erro. É muito mais fácil ele arrumar um modo de demitir quem colocou sua decisão em questão do que perceber nessa pessoa alguém que pode somar com uma visão diferente da sua. As divergências são eliminadas e não superadas. Quando questionados muitos se vêem em risco. Fragilizados desaparecerão! O mais fraco é eliminado! É por isso que é muito mais fácil verificar atitudes de força quando nos vemos fragilizados. A competitividade, tão fomentada no mundo dos negócios produz hoje muito mais malefícios do que benefícios. Sobretudo quando transposta, como quase sempre é, para as equipes em seus projetos. Concorremos com o outro e quando nos vemos em desvantagem, isto é, não conseguiremos vencer, ainda nos resta fazer com que o outro também não vença. Fazemos isso sem pensar, parece que é algo natural quando é somente uma cristalização de uma conduta que teve seu sentido em determinadas circunstâncias e acabou por ser generalizada erroneamente. Um modo bem sucedido de se portar perante a vida acabou por se transformar no modo “correto” de se portar.
Não quero me estender mais. Então vamos ficar por aqui. Espero que tenha muita objeção para que possa elaborar melhor as idéias. 

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