sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Liderança para um novo milênio!

  Mesmo que timidamente, creio que a onda da reciclagem pegou. Enfrenta alguns problemas é claro. Material reciclado ainda é, em geral, mais caro do que o novo. Alguns produtos feitos com esse material não têm o mesmo acabamento. Alguns materiais são de difícil reciclagem como as embalagens metalizadas de salgadinhos e biscoitos, pois cerca de 30 % é refugo não aproveitável. Alguns materiais são quase que inviáveis economicamente como papeis de bala ou embalagens de bombom por exemplo. Vejo pessoas apanhando latinhas, PET quando o as recicladores conseguem pagar um preço razoável, mas os vidros são de mais difícil manuseio embora completamente recicláveis. Mas, mesmo diante de inúmeras dificuldades ainda penso que a reciclagem pegou.  
Coisa um pouco mais difícil é a reutilização. Estamos assistindo uma tentativa de ressurreição das garrafas de vidro abandonadas recentemente em prol das latinhas e dos PET’s. As garrafas de vidro podem ser reutilizadas inúmeras vezes. Bastando para isso serem higienizadas. O problema é que os hábitos do consumidor ávido por praticidade precisariam retornar aos anos 80, quando ainda se mantinha em casa engradados de garrafas de cerveja e de refrigerante. Precisaríamos inaugurar uma prática de reutilização de garrafas de vinho e de outras bebidas, frascos de perfume, mas seus fabricantes, que poderiam reutilizá-las, estão longe, então o que fazer?
Contudo, creio que o “R” de mais difícil solução seja o de reduzir. Postulo que na medida em que falamos em Desenvolvimento Sustentável, falamos de crescimento econômico sustentável, isto é que se mantenham as condições necessárias na natureza para que possamos continuar explorando seus maravilhosos bens também no futuro. Mas crescimento econômico ocorre com trabalho e crescimento da produção. Então não se está falando em reduzir. Toda empresa capitalista quer e busca um aumento em seu faturamento de um mês para outro ou de um ano para outro. Ora o que é o aumento do faturamento senão um aumento nas vendas e, consequentemente, na produção? O mesmo acontece com os países. Todos buscam o famoso superávit, o crescimento do PIB. Ora o que é o crescimento do PIB senão o aumento das exportações com aumento na produção? Então como se pensar em reduzir? Em todo noticiário ouvimos falar sobre “perspectivas animadoras” de crescimento de um ou de outro país e comparamos com o nosso. Queremos a todo custo uma elevação em nosso PIB. Esperamos, com isso, que existam mais recursos, mais dinheiro, mais riquezas a serem partilhadas pela população elevando a famosa renda per capta.     
Honestamente, não consigo vislumbrar coisa qualquer que se pareça com algo “ambientalmente sustentável” pensando em aumento de produção. Aumento de produção parece implicar em aumento no consumo de energia, aumento da extração de matéria prima virgem ou reciclável, aumento da quantidade de resíduos de produção, aumento no consumo de matérias de acabamento e de embalagem, aumento de poluição, de lixo e de trabalho, quiçá desnecessário.
Contudo reduzir teria um impacto econômico forte em nossa sociedade. Não creio que se possa falar em desabastecimento propriamente dito. Embora existam sazonalidades em alguns produtos, penso que a humanidade atingiu um nível de excelência em sua produção que a dificuldade de consumo em algumas regiões se deve tão somente à logística para se fazer chegar o produto até ela do que por um eventual desabastecimento gerado pela redução da produção. Por outro lado, reduzir a produção implica em redução de faturamento, de horas trabalhadas, de valor pago para o trabalhador e, em última instância, redução do PIB. Raros são os trabalhadores de quaisquer que sejam seus setores produtivos que tenham gordura suficiente para manter seu nível de vida mesmo com uma possível redução de sua remuneração. Isso reduziria, para muitos, sua capacidade de consumo a níveis inferiores ao necessário. Certo que com a diminuição do poder de compra geral os preços também cairiam pela lei de oferta e procura o que talvez recolocasse o mesmo trabalhador no jogo novamente num segundo momento. Que os donos da oferta consigam segurar os preços durante algum tempo, mesmo assim, uma redução no consumo pressionaria para uma queda de preço. Parece que o cenário encerraria uma readequação, mais do que uma recessão. Talvez seja mais um retorno ao normal depois de um anormal crescimento do especulativo ou do descartável.
Considerando a empresa em relação aos seus concorrentes pode parecer num primeiro momento que se trate de uma perda de competitividade. Mas considerando que a medida de redução da produção venha em auxilio da sustentabilidade verdadeiramente falando, menos do que uma perda de competitividade essa medida pode encerrar uma tomada de posição de liderança ambiental. Uma vez que se consolide sua produção em produtos realmente sustentáveis utilizando, ai sim, os três “R’s” da sustentabilidade, a empresa poderá assumir uma liderança para um novo milênio. Tomando de modo sério a iniciativa pela sustentabilidade, a empresa assumirá um papel de liderança, mas agora em um novo paradigma.
Partindo da idéia de redução da produção e, com isso, das horas de trabalho, sem que isso encerre, verdadeiramente, uma redução do poder de compra, o trabalhador pode obter um crescimento, mas de satisfação e qualidade de vida. Não mais se poderá preconizar o crescimento do PIB, mas de outro índice que já existe, mas ainda não ganhou o devido IBOPE: o FIB, ou felicidade interna bruta.  
Reduzir, nesse sentido tem uma relação mais forte com uma mudança de paradigma econômico/ambiental do que um retrocesso a níveis anteriores de consumo. Trata-se de uma evolução de consciência que pode oferecer uma queda de posição na competitividade do jogo destrutivo de uma economia predatória, mas uma dianteira de vanguarda em um novo jogo muito mais nobre, construtivo, evolutivo, numa palavra: mais humano.

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