quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Filosofia nas empresas - 2016 09 20 - Geovana Donela e João batista Ferreira

Programa exibido pela rádio http://teiadobem.com/ em 20 09 2016

Tema do debate: Governança corporativa



Filosofia nas empresas - 2016 09 13 - Ines Brosso e Ricardo Giorgi

Programa exibido pela rádio http://teiadobem.com/

Tema do debate: Segurança da informação, tecnologia e o ser humano



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Economia horizontal

Economia horizontal
(Por Jadir Mauro Galvão)

Ainda hoje estamos habituados a uma economia verticalizada. A regra dessa economia é a iniciativa privada com fins lucrativos. Esse modelo ainda vai perdurar, mas ele é pouco amigo e pouco inclusivo. Nós ganhamos dinheiro com ele, mas só o mínimo possível. Aqui vale a regra de quem pode mais chora menos. Quem está no meio dessa pirâmide fica refém das demandas que vem de cima. Quem ganha mais é sempre aquele que é dono do negócio. Mesmo empreendedores que estão num nível intermediário ficam também com uma parcela intermediária. O dono de um mercado, por exemplo, claro, ganha mais, muito mais, que seus empregados, mas mesmo esse é somente um mero empregado das grandes marcas que ele comercializa. Para essas grandes marcas você é só um ponto de venda maior ou menor. Uma gráfica é só “um funcionário terceirizado” das grandes indústrias de papel ou das editoras.  E mesmo esse empresário precisa pagar por quase tudo. Não há nesse tipo de relação econômica algo como uma real parceria ou colaboração. Como sua finalidade é meramente lucrativa, isto é, visa um benefício próprio, só se consegue aliados quando se paga por eles. É preciso que esse empreendedor pague pela propaganda, pela panfletagem, pelo anúncio, placa com seu nome, pela limpeza, pela organização, pela impressão, pelo transporte...
Quem está mais abaixo nessa verticalização acredita que “todos têm oportunidades, basta que se esforcem”. Contudo, as oportunidades somente são demandadas por quem está no patamar mais acima, e mesmo esse, só consegue demandar na medida em que tem recursos financeiros para bancar tal oportunidade. Essa relação é conhecida como emprego. Um tipo de trabalho privatizado, que pertence a uma iniciativa privada. A maior parte de nós nasceu, viveu e cresceu dentro desse cenário que, de modo atípico, dominou a economia mundial desde um ou dois séculos, mas com mais força e vigor após o término da segunda grande guerra. As grandes organizações demandaram enorme contingente de empregados e prosperaram magnificamente.
A ideia de emprego, de mercado de trabalho assumiu uma importância tal que levou de roldão a educação, as iniciativas governamentais e outras tantas para a mesma direção. As universidades que até então nos serviam para adquirir um conhecimento geral de nível superior, se tornou basicamente um ensino profissionalizante para além do técnico. As iniciativas governamentais foram no sentido de dar todo o apoio e infraestrutura para que essa via prosperasse. As pessoas escolhiam como seria sua vida, onde morariam, muito em função do mercado de trabalho.
Os espaços públicos, os bairros foram formados a partir desse cenário. Temos em São Paulo bairros inteiros que foram formados ao redor de indústrias, como Penha, Brás, Mooca, Água Branca entre outros. As antigas cidades europeias giravam ao redor do castelo real, nossos bairros mais tradicionais ao redor de indústrias. Mas mesmo hoje, bairros como Vila Olímpia, Brooklin, são reformulados ao redor dos edifícios de grandes empresas. Os imóveis residenciais mais valorizados ainda são os que estão mais próximos do emprego.
Mas esse mundo das empresas funciona baseado em determinadas regras. Produtividade, competitividade, redução de custo, domínio de mercado... Tudo isso produziu um cenário em que o próprio fenômeno do emprego entrou em declínio. Na medida em que as empresas ganharam em eficiência administrativa, menor é a necessidade de mão de obra. Na medida em que, visando domínio de mercado consumidor, empresas grandes adquirem outras tantas menores, são ceifadas centenas, senão, milhares de estações de trabalho, ou melhor, vagas de emprego. Na medida em que as empresas conseguem mapear processos e boas práticas, menor é a exigência de qualificação do profissional. Qualquer profissional que aceite uma remuneração mediana pode realizar tarefas até então intrincada, pois já se tem sistemas, metodologias, processos, e todo o mais que possibilita ao empresário uma redução custo em sua folha de pagamentos de empregados.
Ainda que se considere que estamos em pleno curso de uma crise econômica nacional, senão mundial, com o desemprego assombrando famílias e mais famílias. Já é possível perceber sinais claros de que esse fenômeno do emprego vai se ajustar a patamares mais modestos do que fora outrora. Não será possível reabsorver todo o contingente de milhões de desempregados ao redor do mundo. Estatísticas recentes deram conta de que vinte e cinto por cento da população da Espanha estava desempregada. Cenário semelhante vivem Itália, Portugal e outros países ditos ricos. Que dizer então dos “em desenvolvimento”? Mas o que será desse magnífico contingente de desempregados. Serão deserdados sociais?
Não. Ainda temos muito trabalho, o que nos falta é emprego. Será preciso certo tempo e mesmo esforço para se compreender que emprego é um fenômeno que assumiu responsabilidades que não lhe pertenciam. Com a farta oferta de empregos durante tanto tempo, nós desaprendemos de trabalhar em outros modelos. A abundância de empregos foi um fenômeno sazonal. Ainda que tenha durado longo tempo, agora ele tende a se acomodar em outro patamar. Precisaremos nos organizar de outro modo. Quem sabe em um modelo que seja mais horizontal.
Emerge cá e acolá outros modelos associativos, colaborativos, cooperativos. É preciso que se desenvolvam modelos menos travados de associativismo. Projetos de iniciativa colaborativa, pois sozinhos teremos dificuldades de prosperar qualquer que seja nossa iniciativa. Juntos, apoiados podemos ser grandes. A divulgação de um projeto, de uma iniciativa, se feita por muitos, tende a prosperar, mas será preciso que o projeto não seja concebido meramente como uma iniciativa privada com fim lucrativo. O próprio projeto precisa ser engendrado concebendo a hipótese de benefício de muitos. Cada qual que veja uma iniciativa ainda que esta seja individual, pode pleitear não só a colaboração como a de propor que ele também se beneficie dos resultados. Empreender, visto desse modo, não é uma iniciativa privada, mas colaborativa, compartilhada, em união e não em sociedade de capital. Não se divide os lucros, mas se compartilha os resultados.
No modelo vertical muitos trabalham para o maior benefício de poucos e para a subsistência de outros tantos. No modelo horizontal todos trabalham para o benefício de muitos. Os benefícios não são aritméticos, mas exponenciais. A matemática aqui é outra e a postura também. Talvez não seja o caso de se aliar a uma iniciativa por cinco ou dez anos, mas adquirir um espírito livre, permeável a novas ideias, novas perspectivas, novas concepções que podem mudar de tempos em tempos. Empreender agora é conjugado com outros verbos como: conseguir mobilizar valores, pessoas, objetivos, iniciativas. É agregar, é expandir, é somar e não adquirir, reter, absorver, dominar e comprar. Não pensamos mais em comprar e vender, mas em contribuir e usufruir. Se colabora não pensando no que se terá em troca, mas porque a iniciativa é de valor.
No modelo vertical você contratava e pagava, no modelo horizontal você precisa conquistar e encantar. No vertical você estava disposto a fazer coisas que não gostava se isso lhe rendesse um bom dinheiro. Agora você pode colaborar fazendo o que você faz melhor, no tempo que achar melhor. Num se fala em “eu”, noutro em “nós”. Trabalho temos muito o que precisamos agora é aprender a nos organizar em rede, em teia, de modo horizontal em iniciativas nossas ou de outros.  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Filosofia como ferramenta profissional

Filosofia como ferramenta profissional

(Por Jadir Mauro Galvão) 

Introdução

Nossa intenção aqui é demonstrar que nossa atual maneira de pensar o mundo das empresas foi fruto de uma escolha que á sua época foi bastante sensata, mas que acabou por abandonar outras tantas e ricas formas de pensar. Mais do que isso, compreender que nosso atual estilo de pensamento não responde adequadamente às demandas de nossa época. Será preciso lançar mão das ferramentas da filosofia, no intuito de reorganizar nossa compreensão sobre nosso tempo. As ferramentas que a filosofia proporciona servirão como trunfos no atual jogo corporativo, mas mais do que nos permitir um bom posicionamento no jogo atual, nos possibilitará ditar novas regras para o mesmo jogo. Regras mais sensatas do que as atuais, mais honestas e, sobretudo, mais humanas. Para tanto precisaremos percorrer por algumas dessas tantas correntes de pensamento, verificar quais foram as condições que influenciaram nossas escolhas, bem como apontar quais foram nossas renúncias e que preço elas tiveram em nossas vidas. 


1.      Origem histórica


Empresas, como conhecemos nos dias de hoje, só começaram a se formar depois de uma transformação em nossa organização social ocorrida por conta da revolução industrial, concomitante com a revolução francesa. Até então a filosofia gozava de certo prestigio e circulava livremente pelas rodas da alta sociedade. Ainda que não houvesse unidade de pensamento, todas as correntes filosóficas partilhavam a importância da reflexão profunda. Digladiavam-se entre sí no embate de pensamentos os Idealistas metafísicos, os Empiristas, os Utilitaristas entre tantas correntes filosóficas contemporâneas. O modelo de sociedade vigente na época era monárquico. A sociedade era dividia entre nobreza e plebe. As camadas sociais ainda permitiam divisões como o clero, os homens de armas e os de ofícios. Alguns outros muito poucos giravam ao redor dos castelos e da nobreza exercendo influência sobre esse poder central. Por mais démodé que nos pareça, esse tipo de organização perdurou por mais de mil e quinhentos anos e alcançou horizontes em todos os cantos do mundo.
Essa sociedade monárquica valorizava a arte, a música a religião, o sagrado, a elegância, o comportamento nobre... tinha na metafísica sua filosofia predileta e mesmo que dessa filosofia não se retirasse resultados práticos, só o rebusco das abstrações já conferiam certo prestígio ao seu elaborador e, com isso, posição social. Era um modelo que relegava a população fora dos altos círculos sociais, uma condição bastante miserável. Sem estudos, sem dinheiro, sem terras cultiváveis expostos ao frio e a fome. Podia-se morrer de fome com a cabeça recostada em um saco de farinha, pois o ofício da panificação era restrito a classe dos padeiros ou, as rodas dos palácios. Podia-se morrer de frio ao lado de uma ovelha pelo puro desconhecimento dos ofícios da tosquia, do curtume e da fiação.
A mudança no modelo de organização social sofreu profunda influência dos pensadores Iluministas que viam na ciência, nos ofícios e nas atividades práticas muito mais interesse, sobretudo social, do que uma metafísica que discutia sobre o Eu, sobre o Absoluto, sobre a Vontade ou outra abstração qualquer. Entre os que mais prosperaram com o novo modelo o Reino Unido era sede do pensamento filosófico Utilitarista na figura de Jeremy Bentham. Bebiam da filosofia utilitarista os mais brilhantes economistas que deram o tom e o brilho de uma sociedade que visava a produção do excedente, a expansão de fronteiras, o lucro e a prosperidade. Criaram-se escolas de ofícios que proviam os profissionais para trabalhar nas fábricas e mesmo em escritórios que controlavam a produção, seu escoamento, bem como a aferição de lucros e a destinação de investimentos.
Esse novo modo de olhar para a sociedade e para o sistema de produção de riquezas acabou por produzir resultados materiais expressivos. A produção em escala dos mais diversos bens materiais como vestuários, alimentos, e toda a sorte de utensílios, bem como o emprego remunerado que podia gerar a renda necessária para aquisição desses bens, organizou a sociedade de outro modo e deslocou o centro que antes era ocupado pelo castelo agora para as fábricas.
A grande expansão econômica acabou por coroar também um modelo de pensamento. O importante agora é o que é útil, prático, as ciências que permitem o desenvolvimento de novos materiais, novas tecnologias, novas energias e todo o mais que possa prover produtos, vendas, renda e, sobretudo, lucro para uma nova classe emergente de pessoas que não nasceram nobres. A nobreza ainda era valorizada, mas somente na medida em que trabalhava e produzia ou gerenciava uma organização produtiva. O trabalho começa a ter mais importância que um título de Conde, Duque ou Barão. Mesmo os antigos nobres experimentam uma abastança da qual jamais haviam imaginado. Incluir socialmente tornou-se bastante lucrativo. Empregados livres oneravam a cadeia produtiva menos do que escravos.
O modelo de pensamento prático, utilitarista e de ofícios era mais produtivo do que todos os outros somados. Fica então acordado que este é “melhor modo de pensar”. O mais produtivo, mais lucrativo, que produz mais riqueza e, com isso, felicidade. Ficam então proscritos outros modelos de pensamento. Agora temos os pensamentos úteis e todos os outros se mudam agora em sua antítese: inúteis. Para esse lado se mudam de supetão a metafísica, a arte (não lucrativa), o sagrado, o pensamento reflexivo profundo... Mesmo a busca pela verdade fica suprimida. Antes de se perder tempo tão precioso na busca pela verdade pensemos primeiro em sua utilidade. Mesmo que algo não seja realmente verdadeiro, se se mostra útil, ainda que durante certo tempo, acaba sendo preferível. O ócio até então bastante cultuado se estabelece como sinônimo de preguiça e fraqueza. Consolida-se então a sociedade da cultura do “Tempo é dinheiro”.
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2.      Carta de valores corporativos

Sem que houvesse necessidade de uma promulgação oficial, tão pouco de um documento escrito, estabelece-se um extenso conjunto de valores, crenças, práticas de conduta aceitos, cultuados e valorizados num mundo remodelado e reestilizado. Empenho, dedicação e esforço; eficácia, eficiência e produtividade; comprometimento, confiança e profissionalismo. Fidelidade para com empresa. Negligenciar o sigilo era o mesmo que traição e sua punição era pior do que a excomunhão: demissão por justa causa.
O trabalho não é para prover a vida dos recursos que ela necessita, mas, ao contrário, é a vida que provê os recursos que a empresa necessita. O desempregado é somente um ser com uma semivida. Inútil, ineficaz, inepto. Sua vida é sem valor. Oferecer um emprego era misericordioso. Ato divino de uma religião onde o olimpo era nobremente mobiliado e os deuses eram os diretores, presidentes, superintendentes onde eram tomadas as decisões sobre os rumos da humanidade.
Um bom emprego conferia prestígio social e recobria de responsabilidade o seu ocupante. Esse critério também promove uma suprema inversão de valores: não são as empresas que servem a sociedade, mas a sociedade é que serve às empresas. Visto desse ângulo é possível observar e compreender a conduta de inúmeros dos nossos gestores. Se precisar escolher entre manter o trabalho de uma centena de trabalhadores, seu meio de sobrevivência e sua dignidade e conseguir um aumento de produtividade automatizando ou robotizando uma operação, já sabemos qual será sua escolha. Se tiver de optar entre manter ou não um trabalhador menos produtivo, ainda que a equipe renda mais com sua presença e tenha uma melhor qualidade de vida no trabalho, já sabemos qual opção será mais bem vista. O paradigma do lucro e da produtividade constrói um conjunto de “verdades” que só fazem sentido se observados a partir de seu próprio critério. Uma doença que afasta um profissional de suas atividades produtivas é temporariamente tolerada, contudo se ela derrubar os índices de produtividade por tempo maior será preciso demitir o mesmo até para que “ele possa cuidar de sua saúde em tempo integral“.
Cada empresa nutre maior apreço por um conjunto seleto de valores em detrimento de outros e essa escolha edifica um conjunto de condutas aceitas tanto quanto outras malvistas. São estes os critérios que definem quem irá progredir ou não dentro dessa organização. Colidir ou confrontar essas condutas é confrontar os valores escolhidos e, com isso, afrontar o critério particular de verdade. O termo Verdade aqui é tomado apenas em sentido didático. Verdade não pode ser nunca particular, mas esse critério é pouco útil para as empresas que mudam seus gestores. É preferível uma verdade mais plástica que se adapte ao gestor, ao momento econômico da empresa. Revoltar-se contra essa máxima é improdutivo.
É claro que esse movimento no sentido inverso da verdade retira grande parte do sentido original de uma empresa: sua razão social. Muitos trabalhadores percebem esse critério de verdade particular e acabam por justificar seu próprio critério de verdades e trabalha orientado neles, mas somente se o confronto das suas verdades não ultrapasse os limites das verdades da empresa. Surge aqui uma hipocrisia bastante generalizada onde são confrontadas as verdades de cada um ou de pequenos grupos. Surgem as panelinhas, os conflitos e cada qual calcado em “sua” própria verdade acaba por se justificar. Cada grupo, por assim dizer, remando para o seu lado o mais distante do lado do outro. Nesse ponto cabe ao gestor o pulso firme de fazer com que todos orientem seus esforços no sentido contrário de suas próprias verdades para alinhá-los na direção das verdades da empresa, provocando assim insatisfação generalizada.
Se esse tipo de conduta reconduzisse a todos na direção de uma verdade realmente verdadeira, penso que todos se beneficiariam, mas nesse caso todos acabam por se prejudicar, inclusive as organizações. Essa é uma das dificuldades de que padecem a maioria das empresas. Esse tipo de conduta produz uma competitividade corrosiva. A ideia de competitividade original que era a de selecionar os melhores profissionais acaba por ser fomentada dentro do ambiente de trabalho entre os melhores, que acabam por não dar de si o seu melhor por não ver o menor sentido nisso. É nesse ponto que a filosofia pode e deve entrar com seu papel de reflexão conciliadora.
    

3.      O resgate da filosofia

Algumas das ocupações mais tradicionais da filosofia é buscar o sentido das coisas. Não uma significação particular subjetiva, mas um sentido próprio e genuinamente verdadeiro que por si só se impõe como valor e arrasta as diversas condutas para a mesma direção por força de sua própria autoridade de verdadeira. Por outro lado, uma das coisas que mais reduz o desempenho profissional é justamente a falta de sentido experimentada por quem executa a atividade profissional mecanicamente.
Experimentamos toda sorte de conflitos que geram estresse, desmotivação e falta de engajamento. As empresas pretendem excelência profissional com o menor custo possível. Querem profissionais criativos, mas que sigam os processos previamente estabelecidos. Querem que seus faturamentos aumentem sem ferir a sustentabilidade. Querem obter mais lucro, mas com o menor esforço.
Essas inconsistências podem não revelar suas contradições internas se olhadas pelo paradigma utilitarista, mas uma reflexão mais profunda facilmente revelará a completa falta de sentido dessas e de inúmeras outras práticas do mundo corporativo e que hoje são bastante insuspeitas. Mas a reflexão profunda ficou proscrita junto com a metafísica, a arte e o sagrado. Será preciso oferecer um indulto para que ela possa resgatar seu próprio valor. O próprio estilo de pensamento utilitarista não conseguirá sozinho resgatar a ideia de verdade, tampouco observar suas próprias inconsistências internas. A utilidade tem características próprias e usos próprios que foram bastante uteis em determinada época e em determinadas circunstâncias, mas é incapaz de oferecer respostas adequadas para coisas que ultrapassam sua competência. É preciso resgatar do calabouço não somente a filosofia, mas uma porção de outras maneiras de pensar que vão muito além do pensamento utilitarista. Não será preciso deixar de pensar de modo utilitário, mas apenas utilizá-lo para aquilo a que ele se presta melhor. Para todo o restante podemos ter um conjunto de outros modos de pensar, mas ricos e elegantes.




REFERENCIAS

BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1842

GALVÃO, Jadir Mauro. Filosofia nas empresas. São Paulo: Paulus, 2014

ROBINSON, Joan. Liberdade e necessidade. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Coleção Os Pensadores)




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

Sobre emprego e trabalho. Uma nova fase na economia

(Por Jadir Mauro Galvão)

Nasci e cresci dentro de um cenário de emprego. Quase tudo girava ao redor dessa ideia. Dentro de uma família que trabalhava empregado em grandes empresas. As pessoas organizavam suas vidas dentro dessa realidade que por arrastar um grande contingente soava como realidade última e natural, assim como respirar ar. Dormia-se cedo, pois o emprego cobrava. Estudava-se para se ter melhor sorte no emprego. Se, por obra da sorte ou do acaso, ocupássemos uma vaga na área de contabilidade, de compras, de vendas ou outra qualquer de uma grande empresa, o mais “natural” era dedicar seus estudos a essa área, pois isso iria potencializar suas oportunidades. Perder o emprego era contingência e a busca por outro o caminho a ser seguido.

Nem todos conseguiam ocupar vagas em grandes empresas, mas essa possibilidade era sonho majoritário. Um cargo de liderança em uma grande organização era sinal de prestigio, bom salário, competência e mesmo a garantia de certa estabilidade financeira. Faculdades guiavam seus esforços no intuito de prover o conhecimento necessário para que seus formandos tivessem a capacidade de ocupar boas vagas dentro desse mercado. Algumas empresas mesmo usavam a formação em determinadas instituições de ensino como critério ou requisito de seleção.

As ofertas de emprego eram exigentes, mas fartas. Havia certa sazonalidade das profissões, mas um mercado aquecido também aquecia a oferta, tanto quanto a concorrência. Tudo isso era alavancado por um crescimento econômico sem precedentes e que oferecia um razoável mercado para profissionais de diversos tipos e múltiplas competências. Em geral não se consultava previamente as qualidades dos postulantes a profissional. Era a necessidade do mercado de trabalho que regia a lei de oferta e procura de empregos, bem como a direção de seus esforços da educação e das pessoas. Se o mercado tivesse necessidade de engenheiros, jovens de todos os lados de acotovelando para conseguir formação na área com maior carência. Se por outro lado o mercado precisasse de economistas, seus profissionais eram mais bem remunerados e dai em diante. As regras eram ditadas pela empregabilidade, estabilidade profissional, remuneração, etc. Se não eram profissões altamente técnicas, ainda havia bastante espaço para as posições dentro da burocracia administrativa. Um formado contador poderia ocupar vagas em contas a pagar, a receber, contabilidade, finanças, custos e outros mais.

Este cenário perdurou por várias décadas e muitos, como eu mesmo, viram nessa dinâmica algo de real e verdadeiro que duraria por todo o sempre. A mecânica de funcionamento da sociedade contemporânea. Qualquer que fosse o regime político a interferência no processo seria maior ou menor, mas, de qualquer modo, incapaz de modificar significativamente o quadro. Algumas épocas de recessão, de crise econômica ou até mudanças na economia arrastavam as vagas da indústria para o comércio, depois para os serviços, bancos, financeiras. Surgiram com vigor os cartões de crédito, as seguradoras e os negócios que giravam para o e pelo dinheiro acabaram por arrastar elevados contingentes de profissionais para suas fileiras. As crises faziam minguar as vagas, mas tempos depois elas reapreciam, redimensionadas, reconfiguradas, pagando um pouco menos, mas perduravam.

Mas algumas das regras desse jogo já prenunciavam seu destino. Redução de custo, redução da folha de pagamento, fusões, mercado globalizado, computação, robotização, otimização de processos, adoção de boas práticas, automação comercial, sistemas de gestão, sistemas gerenciais... Tudo isso fazia o barco remar na direção da parte mais rasa do rio até então caudaloso de oportunidades profissionais. Todo o ganho de excelência administrativa, todo o crescimento econômico alcançado, não teriam como desembocar, senão no cenário atual de crise de emprego. A curva de crescimento que teve seu pico nos anos 70, 80 e 90 tomou outra direção e começou a entrar em franco declínio.

Não se trata de uma crise momentânea para depois se reaquecer, mas de se estabilizar num patamar mais condizente. No fundo, o bum do crescimento econômico produziu uma quantidade de empregos que não poderia se sustentar sem que isso produzisse efeitos danosos a todos. A produção da indústria se estabilizou, o comércio acompanhou e também reduziu. Cresceram os serviços, mas a ponto de também não conseguirem absorver todo o contingente migratório da indústria e do comércio.

No fundo o cenário de abundância de empregos cresceu como uma bolha e, como tal, cedo ou tarde explodiria ou murcharia. A farta oferta de empregos ao longo de décadas funcionou como um grande torrão de açúcar próximo a um formigueiro. Mas, o fato de o cenário perdurar por décadas nos fez acreditar que seria uma maneira perene de ser e de existir. Não havia necessidade de outro tipo de economia, de outros tipos de trabalho, nem de organização profissional. O emprego supria a necessidade da maioria. Arrastava potenciais atores para o perfil de vendas, músicos para funções burocráticas, agricultores para as fábricas, pensadores para o ramo da computação. Era mais fácil aproveitar as oportunidades e as razoáveis remunerações do que arriscar tentar ganhar a vida com a arte, com a música ou com a filosofia.   

Hoje o mundo experimenta uma grande crise de emprego. Não que não exista trabalho, o que minguou foi o emprego. Aquele trabalho focado na iniciativa privada, com fins lucrativos. Trabalho privatizado, pago por quem tem uma empresa e precisa crescer, aprimorar e atingir novos mercados. As grandes empresas cresceram, alcançaram novos mercados. Se estabilizaram em seu mercado consumidor. Já estabeleceram suas posições, compraram seus concorrentes que ofereciam maior risco. Atingiram certo grau de excelência administrativa que não requer mais tanta mão de obra. E da mão de obra necessária nem é necessária grande competência. Os processos se incumbem de mitigar os riscos de inexperientes. Os movimentos de crescimento que ocorriam aqui, lá e acolá por onde se olhasse agora funcionam como esperança dos que não perceberam a mudança de cenário, tanto quanto refutação para nosso argumento. Nos pequenos focos de crescimento se aglutinam grandes porções de desempregados reivindicando valores cada vez menores e se dando por contente com uma oportunidade de emprego por tempo determinado, mesmo que terceirizado ou quarterizado.

O emprego continuará existindo, mas demandando cada vez menos profissionais e a população precisará encontrar outros meios de subsistir. Hoje ainda temos esse enorme contingente de desempregados procurando desesperadamente e em vão pelas antigas vagas de trabalho.

O cenário mudou, definitivamente mudou. Não é uma crise ou acomodação momentânea. O cenário mudou, mas ainda não se reconfigurou. Veremos ainda muitas crises na educação, pois as faculdades ainda estão formando profissionais para integrar esse mercado ora extinto. Nos serviços, pois os restaurantes e lojas que funcionavam próximos aos escritórios terão de se ver com o Home Office, com o desemprego etc.

Longe da tutela de um grande emprego em uma grande empresa os profissionais precisarão buscar alternativas para seu ganha pão. Em resposta a tudo isso vem ganhando força algumas ideias que nem são assim tão novas, mas que surgem como válvula de escape. Economia colaborativa, associativismo, cooperativismo, organizações do terceiro setor. Economia de bens intangíveis onde se pode produzir sem agredir o meio ambiente. Novos conceitos como uso substituindo a propriedade. Compartilhamento de serviços de espaços. Não nos basta “procurar” por oportunidade, precisaremos criá-las. Todo o cenário descrito anteriormente também nos estimulou a um individualismo que desembocou num certo grau de egoísmo, e essa característica não é muito bem-vinda se pensarmos em ideias associativistas. A população civil terá de se rearranjar, de se reagrupar, de criar cenários econômicos para além de produzir e vender. É uma reconfiguração profunda nas ideias de empreender, de trabalhar, de consumir, de ter, ganhar, comprar. Precisaremos visitar outras páginas no dicionário para compreender o significado de contribuir, cooperar, usufruir, utilizar, disponibilizar e inúmeros outros verbetes que há tempos não visitávamos.

A maioria das faculdades, sobretudo as grandes redes de ensino superior, não são mais empresas de educação, mas sim empresas comerciais. Talvez tenhamos de remodelar a ideia de escola. Diferente do modelo de empresa privada com fins lucrativos, para um modelo cooperativo. Talvez não apenas formando um técnico apto para uma vaga de emprego técnico ou burocrático, mas oferecer um real ensino superior.

Será melhor, como tenho recomendado ao longo dos anos, primeiro verificar os talentos, os dons internos das pessoas para depois ver como coloca-los a serviço não do emprego, nem da indústria ou de bancos, mas sim da sociedade em geral, da coletividade.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Filosofia nas empresas - 2016 07 19 Jadir Mauro Galvão e Ricardo Votolini

Tema do debate: Sustentabilidade

Programa de rádio Filosofia nas empresas - exibido em 19 07 2016 pela rádio http://teiadobem.com


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Filosofia nas empresas - 2016 07 05 Jadir Mauro Galvão e Fabio Zanin

Tema do debate: Emprego e trabalho

Programa de rádio Filosofia nas empresas - exibido em 05 07 2016 pela rádio http://teiadobem.com/




terça-feira, 5 de julho de 2016

Eu não quero me aposentar

(Por Jadir Mauro Galvão)

Em geral as pessoas buscam estudar aquela coisa mais atraente possível, desde que tenha empregabilidade, desde que tenha facilidade em ganhar seu sustento. Raros são os casos onde a escolha da profissão preconiza o sonho, o talento, a vocação. Desse expediente nasce o horror ás segundas feiras, a afeição desmedida ás férias, á sexta a noite.  Não se quer trabalhar com o que se trabalha, mas fazer oque? Foi o que a vida nos ofereceu! A busca pelo atalho nos coloca numa jornada árida e indesejável.

Mas não devemos imputar a responsabilidade somente no trabalhador. O “mercado” valoriza algumas atividades mais do que outras. Remunera melhor, é socialmente mais prestigiado. Imagine você se apresentando á família de sua futura esposa como ourives! Penso que este ainda seja um oficio bastante bem remunerado, mas médico ou advogado te conferem a outorga de “Doutor”. Assim conheci médicos que queriam ser músicos, analistas de sistema que queriam ser engenheiros, professores que seriam ótimos atores, mas...

Mas a escolha profissional não pode se transformar em cárcere, em destino. Eu comecei minha carreira profissional (depois de ser office boy!), como Programador de computadores, passei a analista de sistemas e, diga-se de passagem, adorava o que fazia. Contudo, mais adiante na carreira resolvi ser profissional de PNL, professor universitário de filosofia, escritor, e ultimamente venho me arvorando a conduzir um programa de rádio chamado Filosofia nas empresas, debatendo as coisas do mundo corporativo com gestores, empresários, doutores etc.

Nessas coisas novas ainda não obtive remuneração á altura dos tempos de vagas gordas do mundo corporativo em sistemas, mas faço o que faço com imenso prazer e deixo um legado de muito mais valor do que um programa bem feito ou um sistema bem elaborado. Em breve completo, nada menos do que quarenta anos de trabalho e nem penso em me aposentar. Ao contrário, faço planejamentos para os próximos quarenta anos.

Eu não quero me aposentar. Quero continuar trabalhando em coisas que me deem profunda satisfação. Que agreguem valor á vida das pessoas, mas também não quero trabalhar doze ou catorze horas por dia, tampouco todos os dias da semana. Tampouco tantos meses do ano. Trabalho precisa ser divertido, precisa gerar aprendizado para a vida, relacionamentos duradouros e verdadeiros. Precisa agregar valor para nossa vida e não somente dinheiro para o dono da empresa.


Aposto que não sou o único a pensar assim. Creio até que o problema da aposentadoria seria minimizado se as pessoas, após terem se sacrificado por tantos anos fazendo o que não gostam, pudessem efetuar novas escolhas. Algo de que pudessem se realizar pessoalmente, ou no mínimo receber uma remuneração realmente apropriada. Trabalhar com algo de valor e serem valorizadas por isso.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

terça-feira, 28 de junho de 2016

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Filosofia nas empresas - 2016 06 14 Jadir Mauro Galvão e Ines Cozzo


Tema do debate: Neurociência nas organizações

Programa de rádio Filosofia nas empresas - exibido em 14 06 2016 pela rádio http://teiadobem.com/






quarta-feira, 8 de junho de 2016

Filosofia nas empresas - 2016 06 07 Jadir Mauro Galvão e Oldack Jaude


Tema do debate: Espiritualidade nas organizações

Programa de rádio Filosofia nas empresas - exibido em 07 06 2016 pela rádio http://teiadobem.com/

Oldack Jaude






sexta-feira, 3 de junho de 2016

quinta-feira, 2 de junho de 2016

terça-feira, 31 de maio de 2016

Semiaposentadoria

(Por Jadir Mauro Galvão)

Estamos as voltas com problemas da previdência e gostaria de me permitir algumas reflexões acerca desse assunto que parece não ter consenso entre todos os envolvidos. Postulantes a aposentadoria, contribuintes, governo não querem abrir mão cada qual de seus interesses provocando um impasse aparentemente insolúvel. Aqui o embate ideológico ou por interesses excludentes parecem oferecer oposição sistemática que produz um imbróglio bastante grande.

Vamos a uma primeira análise que me permito que seja simples. Tão simples que especialistas em previdência me tomariam por um mero ignorante, mas mesmo correndo esse risco acho o argumento pertinente. Veja só: caso um trabalhador atue durante trinta anos e contribua, digamos que, com dez por cento de sua remuneração bruta ao longo de todos esse tempo. Mais do que isso, digamos que ele sempre ganhou bastante bem ao longo do tempo e pense em se aposentar sem prejuízo de sua remuneração mensal ordinária. Grosso modo, descontando qualquer tipo de inflação e até de correção dos valores que contribuiu, façamos a seguinte pergunta: durante quanto tempo esse indivíduo conseguiria viver de suas próprias reservas? Resposta simples: dez por cento do tempo de contribuição. Se trabalhou, como dissemos, durante trinta anos, suas reservas se esgotariam ao cabo de três anos. A partir de então ele já não teria mais reservas financeiras feitas por geração própria.  

Claro, a previdência não funciona assim, mas diante do exposto podemos ver que o cálculo não fecha e que precisamos de outras mecânicas para garantir uma vida minimamente digna depois de tantos anos de trabalho. Contudo, precisamos saber que, de partida, alguém precisará complementar a nossa aposentadoria de algum modo. Algum artifício deve ser feito. Sabemos que os trabalhadores ativos produzem um montante de contribuição que supre (ou deveria suprir) os inativos, isto é, os aposentados. Com a população envelhecendo e o desemprego em alta a conta começa a ficar crítica e assim ouvimos com preocupação a palavra déficit, reiteradas vezes nos noticiários.

Os trabalhadores defendem o que acreditam ser seu direito adquirido. Mais do que isso, a maioria da população não tem o trabalho dos seus sonhos. Não realiza atividades profissionais que lhe gerem prazer cotidiano. Nesse cenário, aposentadoria soa mais como uma carta de alforria de uma neo-escravatura. Fala-se em aumentar o tempo de contribuição e obrigar que os trabalhadores se aposentem apenas aos sessenta anos de idade ou mais. Falando em escravatura, essa parece mais uma lei dos Sexagenários, que tornava os escravos livres a partir dessa idade. Tal lei na época da escravidão beneficiou a bem poucos. Primeiro, pelo fato de que poucos eram os escravos que conseguiam chegar a tal idade. Segundo que, uma vez livre, o escravo ainda teria sob seus ombros a responsabilidade de se auto sustentar pelo restante de seus dias. Livre, sim, mas a que preço? No caso da aposentadoria é a mesma coisa. Que qualidade de vida se poderia proporcionar a alguém que viveu a maior parte de sua vida indo de um subemprego ao outro sem conseguir aquinhoar condições mínimas para usufruir o tanto de vida que lhe resta após sua alforria (ops!) aposentadoria?

Claro, precisamos considerar que as tábuas atuariais dão conta de que o tempo de vida médio da população aumentou consideravelmente nos últimos anos e que tende a crescer ainda mais. A expectativa de vida que beirava os cinquenta ou pouco mais que isso, já passa dos setenta e falar-se de oitenta, noventa ou até mais de cem já não soa tão estranho. Com isso, a proporção de trabalhadores ativos versus aposentados colocará um grifo em vermelho perene nas contas previdenciárias.

Por outro lado, uma vez que as aposentadorias, em geral, somam valores bastante pífios, não raro vê-se aposentados voltando clandestinamente a ativa, na intenção de suprir o restante do orçamento. Mas não creio que o orçamento seja a única justificativa. Sim, é interessante continuarmos na ativa com mais de cinquenta ou sessenta. O problema é que esse retorno mais parece aquele do escravo livre que prefere continuar a servir seu feitor por falta de alternativas. Em geral, quando fazemos o que gostamos não desejamos parar de trabalhar, mas creio que a partir de certa idade reduzir a carga de trabalho diária ou semanal pode ser visto com bons olhos. E são em torno dessas perspectivas que nascem minhas sugestões para contornar o déficit previdenciário.

E se dos próximos aposentados se permitissem uma aposentadoria parcial? O gajo poderia escolher uma aposentadoria de cerca de cinquenta por cento, mas podendo continuar a trabalhar o restante do tempo? Mais do que isso, e se se investisse e se incentivasse uma nova formação profissional não mais ao critério do mercado, mas pelo estrito prazer do semiaposentado? Com a adesão livre das pessoas por tal modelo a previdência reduziria em metade o valor pago para os novos aposentados. Investiria uma pequena parcela na formação e num trabalho que proporcionasse prazer, satisfação e realização e o empregador poderia ter uma nova classe de empregados em tempo parcial trabalhando com prazer e não mais por obrigação.

Não haveria a obrigatoriedade de se trabalhar oito horas por dia ou mesmo os cinco dias da semana e, com isso, sobraria tempo para que o mesmo pudesse usufruir o restante de seu tempo em outro tipo de atividade. Viagens ou um hobby qualquer.  

Trago essa ideia de um ocorrido em minha carreira. Atuava em uma empresa de prestação de serviços que passava por dificuldades pois seu principal contratante havia solicitado um tempo para se organizar melhor e refreou os contratos deixando a empresa á míngua durante um bom espaço de tempo. A empresa, na melhor das boas intenções reteve seus principais quadros na ideia de preservar o conhecimento e o capital humano, mas chegou o momento em que houve a necessidade de cortar alguns funcionários.   Eu e alguns amigos entramos nesse corte, mas diante da alegação da empresa fizemos uma contraproposta de reduzir nossos contratos para cem, ao invés de cento e sessenta horas mensais de trabalho e remuneração. Com isso poderíamos nos unir e tentar tocar outros projetos em paralelo que poderiam nos proporcionar outras rendas ou mesmo ter mais tempo com a família. A proposta foi bastante bem aceita, mas seria ótima se fosse alguns meses antes. Naquele momento as finanças já não permitiam tal manobra. Os empregadores disseram que cogitaram tal proposta, mas acreditaram que ela não seria aceita por nos e ficaram surpresos quando da nossa proposta.


Postergar a aposentadoria e prolongar o tempo de atividade profissional nos mesmos moldes de subempregos atuais certamente não seria uma proposta aceita de bom grado, mas certamente ainda nos resta muita lenha para queimar após os cinquenta anos. A proposta é a de oferecer aquilo que ainda não conseguimos. Dignidade, humanidade em atividade profissional prazerosa. Para a previdência haveria uma redução de cerca de metade dos gastos para quem aderir a proposta. Junto com outras tantas propostas podemos chegar num modelo que possa contemplar o inexorável amadurecimento da população e quem sabe não podemos mais adiante estender essa redução de jornada até para os mais jovens?

terça-feira, 12 de abril de 2016

Diálogo

(Por Jadir Mauro Galvão)

Diálogo
Se nos perguntassem: você sabe prestar atenção, ou você sabe fazer perguntas, ou você sabe dialogar? Muito possivelmente a maioria de nós responderia afirmativamente. Contudo, acredito que no fundo respondemos sem pensar. Percebo mesmo que no fundo não sabemos falar, não sabemos respirar, não sabemos andar. Claro, andamos, respiramos, falamos, fazemos perguntas... mas não fazemos isso nem com elegância, nem com maestria. Alguém de yoga poderia nos ensinar a respirar. No teatro se aprende a falar, entonar a voz, pronunciar as palavras. Só depois que fiz minhas formações em PNL entendi que antes eu não sabia prestar atenção, tampouco sabia fazer perguntas.

Mas disso tudo que falei o pior de todos é o diálogo. A maior parte das pessoas conversa, debate, discute, troca informações, interage, dá ordens, mas raros são os que dialogam.  O que mais se vê por ai são coisas que se descrevermos vai parecer conversa de maluco. Vejamos numa festa qualquer onde se encontram pessoas que não tem essa oportunidade no seu dia a dia. Entramos em uma conversa, falamos sobre uma doença qualquer que um membro da família foi acometido, buscando, com isso, compartilhar nossa dor com o outro, mas ao invés do outro se condoer com nossa história ele apenas aguarda a oportunidade de contar a sua própria dor, em um caso com certa similaridade. Não que ele esteja realmente passando pela mesma dor e também queira compartilhar, mas o caso do conhecido o fez recordar de uma experiência dele mesmo e essa experiência assumiu maior importância em sua consciência do que a dor do amigo. Em geral até se para de prestar a devida atenção ao que o outro está falando, ficando apenas no aguardo de que o ele pare de tagarelar para que possamos contar a nossa experiência. Quando não se interrompe o interlocutor deselegantemente.

Ou num caso mais corriqueiro, mas nem um pouco menos maluco. Um começa por contar seus feitos na última pescaria, o outro vem na sequência e conta todos os motivos que o fazem não comer peixe, pois já se engasgou gravemente com uma espinha, um terceiro que conta como sua filha também engasgou com uma bala, um outro que, aproveitando o ensejo, pergunta se alguém tem uma bala pois está desde cedo com um amargo na boca, um outro mais que diz estar sofrendo com uma gastrite nervosa pelo estresse no trabalho que também deixa sua boca amarga e mais um que diz que anda trabalhando demais e não tem tempo para férias e por ai vai até que um puxa uma piada de português que faz todos caírem na risada. Após isso pode-se esperar que outra piada venha ou se suceda um breve silencio até eu outro assunto reinicie a conversa fiada. Em qualquer dos casos não houve diálogo efetivo. Cada qual colocou na roda o que era apenas seu e tomo de volta apenas o que era seu. Não houve troca, nem aprendizado, nem crescimento. Não colocamos em dúvida nossas convicções, não fomos obrigados buscar nas profundezas de nosso ser algo que pudesse revolver nossas crenças, nem nossos valores. Ficamos na superfície. Não corremos riscos, apostamos no conhecido e permanecemos nele.

Em uma discussão política inicia-se um debate onde cada uma das polaridades ideológicas busca defender suas posições. Contudo, o debate se transforma em embate, luta, disputa e isso pressupõe vencedor e vencido. Quando muito um empate técnico. Cada qual, postado soberanamente sobre suas próprias crenças irracionais, faz uso de todo seu poder de raciocínio lógico associando fatos com significações deliberadamente atribuídas ou intenções apenas supostas na busca por argumentos racionais que ratifiquem suas posições irracionalmente conquistadas.

Discussões entre pais e filhos ou mesmo entre marido e mulher invariavelmente prescindem do diálogo em prol de outros propósitos. Se de uma parte a discussão visa educar, do outro a intenção é de autoafirmação. De um lado pode-se expor razões pelas quais se quer fazer algo e justificar, do outro é não querer se anular ou ser deixado para trás. Interrupções sucessivas, pressuposições sobre as intenções do outro. Tudo isso produz um clima improdutivo de conflito onde o diálogo fica esquecido na bandeira de escanteio.

Mas se tudo isso não é diálogo o que é então? Não sou expert em etimologia, mas diálogo parece pressupor uma troca efetuada por dois Lógos. Duas almas, duas consciências, dois seres humanos dotados de razão, mas também de emoções, medos, anseios... O diálogo era tido por Platão (ou Sócrates) como o meio, por excelência, de dirimir as imperfeições das opiniões (doxa). Para eles, as opiniões seriam verdades impuras. Não erros, não mentiras, não verdades pessoais, mas apenas verdades encobertas por uma nuvem de engano. Através do diálogo e sob o crivo sensato da razão, os argumentos que não se sustentassem deveriam ser encarados como engano e qualquer um que antes admitisse como verdadeiro deveria reconhecer que era falso. Um processo de desconstrução das ilusões interiores em prol de uma nova construção verdadeira (Episteme). Ambos, inclusive acreditavam que o diálogo era mesmo um modo de se expiar máculas da alma. Processo de espiritualização.

Os diálogos platônicos eram por vezes longas exposições de uma só pessoa, mas as interrupções e objeções eram benvindas e mesmo serviam para dirimir ou reforçar as verdades. Afora um ou outro diálogo tido com desafetos de Sócrates, no mais das vezes, todos os participantes dos diálogos saiam engrandecidos. Deixando o engano de lado, mas sendo quase que obrigado a colocar suas próprias convicções sob suspeitas para serem ratificadas do que contestadas e posteriormente retificadas. Diálogo ensejava o crescimento de ambos. Vencedores sem vencidos.

Mas o ambiente para o diálogo precisa ser propício. Não há que se entrar em uma conversa, buscando, convencer, ganhar, defender e se postar cheio de armas e de armaduras, mas sim de alma mansa, de coração aberto a colocar em questão suas mais profundas convicções. Num bom diálogo não se perde nem se ganha, mas se aprende. Deixa o engano para se ganhar em dúvidas ou em novas convicções.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Programa de rádio Filosofia nas empresas

Olá pessoal,
em breve o programa de rádio Filosofia nas empresas estreará em nova temporada e agora de casa nova.
A recém criada rádio teiadobem. Novos debatedores, novos temas para discussão, mas a mesma proposta de colocar em questão os conceitos e as práticas do mundo corporativo e da carreira profissional.

Acompanhe as novidades aqui e acompanhe a programação da rádio. Voce pode ouvir a rádio direto pelo site http://teiadobem.com/ ou por dispositivos móveis através do aplicativo iradios que voce baixa gratuitamente.

Além do programa Filosofia nas empresas, voce curte boa música, informações e prestação de serviços.

abraços e ate a próxima


Jadir