domingo, 8 de abril de 2012

Segurança e equilíbrio!


Secretamente, lá no nosso íntimo ainda reside um anseio por segurança. Veladamente ele guia nossos passos e inibe ações mais destemidas. Assim vivendo, nos habituamos sempre a pisar somente em solo firme. A buscar por pontos de apoio ao alcance das mãos. Pode-se pensar a princípio que seja algum tipo de instinto ancestral de preservação e, portanto, que seja algo bastante natural.  Todavia prefiro crer que se trate mais de uma busca pelo conforto do conhecido. Um hábito cultural que tem seu lugar de nascimento num tempo determinado.
Á medida em que a ciência, em seus primórdios em fins da idade média, permitiu ao homem desvencilhar-se de horrores como monstros marinhos ou quiçá nos libertar dos “humores” divinos que provocavam chuvas, tormentas ou secas desoladoras, pôde proporcionar certo grau de previsibilidade, e porque não dizer controle sobre os eventos da natureza. Esse grau de previsibilidade sobre eventos da natureza nos permite uma confiança crescente e chega a ser tentador para nossa inteligência crer que em dado momento se atingirá uma total previsibilidade, e, consequentemente, na nossa libertação do cárcere da ignorância. Tudo isso poderia nos fazer crer numa previsibilidade total. Isso certamente nos livra de eventos inoportunos imponderáveis, mas ao preço da perda da surpresa. Com isso, creio que nos habituamos buscar sempre o previsível e evitar sempre que possível a surpresa acreditando que ela sempre seria inoportuna. A vida dividiu-se em sucesso ou fracasso e o inesperado, o surpreendente acabou por perder seu posto de mensageiro do sublime.
Mesmo o equilíbrio, sonho de consumo da maioria das pessoas, quando mal entendido se torna cárcere de seu possuidor. Se entendermos equilíbrio como aquilo que não se abala, aquilo que mantém estabilidade, ficaremos prisioneiros da mesmice, do igual, do constante. Novamente perderemos o doce sabor da surpresa. Equilíbrio não é sinônimo de estabilidade, mas de manter-se fluindo mesmo nas instabilidades. O surfista tem equilíbrio mesmo sobre as ondas instáveis. Equilíbrio é mais um fluir entre instabilidades. Equilíbrio é ter a capacidade de responder adequadamente às ondulações do imprevisível.
Juntos segurança e equilíbrio, quando mal entendido tem a capacidade de matar uma das coisas que mais nos enchem de vida: a surpresa, o inusitado, o novo. Com isso a vida perde em muito seu frescor e vivacidade, tornando-se enfadonha e fabricando pessoas amedrontadas.
Nos momentos difíceis quando nossas dificuldades ultrapassam nossos conhecimentos, precisamos dar um passo no insólito. A segurança só serve para nos mantermos onde estamos. Será preciso abandonar a certeza e assumir riscos. Ai nos é mais útil a confiança do que a segurança. A do que a certeza. Aliás, arriscaria a dizer que a fé é muito mais a capacidade de ir em frente mesmo diante das adversidades. Diria ainda mais. Fé é aquela força que nos move adiante, mesmo que a razão nos diga em nosso íntimo que o fracasso é inevitável. Claro que com essa definição corremos o risco de nos lançarmos temerariamente contra a sensatez, mas a fé não é do âmbito do explicável. Só você conseguirá ou não dizer se o que te move é realmente a fé.
É que nossos medos nos paralisam. Não um medo de um futuro que desconhecemos, mas um medo de perder o que acreditamos ter conquistado. Mas o que conquistamos no passado não pode se tornar em pesado fardo que nos impeça de abraçar o novo. Temos o hábito de nos apegar ao passado seguro buscando reeditá-lo. Contudo um passado reeditado no mínimo terá perdido a fragrância do novo!
Mas tudo isso não sou apenas eu que digo. Termino citando uma passagem que, penso, até hoje não foi bem compreendida:

Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida perde-la-á. Mas qualquer que por amor de mim, perder a sua vida a salvará. (Lucas 9:24)

Contradição ou sabedoria?      

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