quarta-feira, 24 de abril de 2013

Cultura empresarial e sentido


Em algumas empresas é habitual trabalhar até bem além do horário comercial tradicional. Virou parte da cultura da empresa. Para o recém contratado desatento até passa sair no horário estabelecido contratualmente, mas depois de algum tempo, quando este assume integralmente suas atividades e as responsabilidades inerentes a elas, sair no horário pode parecer displicência ou falta de compromisso. Cheguei mesmo a ver casos de pessoas “trabalhando” em madrugadas e finais de semana, sem uma justificativa plausível para isso. E essa não é uma prática esporádica, mas contumaz. Por vezes, nos esbarros do cafezinho percebia-se certa “disputa” velada de quem fez mais horas ou aquela disfarçada reclamação de estar cansado, apenas para comentar o fato de ter trabalhado no domingo ou na madrugada anterior. Para muitos, isso se transformava em pretexto para chegar um pouco mais tarde e alongar a soneca matinal sem que isso pesasse na consciência.
Noutras, diferente disso, a regra era cumprir o horário. Soava como eficiência! Sair cedo, ir para o happy, conversar sobre futilidades com a justificativa de deixar passar o horário de pico do trânsito. Entre as futilidades mais comuns, em meio a uma ou outra reclamação pestilenta do chefe ou de algum desafeto, estava o quase sempre presente objetivo de trocar de carro, de celular, notebook, como se isso fosse a coisa mais urgente, sem o qual a vida pararia.
Poderia citar aqui um bom número dessas esquisitices que, para quem tem o mundo corporativo como seu “habitat“, pode parecer até natural. Contudo o ponto que gostaria de assinalar é que essas condutas socialmente aceitas estão, no mais das vezes, recobertas com aquilo que chamamos de “agenda oculta”. Essas práticas parecem amiúde escamotear um casamento falido, um medo de perder o emprego e uma boa estratégia para fazer o que o chefe aprecia e valoriza, um artifício para lidar com algum tipo de dificuldade sexual, carência afetiva entre outras tantas dificuldades comuns de nossa história do mundo cosmopolita contemporâneo.
Essas dificuldades acabam por aproximar pessoas afins e as práticas criam as chamadas panelinhas que, por fim, culminam por forjar a cultura da empresa. Criam, por assim dizer, um conjunto de costumes e valores sem o menor sentido profissional, mas que acabamos por recobrir de significações arbitrárias e que, por ser compartilhado pela maioria, ganham um ar de natural. Tudo isso transforma-se, muitas vezes, em entraves toleráveis ao trabalho.
Existe uma grande confusão entre a generalização dessas práticas bizarras com a real cultura de empresa. A cultura acaba sendo encoberta por uma série de práticas que só com muito esforço poderiam traduzir os valores, a visão e a missão real da empresa. No mais, acabam por prejudicar a todos. É preciso distinguir com sensatez a real cultura da empresa, aquilo que realmente agrega valor a atividade profissional, desses fantasmas que as assombram. A confusão acaba por criar um ambiente de trabalho doentio e muitos bons profissionais acabam por não querer trabalhar nessa empresa arrastando todo seu network na mesma direção. Lembro-me de um amigo que me convidou para trabalhar em uma empresa dessas. Fiz a seguinte indagação: “... muita gente, há muito tempo, fala muito mal dessa empresa. Voce realmente acha que é uma boa oportunidade para mim?”. Sem resposta, passamos a ver outras alternativas e continuamos amigos .

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