sexta-feira, 19 de maio de 2017

Economia capitalista e Nova economia: Contraste e transição

Economia capitalista e Nova economia: Contraste e transição

(Por: Jadir Mauro Galvão)


Não é novidade, ao menos para quatorze milhões de desempregados no Brasil, que uma profunda crise se instaurou na economia. Mas essa crise parece ter feições bem peculiares. Não parece ser fruto de um fator externo ou outro, de uma sazonalidade ou de fenômenos alheios a vontade de governantes e empresários. Ainda que os escândalos de corrupção cumpram hoje um papel preponderante na crise, ainda não é esse o ponto que aqui nos debruçamos. Tampouco é conveniente reputar que estamos apenas em um momento de crise, passageira como outras tantas que se viram ao longo de décadas. Falamos de uma crise que parece emergir do próprio modelo econômico vigente. Dito de outro modo, parece que não estamos em um momento de crise, mas num modelo em crise. Modelo que parece preferir a escassez à abundância. Que prefere apostar na competitividade da mão de obra porque reduz o preço. Que prefere comprar a empresa concorrente, (e mandar seus empregados embora) a competir com ela com produtos melhores. Que prefere a disposição do jovem à experiência dos mais velhos. Que prefere a tecnologia como mão de obra à falibilidade humana. Que prefere a obsolescência de seus produtos apenas para exigir nova aquisição e novo lucro. Questão de escolha. Produtividade, preço, custo, lucro… Não é exatamente culpa das empresas. Elas buscam seus valores. O problema é que tudo isso provoca uma série de impactos nocivos: Maior volume de lixo, esgotamento do modelo de emprego, problemas na sustentabilidade, crises sociais...

Muitos de nós nasceram, cresceram e prosperaram dentro desse modelo e mesmo viram o mundo progredir materialmente por conta dele. De modo que é necessário certo esforço adicional para admitir que tal crise seja decorrente desse mesmo modelo. Podemos até mesmo apontar os progressos tecnológicos das últimas décadas como evidências claras do sucesso do modelo econômico ainda persistente. Muito mais fácil reputar a responsabilidade pela crise a fatores externos, sazonais ou mesmo inefáveis a suspeitar das colunas de sustentação que ainda mantém um edifício tão brilhante e lustroso de prosperidade.

Mas, antes de tecer longas e difíceis análises conceituais acerca dos cânones da economia capitalista, tentemos efetuar um pequeno contraste com um modelo que parece emergir de uma nova leitura feita a partir desse mesmo avanço tecnológico que experimentamos. Aquilo que vem se caracterizando como Nova Economia: colaborativa, criativa, social...

Essa tal Nova Economia parece ter um ângulo de visão que lhe permite enxergar abundância onde a outra vê escassez. Do interior das práticas colaborativas que se espraiam cá e acolá, parece emergir um dos primeiros contrastes. A ideia de propriedade privada, tão cultuada pelo Capitalismo, cede lugar para a prática do uso, do acesso ao recurso. Ao invés de vender mais e mais carros, bicicletas ou construir hotéis, permite-se o acesso a eles a partir do cenário já existente de casas ou automóveis particulares. Acessar uma máquina, uma bicicleta, uma ferramenta, compartilhar um serviço parece fazer circular os recursos mais do que ter e vender. Aliás as idéias de propriedade, de lucro e de acumulação parecem muito mais represar riquezas do que fazê-las circular. Diferente das ideias de uso, acesso e compartilhamento que colocam os recursos em circulação e ainda geram trabalho, renda e benefícios para que os tem e também para quem usa temporariamente e não precisa empatar volumosos recursos na aquisição, tampouco no armazenamento em longos períodos de ociosidade.

No vão entre o segundo e terceiro setor da economia, isto é, entre as empresas privadas com fins lucrativos e as ONGs, emergem os Negócios Sociais. Conhecidos como o setor dois e meio. São iniciativas que tem por finalidade resolver algum problema social e tem no negócio, nos produtos oferecidos e mesmo no lucro o meio de atingir seus fins. Um novo contraste surge aqui. Se as empresas tradicionais vêem no oferecimento de produtos um meio de atingir seus objetivos de lucro, as empresas sociais vêem no lucro um meio de atingir seus objetivos sociais. Ambas podem e devem primar por excelência em gestão, por se tornar uma boa empresa para se trabalhar, por remunerar bem seus colaboradores, por oferecer bons produtos e serviços, mas nos negócios sociais parece que carroça e cavalo se colocam na ordem correta. Negócios como meio, pessoas como fim.

Uma lógica que emerge com feições mais humanas e menos mesquinhas. Se no modelo capitalista uma dificuldade surge como oportunidade de se lucrar mais, de aumentar o preço, na nova economia o negócio é a viabilidade de gerar trabalho, renda, dignidade e ainda por cima mitigar os efeitos das carências sociais.

Mais do que apenas oferecer resposta ao desemprego, o novo modelo também oferece antídoto a outra doença do modelo meramente capitalista. As melhores remunerações de trabalho encontram-se nas empresas que visam quase que exclusivamente o dinheiro pelo dinheiro: bancos, financeiras, cartões de crédito... Mas nessas corporações parece também existir entre seus colaboradores, mesmo nos mais bem remunerados, uma crise de sentido, de valor, de propósito. Onde todo o empenho, esforço, estresse e dedicação tem por finalidade apenas o dinheiro. No caso de negócios sociais o valor está na própria finalidade social, o que parece oferecer motivos melhores para engajamento dos colaboradores e, quem sabe, também dos consumidores.

Outro contraste que parece emergir nessa nova economia é na forma de relação entre os atores do negócio. Enquanto no outro modelo se privilegia o poder, o controle, a competição, o novo modelo parece preferir a proposição, a autonomia, e a colaboração. Não há que se esperar pela ordem do que deve ou não ser feito, mas cabe a cada colaborador propor com autonomia. Em um se trabalha para, no outro se trabalha com. Colaborar ou laborar com. Sutis diferenças na semântica mas gritantes na postura, na atitude e quiçá nos resultados.

Um fantasma que assombra o modelo anterior é a concorrência, a competição. Sempre numa busca (sem que se veja claro sentido) pelo crescimento e por abocanhar a maior fatia de seu mercado, as empresas com fins lucrativos competem acirradamente com seus concorrentes por mercados e por consumidores. Para tanto, investem vultosas quantias em marketing, em propaganda, senão em espionagem industrial para crescer mais do que seu concorrente. No novo modelo um novo negócio que busque o mesmo fim será talvez mais um colaborador do que um concorrente. Não há a necessidade premente de crescimento senão na conta de se atingir o maior número de beneficiados. Como o objetivo não é o lucro, tampouco a especulação e nem a distribuição de dividendos para acionistas, toda a rentabilidade pode ser partilhada em boas remunerações, em redução de carga horária de trabalho ou mesmo na inclusão de novos beneficiários do projeto.

Não há no novo modelo a remuneração do capital. Ator inefável promovido a ser atuante, por vezes com prerrogativas superiores às próprias necessidades dos humanos. Quem ja não viu massivas demissões em meio a crises tão somente com a justificativa (para alguns plausível) de fechar o balanço no azul? Como dito anteriormente nesses casos a carroça fica na frente do cavalo.

Se bem mostramos que o colaborador nessa nova economia precisa adotar novas atitudes, algumas empresas da economia capitalista também podem rever seus posicionamentos perante a nova economia. Bem verdade que algumas empresas tradicionais já apostam num modelo mais colaborativo. O conceito de Criação de Valor Compartilhado parece um elemento claro de transição. A Nestlé redesenhou seu modelo de negócio a partir desse conceito. Ao invés de promover uma concorrência entre seus fornecedores de leite, legumes e outros tantos insumos para seus produtos, ela prefere capacitá-los a produzir mais, melhor e com menor custo. Para tanto ela cria uma cadeia de valor que envolve pesquisas em universidades, articulações junto a setores público e mesmo privados, transferência de métodos e tecnologia, sempre no intuito de viabilizar uma produção de melhor qualidade e com menor preço. Com isso, além de criar valor para a comunidade ela também se beneficia. A Coca-Cola investe em água, a Natura em capacitar comunidades para que façam um bom manejo dos insumos provenientes da floresta empoderando a comunidade local. Empresas de papel investem em cooperativas de catadores de recicláveis. Tudo isso envolve uma mudança de olhar para o mercado.

Mas, talvez sejam necessários outras mudanças nas empresas do modelo anterior que melhor se adequem aos novos tempos. O modelo de poder e controle hierárquico e rígido possivelmente se tornará um tanto quanto mais descentralizado e participativo. Não compete só a uma hierarquia reduzida tomar as decisões, mas todo e qualquer participante com uma dose de criatividade e iniciativa pode propor ou receber propostas, ideias, objetivos, produtos etc. Ainda que devam existir pontos focais com conhecimento mais amplo para o devido alinhamento das iniciativas descentralizadas o papel nesse caso é mais o de articulação do que de comando, da facilitação do que de coordenação. Se ainda existem diferenças elas não comportam maiores privilégios. Não se trata da extinção da média ou alta gerência, mas uma transformação na sua conduta e importância.

As empresas antes fechadas em sí e em seus próprios emaranhados burocráticos precisaram aprender uma conduta mais permeável. Estabelecer relações com outros projetos, empresas ou pessoas como objetivos distintos. Para isso é preciso criatividade para estabelecer as relações mutuais. Outras iniciativas não tiram o foco, mas ampliam horizontes e podem enriquecer o negócio.

Essa permeabilidade pode proporcionar outros tipos de relação entre colaboradores ou parceiros de negócio que vão além de emprego ou da mera prestação de serviços.  A natureza é rica em exemplos dessas relações. Mutualismo, comensalismo… Um saudável ambiente receptivo a novas ideias. Dentro do cotidiano pode existir um espaço para receber e acolher o novo, ainda que se precise de tempo para absorvê-lo e mesmo que se teime em reconduzir as negociações para os mesmos parâmetros antigos do lucro também será interessante doutrinar as novas condutas para que se libertem dos hábitos viciosos e rançosos de anteriormente.

É custoso mudar hábitos e crenças antigas, sabemos disso, mas os cânones dessa economia que aprecia a escassez parece se afeiçoar tanto a ela que acaba com suas práticas a produzi-la artificialmente e mesmo se beneficiar dela. Tanto o lucro, a propriedade privada, a acumulação de recursos, fusão de empresas parecem muito mais represar as riquezas disponíveis do dinheiro, de bens de possibilidade de trabalho do que criar um ambiente propício a geração de abundância. Mesmo os empréstimos geram dívidas e não riquezas. Preocupações e não dignidade.

O modelo capitalista surgiu justamente para tirar o mundo de um momento de severa escassez onde alguns poucos nobres mantinham para sí os poucos recursos disponíveis. E ao longo do tempo o fez bastante bem. Reinvestindo seu lucro em novas unidades de negócio, novos mercado,  produzindo mais abundância, mais trabalho, e mais dignidade. Foi, por assim dizer, um remédio amargo para curar um mundo pobre e doente. Por outro lado hoje temos muito mais riquezas, recursos, informações e meios de comunicação do que em qualquer época. Voce tem, nós temos riquezas que desconhecemos. Temos conhecimentos e não aprendemos como usá-lo ao nosso favor; temos capacidades e a maior parte delas não está em uso; temos algumas ferramentas, mas não todas de que precisamos; temos conexões, e não sabemos o que fazer com elas; temos estratégias e muitas já não funcionam no contexto atual; temos uma visão da crise, mas não uma compreensão profunda dela; temos Ideias e precisamos de ajuda para colocá-las em prática; temos capacidade crítica e usamos mais para destruir do que para criar. E está tudo aí, disponível e com tempo de sobra. Falta apenas organizar isso tudo, mas como?

Foram os gestores das empresas que melhor organizaram esses recursos humanos, ou melhor riquezas. E o fizeram bastante bem, criando produtos, projetos, metodologias, departamentos, organizações, métricas… o problema é que toda essa organização serviu para finalidades pouco nobres. Para fazer crescer as iniciativas privadas com fins lucrativos. e acabamos por reproduzir o modelo excludente que devia ter sido superado. Muitos suaram seus macacões e paletós para o benefício de poucos. E foram pagos na menor conta possível para isso. Não se trata agora de nos organizarmos nas mesmas iniciativas privadas, mas nos cabe, de partida, redefinir os propósitos. Redefinir a própria ideia de empreender. E se ao invés de pensar em empreender como uma iniciativa privada com fins lucrativos nos organizássemos em uma Iniciativa colaborativa com a finalidade de criação de valor compartilhado? Ai, quem sabe, quando colocarmos o nome nessa iniciativa, não se resgate a ideia de razão social que todo empreendimento deve ter.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Crise! Que tal buscarmos uma saída juntos?

(Por Jadir Mauro Galvão)


Crise! Que tal buscarmos uma saída juntos?

Não é novidade, ao menos para quatorze milhões de desempregados no Brasil, que estamos em crise. Mas essa crise parece ter características bem peculiares. Não parece ser fruto de um fator externo ou outro, de uma sazonalidade ou de fenômenos alheios a vontade dos governantes e empresários. Não é de escândalos de corrupção que estamos falando. Falamos de uma crise que parece emergir do próprio modelo econômico vigente. Modelo que parece preferir a escassez à abundância. Que prefere apostar na competitividade da mão de obra porque reduz o preço. Que prefere comprar a empresa concorrente, (e mandar seus empregados embora) a competir com ela com produtos melhores. Que prefere a disposição do jovem à experiência dos mais velhos. Que prefere a tecnologia à falibilidade humana. Questão de escolha. Produtividade, preço, custo… Não é exatamente culpa das empresas. Elas buscam seus valores. O problema é que tudo isso provoca o esgotamento do modelo de emprego e ainda não resolvemos o que fazer com o desempregado. Não adianta auxilá-lo até que arrume outro emprego. Não vai haver demanda para todo esse contingente de desempregados. E não é porque voce está empregado agora que não precisa pensar na crise. Cedo ou tarde ela vai bater à sua porta. Parece inexorável. Precisamos buscar uma saída e não adianta ficar esperando que o governo ou as próprias empresas o façam. Algumas pessoas conseguem protelar os efeitos com minguadas alternativas de microempreendimentos individuais, UBER ou coisa que o valha, mas isso parece que é só empurrar o problema para mais adiante.

Por outro lado hoje temos muito mais riquezas, recursos, informações e meios de comunicação do que em qualquer época. Voce tem, nós temos riquezas que desconhecemos. Temos conhecimentos e não aprendemos como usá-lo ao nosso favor; temos capacidades e a maior parte delas não está em uso; temos algumas ferramentas, mas não todas de que precisamos; temos conexões, e não sabemos o que fazer com elas; temos estratégias e muitas já não funcionam no contexto atual; temos uma visão da crise, mas não uma compreensão profunda dela; temos Ideias e precisamos de ajuda para colocá-las em prática; temos capacidade crítica e usamos mais para destruir do que para criar. E está tudo aí, disponível e com tempo de sobra. Falta apenas organizar isso tudo, mas como?

Foram os gestores das empresas que melhor organizaram esses recursos humanos, ou melhor riquezas. E o fizeram bastante bem, criando produtos, projetos, metodologias, departamentos, organizações, métricas… o problema é que toda essa organização serviu para finalidades pouco nobres. Para fazer crescer as iniciativas privadas com fins lucrativos. Muitos suaram seus macacões e paletós para o benefício de poucos. E foram pagos na menor conta possível para isso. Não se trata agora de nos organizarmos nas mesmas iniciativas privadas, mas nos cabe, de partida, redefinir os propósitos. Redefinir a própria ideia de empreender. E se nos organizássemos em uma: Iniciativa colaborativa com a finalidade de criação de valor compartilhado?

Sim, nossa iniciativa vem exatamente nessa direção. Somos uma iniciativa colaborativa com o propósito de criar cenários de abundância e que possam ser compartilhados por muitos. Para atingir tal propósito é necessário o empoderamento de pessoas de modo a que elas possam se emancipar do modelo de escassez vigente, ganhando autonomia para propor e criar coletivamente um futuro a partir de cenários de abundância e cooperação pautados pela criatividade, colaboração e pelo engajamento.

Mas o que entendemos por empoderamento? Conhecimento: diverso, atualizado, autônomo, dinâmico; Ferramentas: múltiplas, flexíveis e práticas de uso; Discernimento: Percepção apurada, conhecimento verdadeiro, atenção, cuidado, acuidade, (Remédio contra a alienação); Estratégia: alternativas. Mas já temos tudo isso disponível, só que está fragmentado e escondido dentro de cada um de nós em cada casa, em cada quarto. Então o que nos falta agora é somente união. Mas diferente da estratégia das empresas que fomentam a competição, precisamos de colaboração, transferência de conhecimentos; precisamos não dividir tarefas, mas somar competências existentes e adicionar novas. Só por aí já se vê uma mudança na equação.

A tal Nova Economia nos trouxe a ideia de cadeia de valor. Como proporcionar não apenas produtos, mas valores intangíveis como conhecimentos, experiências, histórias, cultura... A proposta é termos um grupo heterogêneo que utilize seus conhecimentos, talentos, ferramentas e ideias para criar projetos e iniciativas de valor. Fazer uso da capacidade de planejamento e organização do próprio grupo para criar produtos. Aproveitar a rede de conexões para a divulgação dos produtos em eventos para proporcionar valores tangíveis, intangíveis e até financeiros, que possam ser partilhados por todos os envolvidos gerando até um excedente para investimento em outros projetos ou até para ampliar a rede de abrangência do grupo, criando uma cultura de reciprocidade.

Pois bem, essa iniciativa já existe e está em curso. Ainda dando seus primeiros passos, ainda tropeçando em algumas dificuldades pontuais típicas dos inícios, típicas da inovação. Mas com projetos, ideias de valor e, sobretudo, pessoas engajadas. E voce pode fazer parte disso tudo. Assim, podemos, juntos, criar alternativas para superar a crise de emprego e até construir um novo e melhor modelo de economia de abundância.Se ainda não temos todas as riquezas de que necessitamos, talvez ela esteja aí de bobeira dentro de voce, clamando para ser utilizada.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Crise do emprego e a nova economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Crise do emprego e a nova economia
Vimos a distância em épocas recentes um alarmante desemprego na Grécia, Itália, Espanha e outros integrantes da chamada zona do Euro. Em 2008 os Estados Unidos sofreram com uma grande crise especulativa que também produziu um enorme contingente de desempregados. Incapazes de saldar a prestação de suas hipotecas, viram-se obrigados a abandonar suas casas e ir morar em trailers ou barracas de camping em terrenos vizinhos às suas antigas casas. Nós no Brasil parecíamos imunes, experimentando um momento de consumo que aquecia a economia, gerava empregos, tanto quanto dívidas, mas ai a corrupção desvelou sua face mais horrenda e instalou a crise palas bandas de cá também. Cada qual com sua particular justificativa para suas crises, o fato é que quem sofria era o emprego, e, claro o ex-empregado.
Culpa da especulação imobiliária, da corrupção, da crise econômica mundial.... É que nós nos habituamos a pensar que a economia é feita de empresas e de empregos. Nós, nossos pais, avós, amigos e parentes, vivemos em meio a uma época em que viver, prosperar era ter uma carreira, trabalhar em uma grande empresa, ter um bom mercado de trabalho. Ficamos tão absorvidos por essa ideia que ela assumiu feições de verdade e de naturalidade. É preciso certo distanciamento para perceber que essas ideias de emprego e mercado de trabalho são (senão foram!), um fenômeno atípico.
Um grande boom de emprego foi experimentado, sobretudo, após a segunda grande guerra mundial. Tínhamos uma Europa a ser reconstruída e todo o hemisfério sul para ser desenvolvido. Prédios, máquinas, viadutos, tuneis; alimentos a serem plantados colhidos e processados; ruas a serem asfaltadas e iluminadas. Tudo isso absorveu um enorme contingente de mão de obra que acompanhou esse progresso positivista em sua própria vida pessoal. A globalização e a mundialização ampliaram os mercados e, num primeiro momento ampliaram a oferta de emprego cá e acolá.
Mas os valores cultuados por esse mercado não permitem inchaço. Produtividade, redução de custos, fusões de empresas... chamamos isso de Excelência administrativa! Processos, boas práticas, sistemas de computadores, robotização... tudo isso reduziu sobremodo a necessidade de mão de obra tanto administrativa quanto produtiva. O próximo passo está nos postos de decisão. O desenvolvimento da Inteligência Artificial afetará o nicho pensante das empresas tornando obsoleto muitos MBAs caríssimos.
Não se trata de correr atrás de uma nova graduação ou pós, mas de entender que emprego é uma coisa, trabalho é outra. O mundo não está carente de trabalho, mas sim de emprego.
Emprego é “um” tipo de trabalho, que a iniciativa privada, com fins lucrativos, demanda ao seu bel prazer ou necessidade. Numa palavra emprego é o trabalho privatizado. Por isso é que aquela máxima de que basta de empenhar, batalhar, trabalhar duro, estudar para poder vencer na vida é falsa. A ideia de que todos têm oportunidades é falsa. As oportunidades são demandadas pelas empresas quando querem e só na medida de sua própria necessidade e interesse.
Não estamos falando de má fé ou procurando algum tipo de bode expiatório. Não são as empresas as culpadas da crise ou as grandes vilãs da decrepitude da nossa economia. As empresas trabalham dentro de determinados valores que elas mesmas cultuaram e disseminaram. Competitividade, produtividade; o privado, a obsolescência, o consumo; o profissionalismo a aplicação. Muito que leem o que acabei de escrever concordam com esses valores, mas sem se dar conta do que se tem de abandonar em prol deles. Competitividade prescinde da cooperação são ideias antagônicas. Ainda que as empresas fomentem cá e acolá a ideia de cooperação entre seus colaboradores, na prática isso resulta em pura competição. No afã de ser o mais produtivo possível os próprios valores da vida como a diversão, a brincadeira o relacionamento social sem intenção de network, ficam de lado. O privado rivaliza com o público; a obsolescência e o consumo destroem os recursos naturais.
Será preciso romper com alguns desses valores para poder desenterrar outros modelos de trabalho que não o do emprego. Algumas iniciativas já caminham nessa direção. Hoje compartilhamos carros (Uber), compartilhamos casas (hostels). As ideias de associativismo não são novas. Hoje já falamos em provedores de plataforma e provedores de conteúdo. Eu mesmo contratei um provedor de plataforma rádio web e provisiono conteúdo de filosofia.
Não é pensar em montar um negócio privado com fim lucrativo. A maior parte de nós não tem lucro, muitos até nem sabem direito o que é isso. Lucro é um excedente para além do trabalho, dos custos e mesmo dos investimentos. É excedente. Salário, junto com os diversos outros benefícios são a contrapartida do trabalho, mas nesse caso não há lucro. No negócio privado você precisa pagar por tudo. Não há quem se associe a você senão com vistas ao lucro. Na associação você soma iniciativas, soma esforços e compartilha os resultados.
Não há que se pensar em uma carreira de longo prazo. Temos múltiplas capacidades que nos permitem participar de projetos das mais diversificadas áreas. Alavancar um projeto de co-working, desenvolver um hostel, fazer pegar uma rádio web. Dar uma força para um amigo que precisa de conhecimentos em energia fotovoltaica ou mesmo atrair público para aquele bar ou festa. Experiências gastronômicas, experiências de cultura... múltiplas tarefas, múltiplas iniciativas, múltiplas possibilidades. Desenvolver um novo olhar. Um olhar que não mira num emprego, mas numa possibilidade. Que não mira no salário, mas nas conexões. Que não mira nas vantagens que obtém para sí, mas nas possibilidades que cria para todos. Que não pensa em organograma, mas em associações em rede ou em teia, como queiram. Onde não se pensa em motivar o outro, mas em criar valor para todos. Onde você não é o único responsável por criar o valor, mas permite que outros possam somar suas ideias e juntos compartilhar os valores (e não estamos falando em dinheiro) com todos. Onde não se pensa em comprar e vender, mas em disponibilizar, oportunidades, recursos, plataformas, informações, na medida de nossas possibilidades e toma-los na medida de nossas necessidades ou vontades.
Mas também precisaremos nos habituar com o incerto, com a mudança, com o improviso, com o provisório. Como diria Bauman: com o “líquido”. São inúmeros termos que já há tempos não visitam nosso vocabulário que por vezes ao tentar compreendê-los nossa consciência insiste em encaminhá-los para as ideias ainda arraigadas de propriedade, de lucro ou outros quetais. Com o tempo vamos digerindo esses assuntos, mas parece que não há mais tempo para continuar pensando em emprego. Eles não vão deixar de existir, mas certamente perderão o papel preponderante e o status que tiveram tempos atrás.

O processo de digestão pode até ser lento, mas o mundo está mais rápido e para nos inserirmos mais rapidamente nesses novos tempos e poder fazer a história mais do que ser somente passageiro dela, já está mais do que na hora de tentar entender esse novo cenário e seus valores e mais do que isso pautar nossos objetivos, metas e estratégias nesse novo paradigma econômico. Ou então ficar se lamuriando que o mercado está em crise e continuar procurando emprego.