sábado, 24 de novembro de 2012

Entrevista na PhorteTV: Competitividade. Perseguindo ilusões, colecionando decepções

Esse é o link para o video da entrevista que concedi à PhorteTV sobre competitividade.
Para assistí-lo é preciso efetuar um breve cadastramento no site da emissora..
A entrevista ficou bem bacana. Espero que apreciem.


http://www.phortetv.com.br/programacao/127-competitividade-perseguindo-ilusoes-colecionando-decepcoes

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Liderança para um novo milênio!

  Mesmo que timidamente, creio que a onda da reciclagem pegou. Enfrenta alguns problemas é claro. Material reciclado ainda é, em geral, mais caro do que o novo. Alguns produtos feitos com esse material não têm o mesmo acabamento. Alguns materiais são de difícil reciclagem como as embalagens metalizadas de salgadinhos e biscoitos, pois cerca de 30 % é refugo não aproveitável. Alguns materiais são quase que inviáveis economicamente como papeis de bala ou embalagens de bombom por exemplo. Vejo pessoas apanhando latinhas, PET quando o as recicladores conseguem pagar um preço razoável, mas os vidros são de mais difícil manuseio embora completamente recicláveis. Mas, mesmo diante de inúmeras dificuldades ainda penso que a reciclagem pegou.  
Coisa um pouco mais difícil é a reutilização. Estamos assistindo uma tentativa de ressurreição das garrafas de vidro abandonadas recentemente em prol das latinhas e dos PET’s. As garrafas de vidro podem ser reutilizadas inúmeras vezes. Bastando para isso serem higienizadas. O problema é que os hábitos do consumidor ávido por praticidade precisariam retornar aos anos 80, quando ainda se mantinha em casa engradados de garrafas de cerveja e de refrigerante. Precisaríamos inaugurar uma prática de reutilização de garrafas de vinho e de outras bebidas, frascos de perfume, mas seus fabricantes, que poderiam reutilizá-las, estão longe, então o que fazer?
Contudo, creio que o “R” de mais difícil solução seja o de reduzir. Postulo que na medida em que falamos em Desenvolvimento Sustentável, falamos de crescimento econômico sustentável, isto é que se mantenham as condições necessárias na natureza para que possamos continuar explorando seus maravilhosos bens também no futuro. Mas crescimento econômico ocorre com trabalho e crescimento da produção. Então não se está falando em reduzir. Toda empresa capitalista quer e busca um aumento em seu faturamento de um mês para outro ou de um ano para outro. Ora o que é o aumento do faturamento senão um aumento nas vendas e, consequentemente, na produção? O mesmo acontece com os países. Todos buscam o famoso superávit, o crescimento do PIB. Ora o que é o crescimento do PIB senão o aumento das exportações com aumento na produção? Então como se pensar em reduzir? Em todo noticiário ouvimos falar sobre “perspectivas animadoras” de crescimento de um ou de outro país e comparamos com o nosso. Queremos a todo custo uma elevação em nosso PIB. Esperamos, com isso, que existam mais recursos, mais dinheiro, mais riquezas a serem partilhadas pela população elevando a famosa renda per capta.     
Honestamente, não consigo vislumbrar coisa qualquer que se pareça com algo “ambientalmente sustentável” pensando em aumento de produção. Aumento de produção parece implicar em aumento no consumo de energia, aumento da extração de matéria prima virgem ou reciclável, aumento da quantidade de resíduos de produção, aumento no consumo de matérias de acabamento e de embalagem, aumento de poluição, de lixo e de trabalho, quiçá desnecessário.
Contudo reduzir teria um impacto econômico forte em nossa sociedade. Não creio que se possa falar em desabastecimento propriamente dito. Embora existam sazonalidades em alguns produtos, penso que a humanidade atingiu um nível de excelência em sua produção que a dificuldade de consumo em algumas regiões se deve tão somente à logística para se fazer chegar o produto até ela do que por um eventual desabastecimento gerado pela redução da produção. Por outro lado, reduzir a produção implica em redução de faturamento, de horas trabalhadas, de valor pago para o trabalhador e, em última instância, redução do PIB. Raros são os trabalhadores de quaisquer que sejam seus setores produtivos que tenham gordura suficiente para manter seu nível de vida mesmo com uma possível redução de sua remuneração. Isso reduziria, para muitos, sua capacidade de consumo a níveis inferiores ao necessário. Certo que com a diminuição do poder de compra geral os preços também cairiam pela lei de oferta e procura o que talvez recolocasse o mesmo trabalhador no jogo novamente num segundo momento. Que os donos da oferta consigam segurar os preços durante algum tempo, mesmo assim, uma redução no consumo pressionaria para uma queda de preço. Parece que o cenário encerraria uma readequação, mais do que uma recessão. Talvez seja mais um retorno ao normal depois de um anormal crescimento do especulativo ou do descartável.
Considerando a empresa em relação aos seus concorrentes pode parecer num primeiro momento que se trate de uma perda de competitividade. Mas considerando que a medida de redução da produção venha em auxilio da sustentabilidade verdadeiramente falando, menos do que uma perda de competitividade essa medida pode encerrar uma tomada de posição de liderança ambiental. Uma vez que se consolide sua produção em produtos realmente sustentáveis utilizando, ai sim, os três “R’s” da sustentabilidade, a empresa poderá assumir uma liderança para um novo milênio. Tomando de modo sério a iniciativa pela sustentabilidade, a empresa assumirá um papel de liderança, mas agora em um novo paradigma.
Partindo da idéia de redução da produção e, com isso, das horas de trabalho, sem que isso encerre, verdadeiramente, uma redução do poder de compra, o trabalhador pode obter um crescimento, mas de satisfação e qualidade de vida. Não mais se poderá preconizar o crescimento do PIB, mas de outro índice que já existe, mas ainda não ganhou o devido IBOPE: o FIB, ou felicidade interna bruta.  
Reduzir, nesse sentido tem uma relação mais forte com uma mudança de paradigma econômico/ambiental do que um retrocesso a níveis anteriores de consumo. Trata-se de uma evolução de consciência que pode oferecer uma queda de posição na competitividade do jogo destrutivo de uma economia predatória, mas uma dianteira de vanguarda em um novo jogo muito mais nobre, construtivo, evolutivo, numa palavra: mais humano.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Que droga!

Noite calma; pai e mãe já em casa prontos para os eventos imperdíveis: jornal e novela! Já temos enorme prática e não sentimos a menor dificuldade em encontrar a boca com o garfo, portanto o jantar não é problema e não requer atenção especial. Crianças ou adolescentes devem se contentar com atenção oferecida no período dos intervalos. A TV funciona como um anestésico. As aflições comuns, diárias parecem arrefecer ante esse milagroso placebo de projeções multicoloridas. As imagens agem em nossa mente como um ópio que amortece a pressão exercida pelas exigências diárias. Um relaxante mental e muscular ou senão uma droga lícita! Exigências de prazos, compromissos, muitos deles indesejados, cronogramas, tarefas que nos extenuam ao longo do dia a tal ponto que nossos próprios pensamentos são banidos para não onerarem o sistema.
Esse é um cenário tão típico, compartilhado por milhares, senão milhões de pessoas que é fácil reputá-lo como normal. Todavia essa normalidade pode ter um preço alto quando vistos pelo olhar das crianças ou dos adolescentes que podem eventualmente necessitar de um algo mais, coisa do tipo: sentir dentro de si algo que soe como aceitação, reconhecimento, valorização; algo como um sentimento de pertencimento! Interromper figuras que nos são tão caras em seu momento de deleite pode ter como resposta um “calaboca!”; um “perumpouco!”; um “agoranão”.
O preço disso pode vir na forma de um boletim cheio de notas vermelhas, na desobediência nossa de cada dia ou somente num olhar apático de pura frustração por não ter saciada sua sede de pertencimento. No caso do boletim, podemos usar para com nossos filhos o mesmo expediente do qual somos vítimas: a pressão! Afinal de contas a vida deles é mole, só estudam, nada mais justo! Têm todo o tempo do mundo. Não são como nós que não temos tempo para nada! Isso é bom para ele sentir na pele como é estar pressionado! Essa parece ser também uma prática normal! Contudo é também a mesma prática que onera o sistema e ai nossos pequenos vão para a rua e acabam por encontrar o simpático grupo de “perto da escola”. Acabam tendo uma boa recepção, boa acolhida e todos percebem que o pequeno está meio acabrunhado, mas nada que um “deixa pra lá vamos experimentar unzinho!” não possa resolver! Depois de experimentar um ele passa a fazer parte do grupo (pertencimento). Se experimentar dois ele é o “o cara” (reconhecimento), se forem três já vira “meu brother” (valorização). Disso, para ele conhecer o fornecedor da parada é um pequeno passo.
Podemos pensar: “Tudo culpa desses vermes desses traficantes!”. Isso também soa bastante normal! Mas fazendo o exercício de buscar enxergar o panorama pela ótica do traficante o cenário pode ganhar outros contornos. Não tendo nascido em uma casa de bacanas; não podendo estudar em colégio de bacanas, que alternativas capitalistas lícitas restariam para esse individuo? Um sub-emprego com uma remuneração pífia que certamente não lhe renderiam uma vida bacana! O meio é competitivo e para jogar o jogo dentro das regras é preciso ficar ao menos um bom tempo sob o jugo dos bacanas para ter uma remota possibilidade de se tornar um. Mas para jogar “fora” das regras muitos dos bacanas (ou ao menos seus filhos!) ficariam sob o seu jugo. Jogo de poder e força, tanto quanto outros tantos que se vêem em outros círculos sociais.
Da parcela de pecado de todos fica então assim acordado que o bode expiatório é o maldito traficante! Esse maldito tão bendito que expia nossa culpa! Esse ser sem face capaz de receber em seu alforje toda a culpa de uma sociedade que troca os pés pelas mãos e já não pode ou não sabe mais abraçar, conversar ou sorrir. Uma sociedade que fomenta a competição e não a cooperação. Que faz do outro mais um inimigo a ser vencido do que um próximo para estender a mão! Que faz de um filho um empecilho ao nosso tão necessário e merecido descanso!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O fenômeno Microsoft

Nos tantos ano vividos em ambiente corporativo, e muitos desses foram na área de tecnologia da informação (TI), tive oportunidade de ouvir algumas historinhas bastante interessantes. Não posso atestar a veracidade desse causo, mas acho que podemos tirar dele algumas boas conclusões dele.
Os anos 80 marcam, por assim dizer, uma nova era no mundo de TI com a entrada em circulação dos PC’s ou os computadores pessoais. Para rechear essas maquinas maravilhosas várias empresas desenvolviam softwares e sistemas operacionais, aplicativos, bancos de dados e tudo o mais que pudesse trazer algum benefício para o usuário, tanto quanto lucro para seus desenvolvedores. À época eu atuava com computadores de grande porte, os chamados mainframes e não fiquei assim tão próximo de todas essas inovações num primeiro momento. Contudo me lembro de um amigo que desenvolvia soluções, mas não usava as facilidades da Microsoft, mas sim de uma de suas concorrentes a Borland. Ele me dizia que a Borland pretendia construir sistemas tolerantes a falhas humanas. Não eram todos que tinham facilidade de operar um PC então os erros de operação eram tão freqüentes como inusitados. Coisa que qualquer bom analista ou programador teria certa dificuldade em prever. Mas o objetivo era esse, uma corrida sempre no intuito de prever as ações mais absurdas e preparar o sistema para tolerar essas dificuldades.
Isso não era diferente no mundo Microsoft. As pessoas erravam, isto é, não efetuavam a operação que o sistema havia previsto como certa. Contudo, meu amigo me dizia que a estratégia da Microsoft era bem diferente. Uma mensagem bizarra aparecia na tela e assustava o operador e ele teria de detectar seu erro por si mesmo. No pior dos casos, quando o PC travava completamente dado o imprevisto do erro, ainda nos restava desligar e ligar novamente. Assim, magicamente ele voltava a funcionar normalmente. Costuma-se dizer que ao contrário da Borland, a Microsoft criou humanos tolerantes a falhas do sistema.
Não que o modelo de uma seja melhor que o de outra, mas o que restou é que uma delas prosperou e abriu mais portas do que sua concorrente, criando, quem sabe, um precedente perigoso. Será que entre “portas” e “janelas”, outros produtos e serviços também não aderiram à mesma estratégia? Hoje vemos produtos e serviços falhos, de pouca qualidade e mesmo assim seus usuário tolerantes convivem com o desmazelo, quando muito aborrecidos, mas sem nada fazer.
O contingente populacional aumentou e as empresas de ônibus retiraram alguns bancos para poder transportar, em pé, mais pessoas com a mesma quantidade de carros. O celular não funciona e nos empurram outro aparelho. O sanduíche não é nem de longe o mesmo da propaganda, mas pegamos uma fila enorme para comprar. (ok, podemos escolher o brinquedinho para compensar). Os televisores e as geladeiras não duram, mas nos oferecem outro com uma tecnologia melhor (e mais cara!). Os políticos não cumprem o que prometem, as empresas não remuneram a contento e exigem mais certificações, mais especializações, maior empenho e maior desempenho.
Toleramos tudo isso aborrecidos, mas sem nos queixar. Desenvolvemos em alto grau a nossa capacidade de tolerância. Nos adaptamos a viver em condições severas. Contudo, em épocas em que a tecnologia busca criar um intercâmbio mais moderno de informações entre homem e máquina a ponto de aposentar o teclado do tipo máquina de escrever. Criar uma interface cerebral pode ser um tanto quanto arriscado.
Costuma-se dizer que o computador é uma máquina burra. De fato se não dissermos passo a passo o que ele deve fazer ela não fará. Computador não pensa e o teremos de nos adaptar ao seu jeito tosco de funcionar para pensar de modo mais burro e interagir com ele. O receio é que esse modo mais burro de pensar torne-se no futuro nosso único e correto modo de pensar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A sociedade em tempo de capitalismo insustentável.


O tema da sustentabilidade ainda que não tenha conseguido a proeza de compor como peça integrante o emaranhado teórico que faz emergir nossas mais cotidianas ações, amiúde visita alguns de nossos pensamentos. É possível vê-la presente em ações de menor impacto como o descarte adequado de algum resíduo da civilização do consumo. Uma latinha lá, uma caixa ali, uma embalagem acolá, mas e essa embalagem? Difícil definir se jogamos no plástico ou no metal. Bom, alguém deve saber separar adequadamente esse material, então escolhemos uma das duas e jogamos nossa embalagem da batatinha e desoneramos nossa consciência deixando-a tranqüila com mais uma boa ação.
Tanto quanto muitos de nós, o mundo se questiona sobre o tema da sustentabilidade. Inúmeras conferências reunindo dignos representantes de grandes nações pensam em como viabilizar economicamente um mundo sustentável. Eco 92, Rio +20 entre outras tantas serviram para se discutir e avançar na temática sustentável, mas ainda vejo mais confusão do que direção. Ora, quando se pergunta sobre a viabilidade econômica para um mundo sustentável admite-se tacitamente que existe em nossa consciência um privilégio do econômico sobre o ecológico. Pode-se crer a partir dessa pergunta que se não for economicamente viável poderemos então tolerar um planeta insustentável o que seria um absurdo lógico, pois uma economia somente pode ocorrer em um planeta que pode comportar a vida dos seres humanos. A conseqüência disso seria toda a humanidade morrendo, mas com dinheiro no bolso! Uma vez não havendo planeta, - ou melhor, condições de vida humana no planeta, pois ainda que desmatado, ferido, sujo e desfigurado o planeta continuará ai -, economia alguma subsistirá, tampouco o homem!
Quero crer que isso se deve ao fato de que se interpôs o conceito de economia para mediar nossa relação com o planeta – penso que Henri Bergson atestaria essa afirmação caso estivesse ainda conosco. Perdemos uma relação imediata e acreditamos estar sempre sujeitos a essa mediação. Não é lógicamente muito menos ecologicamente necessário o questionamento sobre a viabilidade econômica para se ter um planeta sustentável. A economia, uma vez que fora criada pelo próprio homem pode eventualmente ser recuperada, modificada, transformada, abolida, o planeta pode não ser!
Uma vez que essas reuniões são, no mais das vezes, orquestradas pelas grandes potencias mundiais que assumiram para sí um papel de liderança no sentido de arbitrar sobre o tema da sustentabilidade, pode-se admitir que a pergunta sobre a viabilidade econômica para se ter um mundo sustentável tenha por pano de fundo uma outra questão escamoteada, a saber: quem irá arcar com o ônus das ações com vistas à sustentabilidade? Ora, se tomassem somente para si esse ônus, correriam o risco de perder o status de nações ricas, mas uma vez que o ônus seja compartilhado democraticamente o status, tanto quanto os privilégios perdurariam. O questionamento não é necessário, mas somente se dá na medida em que se querem mais sócios minoritários para essas ações.
Por outro lado, tampouco a nossa própria relação com o planeta se dá de modo imediato. Elegemos (ou não!) um ou mais tutores para mediar essa relação. Continuamos a acreditar que alguém deve fazer alguma coisa e com isso retiramos o ônus dessa responsabilidade de nossos ombros. Jogamos a latinha ou a embalagem nos cestos coloridos e acreditamos estar fazendo a nossa parte! Mas quem é esse alguém? O governo, as empresas, as ONG’s ecológicas? Ora o que são essas ONG’s senão possibilidades de nós mesmos da sociedade civil nos organizarmos em torno dos temas que nos afetam? Organizações não governamentais, que não visam o lucro e portanto não são empresas. São sociedades que atuam e que podem adquirir força suficiente, advinda da união de muitos em torno de um ideal, para discutir em pé de igualdade com os outros atores, isto é, empresas e governos. Temos um papel que pode ser decisivo nessa questão e só não será se, influenciados por uma super estrutura teórica que preconiza a individualidade e a competição com o outro, não nos organizarmos em torno de uma cooperação mútua.
Cedo ou tarde precisaremos nos defrontar com o problema do consumo, do descartável, do lixo, da impermeabilização do solo, com o desmatamento e nem falo o de florestas, mas mesmo o desmatamento das cidades. Esse desmatamento urbano provoca um aquecimento. Se ainda não é um aquecimento global ao menos é local. Tapamos o sol com a peneira ou com o ar-condicionado para arrefecer o calor. Reclamamos das enchentes e criamos os piscinões, aí reclamamos da dengue e nos abrigamos nos shoppings. Compramos e jogamos as embalagens nos cestos coloridos, novamente dragados pelo redemoinho do consumo e da economia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Hábitos de consumo!


Geladeira, fogão, ferro elétrico, máquina de lavar roupa, celular...  Todas essas coisas são classificadas dentro da economia como “bens duráveis”. Contudo, ultimamente eles não andam durando muito! Por mais que estejamos satisfeitos com nosso moderno aparelho de celular, ao cabo de pouco mais de um ano, se tanto, ele dará seus evidentes sinais de esgotamento. A bateria já não segura carga e o aparelho desliga no meio da ligação, ou então sua carenagem já apresenta riscos que o enfeiam, ou somente porque ele não está mais na moda. Claro, poderíamos adquirir outra bateria, trocar a carenagem, mas muitos sabem que para efetuar tais reparos ficaria “quase” o mesmo preço de um aparelho novo e mais moderno. Então trocamos. O mesmo vem se dando com outros tantos bens duráveis. As peças do motor ou do mecanismo de funcionamento de geladeiras e máquinas de lavar roupa, após seu desgaste natural (ou proposital!), precisam de reposição. Em muitos casos somando-se mão de obra e tudo mais, a manutenção fica financeiramente inviável. Essa é uma guerra entre produção e consumo que não se dá em pé de igualdade. Os aparelhos são feitos para ter uma duração pequena para podermos voltar a consumir o produto novo girando a economia. Não fosse apenas o problema de produzir lixo de lenta decomposição, impossível reutilização e de difícil reciclagem. O próprio fato de sermos manipulados já é revoltante. Acho que esse é um ponto central no fraternalismo. Acho que uma nova postura deveria ser a de recuperar a todo custo nossos bens duráveis. Consertar, consertar até realmente não dar mais, mas, sobretudo, mapear as empresas fabricantes para que elas mesmas durem tanto quanto seus produtos. Uma empresa que fabrica bens que não duram, também não deveria durar! Esse seria um grande “selo verde” de consumidores conscientes. Claro, que precisaríamos mudar também nossa postura. Falamos em reciclagem e até jogamos nossas garrafinhas e latinhas no lixo reciclável, mas não reutilizamos. Uma mesma garrafinha pode ser usada por bastante tempo, mas logo vai para a reciclagem sem antes ser reutilizada para outros fins.
Não se trata de refrear os avanços tecnológicos, mas de ter um consumo consciente. A maioria das pessoas que tem notebooks ou celulares sequer utilizam 30% do potencial que a tecnologia oferece. Se a tecnologia é interessante e nos proporcionará um benefício compensador. Tudo bem! O que não podemos é ficar refém de uma compulsão pelo consumo. Ficar passivos ante a uma descarada manipulação! Claro isso irá exigir que olhemos para nossa televisão “velha” por mais alguns anos. Que nosso divertimento de explorar o celular novo fique para mais pra frente, mas pense bem: O aparelho que apenas sai da sua frente não deixa de ser problema seu. O que é feito desse aparelho? Será que se rastrearmos suas peças não as encontraremos em algum rio ou em algum lixão por ai em algum ponto daquela montanha de coisas mal descartadas, poluindo o lençol freático? Que confiança você tem de que o seu lixo será descartado ecologicamente? Não temos como garantir isso então que tal refrear nosso ímpeto de consumo somente a produtos realmente duráveis feitos por empresas também duráveis?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Respeito!


Falei tempos atrás sobre algumas ilusões generalizadas que por serem compartilhadas por um grande numero de pessoas nos aparecem com ares de verdade. Entre essas ilusões esta nossa idéia de respeito. Tantas pessoas entendem respeito de um modo bastante peculiar. Acreditam que respeitar é aceitar o outro como ele é. Aceitar placidamente como o outro pensa acreditando que “essa é sua opinião!”. Não, isso não é respeito, isso é não se envolver!  Quando estamos envolvidos nós nos incomodamos. O modo como se pensa interfere diretamente nas ações como também nas reações.
Quando alguém que nos é caro faz algo que nos incomoda, não nos cabe simplesmente respeitar o modo de agir e de pensar do outro. Quando agimos temos como guia todo um conjunto de crenças, valores, que nos fazem ter um modo particular de ver o mundo, de agir nele e de esperar do mundo uma determinada resposta. Se a outra pessoa faz algo que colide com esse nosso modo de ver o mundo ela também de algum modo esta desrespeitando o modo como eu vejo o mundo. Não que ela esteja me desrespeitando, mas o meu modo de ver o mundo está sendo desrespeitado.
Por outro lado não há que se respeitar todos os diversos modos de ver o mundo, isso é completamente impossível. Aceitar o que o outro faz é desrespeitar a si próprio. Afrontar o outro é desrespeitá-lo. Quando ocorre esse tipo de colisão, de confronto entre diferentes sistemas crenças de pessoas que se importam entre si, dói, machuca, incomoda! Tampouco conseguimos ceder sempre pelo bem da relação! Sempre que voluntariamente cedemos, isto é, engolimos sem concordar com a atitude do outro, também colocamos um pesinho de um dos lados da uma balança imaginária e ficamos aguardando que o outro deposite outro tanto no outro prato da balança para ficar equilibrado. Coisa que raramente ocorrerá e se ocorrer pensaremos sempre que o que nós depositamos foi maior até pelo fato de que medimos o peso do outro com os nossos próprios critérios, mas o fato é que sempre aguardamos, - quando não cobramos – uma contrapartida.
Bom, pelo rumo da conversa qual é solução?
O problema é que pensamos respeito de modo errado. Pensamos conflito de modo errado. Buscamos evitar o conflito, buscamos preservar nosso espaço e o outro age do mesmo modo. Uma vez instaurado o conflito ele deve ser resolvido, ou ultrapassado ou tolerado. Não há que se evitar o conflito, ou encará-lo como lamentável fatalidade. O conflito faz parte de nossa vida e devemos aprender a conviver com ele. Tirar o máximo proveito dele.
Como disse, o modo que pensamos nos faz agir de determinado modo e nos faz ter determinadas expectativas. Mas a ação, tanto quanto a expectativa são a parte mais superficial do que somos. Se tudo vai bem nessa camada superficial é nessa mesma superficialidade que reside a relação. Nenhuma relação será realmente profunda se não revolver e abalar o mais profundo de nos mesmos. Uma relação que não nos abala no mais profundo de nós mesmos é somente uma relação superficial.
O primeiro passo é confrontar os fundamentos mais primordiais que edificam nosso modo de pensar e de agir no mundo e questionar sua coerência e sentido. Se saímos fortalecidos desse primeiro confronto com o nosso próprio espelho nosso dever é questionar o outro do mesmo modo. Corremos, contudo, o risco de ver insultadas nossas vaidades, mas, cá entre nós, se as vaidades têm mais força que a relação, então, abandone a relação. Mas se a relação nos for suficientemente cara, então, abandone as vaidades!
Se o conflito nos fez refletir, repensar nossas convicções e transformar nossa postura; crescemos com isso e o responsável pelo crescimento foi exatamente o conflito. Não haveria a transformação sem o conflito. Todavia não há que se exigir do outro, postura idêntica. Que tenhamos claro que o outro necessite do mesmo grau transformação, mas se ele ainda não chegou a essa conclusão, nos cabe respeitar seu momento. Não que devamos aguardar pacientemente até que o outro caia em si espontaneamente. Podemos dar uma forcinha e fomentar vez por outra o conflito. Costumo usar uma imagem para ilustrar o que acabei de dizer. Todos que já viram um pé de limão sabem o tamanho de seus espinhos. Não há que se subir no pé para apanhar o limão, os espinhos não o permitiriam. Tampouco há que se ficar aguardando no chão até que um ou outro limão resolva cair por livre e espontânea vontade. Nesses casos enfia-se um belo pontapé no tronco do limoeiro de modo a abalar o máximo possível. O limão que estiver maduro vai cair. O que ainda não estiver maduro ainda vai ficar paradinho lá no alto aguardando até estar maduro.

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu só queria te entender!


Essa é outra ilusão que por ser compartilhada por muitos acaba por ser considerada natural ou prática sem maiores comprometimentos. Vou fazer algumas afirmações um tanto quanto categóricas e sei que elas certamente irão confrontar com o que estamos habituados a pensar.

- Todo ato de entendimento é necessariamente um ato de julgamento.
- Todo ato de entendimento é também um ato de controle
- Todo ato de entendimento é também uma ausência

Quando tentamos entender alguém procuramos perceber suas práticas mais habituais e confrontamos com aquilo que historicamente em nossa vida já foi fruto de avaliação.  Claro, não temos como aquilatar aquilo que é novo, portanto recorremos ao nosso passado e, sobretudo, tomamos por base a similaridade que tais comportamentos têm com o comportamento de outras tantas pessoas. Acabamos, com isso, por comparar comportamentos e aquilatar condutas. Na maioria das vezes acabamos por desprezar o contexto de ambas e ficamos apenas com a parte superficial. Apenas o comportamento e a esse juntamos seu significado histórico por nós atribuído. Esse procedimento que nos é tão habitual acaba por oferecer como que uma tábua de significados dos comportamentos, crivados da chancela de “certo” ou “errado”. Mesmo sem consciência e na maior das boas intenções acabamos por julgar a tudo e a todos por esses critérios de modo bastante impessoal. Esse procedimento é ato habitual do entendimento e mesmo que não tenhamos a intenção acabamos por julgar a todo instante baseados apenas nessa nossa tábua de significados. Julgamos, absolvemos e condenamos baseados em nossos próprios critérios pessoais.
Fazemos tudo isso sempre no intuito de balizar a nossa própria conduta. Como devemos proceder para conseguirmos determinado tipo de resposta específica do outro. Queremos, mesmo que o outro reaja de um tal modo à nossa conduta e não de outro. Nosso maior esmero em colecionar comportamentos e significados visa também eleger quais são nossas práticas mais produtivas e bem sucedidas. Pensamos como devemos agir de modo a obter como resposta exatamente aquilo que esperávamos. Variamos nossa conduta de modo a termos ao nosso dispor o mais amplo leque de alternativas no intuito de obter sempre o que almejamos. Queremos com isso estar no controle das situações para que não nos causem surpresas inesperadas. Ocorre que assim nosso ato de entendimento do outro é sempre um ato de controle sobre o outro. A convivência nos municia de informações suficientes para esperarmos por reações razoavelmente padronizadas. Quem de nós já não usou do expediente da chantagem emocional para conseguir o que queria? Ou mesmo traçar os mais duros cenários, apenas para garantir que aconteça o que queremos?
Ocorre que o ato de entendimento do outro se faz nesse balanço entre as significações do passado e eventuais interesses futuros. Temos tanta prática nisso que na maior das ocasiões podemos supor as mais diversas respostas aos nossos mais variados comportamentos. Como se o balanço efetuado em nossa consciência entre passado e futuro pudesse exigir que o outro reaja sempre do mesmo modo. Esse balanço entre passado e futuro é tão freqüente que nos deixa ausente do próprio momento presente. Momento este que poderia nos proporcionar sentir o outro, percebê-lo com maior atenção a tal ponto que além de travarmos contato com a parte superficial de seu comportamento nos garantiria também acesso ao seu íntimo. Quem sabe até do mais profundo de seu sentimento. Ganharíamos com isso em descobrir as aflições que o exigiram a comportar-se como se comportou. Ganharíamos com isso o real motivo dentro do contexto específico e não um motivo mais fruto de nossas próprias suposições.
Nisso reside também a presunção de que o outro é uma maquininha que sempre vai agir de modo habitual. Ora, se, como se diz, Deus nos deu o livre arbítrio para agirmos a partir de nossas próprias deliberações seria profundamente insensato abrir mão dessa liberdade em prol do hábito. Habito é procedimento padrão, irrefletido e em geral descontextualizado. Prescindir de nossa liberdade em prol do hábito é cercear nossa própria liberdade de agir. Pense um pouco nisso quando quiser “entender” ou conhecer alguém.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O sempre desafiador ato de "Delegar"

Do modo como é feito costumeiramente, o ato de delegar poderia ser inserido num glossário qualquer de administração desse modo: Delegar: ato de retirar de nossas responsabilidades as atividades mais chatas e enfadonhas e que não rendem nenhum ponto com o superior imediato. Todavia, se a tarefa delegada não for satisfatoriamente cumprida pode render alguns pontos negativos. Tudo bem, no ato de delegar também vão de brinde as responsabilidades inerentes à tarefa, então poderemos colocar a culpa nas costas do incompetente que não a realizou.
 Por outro lado, se fosse encarada de modo mais sério e responsável a definição apresentada ficaria por demais carente. Primeiro precisamos saber quais as competências fundamentais precisa ter o determinado profissional para poder absorver a tarefa em questão. Uma vez de posse dessa informação, o segundo passo é o de identificar entre os liderados qual deles tem aproximadamente o perfil adequado. Aproximadamente, pois pode ser que não existam as condições necessárias, então precisaremos desafiar o profissional a desenvolver novas capacidades. Tampouco podemos negligenciar que essa possa ser uma limitação que vai envolver não só um aprendizado, mas uma superação.
Deve-se acompanhar o processo de desenvolvimento e superação e fustigar para que ele ocorra o mais breve possível, tomando o cuidado de equilibrar o nível de stress para que se transforme em motivador, mas que não sacrifique o aprendiz. Ora, se ele foi digno da confiança para a tarefa deve ter lá seu valor e esgotá-lo ao limite pode ser prejudicial para ambos. Corremos o risco de transformar o ato de delegar numa pequena fábrica de incompetência.
Após o desenvolvimento das competências deve-se acompanhar a tarefa bem de perto de modo a garantir que será executada a contento. Um cuidado especial na passagem do bastão deve ser tomado para delegarmos o objetivo final e não o como fazer. Permitir que o profissional não seja um mero reprodutor de processos, mas que possa ter a criatividade e a iniciativa de inovar nos caminhos. Desde que o objetivo seja alcançado, pouco importam os caminhos, e com freqüência, nos surpreenderemos ao ver que havia um modo de chegar a ele mais produtivo do que o nosso modo. Assim a pessoa também pode dar o seu toque pessoal que transformará a tarefa em realização pessoal, mais do que mera reprodução.
Esse seria o melhor dos mundos imaginados se fosse real. Na prática isso não é assim tão fácil. Isso porque existe um ingrediente intangível que foge ao planejamento. O obstáculo! Costuma-se pensar o obstáculo, metaforicamente, como uma pedra qualquer no caminho e que qualquer um que passasse por ele teria de enfrentar. A experiência nos dá conta de algo diverso. Os obstáculos não são meramente impessoais. Eles são nossos obstáculos e fustigam especificamente nossas dificuldades particulares. Algo como: se a pedra cair no seu pé ela não vai cair em qualquer dedo, mas cairá sempre naquele que tem aquela danada da unha encravada, ou exatamente em cima daquele calo que mais dói, ou bem na ponta do joanete. No ato de delegar certamente haverá de se superar um duplo obstáculo o de quem delega e o do outro.
Nosso modo costumeiramente egocêntrico de ver a vida costuma nos dizer que a dificuldade do outro é incompetência. Que o jeito do outro é errado. Que o outro não tem capacidade suficiente para executar e, com isso, so delegamos no pior momento possível, quando não há mais tempo para cumprir todas as etapas do processo. Acabamos por postergar a tarefa de delegar até o ponto onde ela se torna altamente crítica. Esbarramos em uma comunicação falha, uma expectativa falsa, e em um ilusório resultado perfeito logo da primeira vez. Carregamos toda a atividade de uma densa e negra névoa de stress, ambiente muito pouco apropriado para o aprendizado. Obtendo sucesso ou não, nesse modelo sempre sobram arranhões na relação entre ambos. Como ainda não estamos habituados a lidar com conflitos, mais fácil é eliminar o conflito do que superá-lo.
A experiência me contou que todo relacionamento pressupõe conflito. Se não há conflito, não há verdadeiramente um relacionamento. Quer seja profissional ou emocional. Se existem dificuldades a serem superadas no outro, haverão outras tantas a serem superadas em nos mesmos, e eliminar o conflito não vai ajudar em nada a superar nossas dificuldades. O conflito é exatamente o obstáculo que nos fustiga a todo instante e continuará a fustigar enquanto não superarmos definitivamente. Quantas dificuldades teimam em nos assombrar repetidas vezes? Mais fácil acreditar que os outros são os incompetentes e seguir arrastando nossa enorme sacola de dificuldades pessoais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ganho competitivo!


A maior parte de nós nasceu, cresceu e vive mergulhado numa cultura capitalista. Digo a maior parte, pois podem existir aqueles que passaram pelos horrores vindos do outro lado da antiga “cortina de ferro” onde se experimentou uma frustrada tentativa de socialismo. Frustrada, pois houve menos um socialismo e mais uma disputa gananciosa pelo poder e retirou um grande poder de iniciativa própria da população que era então, bem ou mal assistida pelo governo e que após Glasnost,  deixou um grande contingente de pessoas à míngua e criou por outro lado outro tanto de novos milionários que venderam muitos dos grandes segredos da guerra fria e que antes eram guardados a sete chaves.
Uma vez fracassada a experiência socialista soviética e com sérias dificuldades em entender como socialista ou comunista uma China que cresce economicamente em altos índices nos resta entender o mundo como um lugar capitalista. Aliás, o capitalismo é tido por muitos, tão natural quanto “respirar ar”. Diriam: “É assim que funciona! Assim é o mundo!” Contudo, os que lançaram seus olhos na história sabem que o capitalismo tem quase que um registro de nascimento e nem tão absurdamente longínquo assim. Poderíamos colocar a “revolução francesa” concomitante com a “revolução industrial”, como sendo seu signo astrológico.
Não muito longe dessa época, ganham espaço as idéias evolucionistas de Darwin e suas mais diferentes, inusitadas e quiméricas leituras. Surge nesse molho filosófico a competitividade no capitalismo, com força evolucionista. É mais “adaptado” aquele que é mais competitivo e somente este sobrevive. Uma profunda crise econômica assolava a Europa em fins do sec. XIX. Havia demanda para a venda dos produtos fabricados, mas uma horda de pobres europeus de diversas nacionalidades não tinha dinheiro para comprar nada. Essa legião de des-endinheirados migra, então, para o nosso querido Brasil. Foram alemães, italianos, espanhóis, portugueses... (bem digam a maioria de nossos antepassados. Os meus eram alemães misturados com franceses mais portugueses e índios canibais de Ubatuba. Que salada!). Junto desses vieram também muitas empresas dessas mesmas regiões. Krupp, Manesmann, Siemens, Saint Gobain, entre tantas outras. Esses imigrantes vieram para fugir da pobreza européia da época e de sua falta de oportunidade. Fugir da fome e da morte e isso tudo antes das duas grandes guerras mundiais.
Entrelaçando rápida e temerariamente os assuntos, o fato é que hoje, nosso imigrante mais conhecido, o capitalismo, se arraigou de tal modo nas nossas consciências que salvo uma abnegada disposição para mudar muita coisa, somente uma lobotomia daria cabo de retirá-lo e com ele seus alicerces. Na mesma esteira e com aparência de um selo distintivo também se impregnou a competitividade. Poucos são os que conseguem conceber algum pensamento, desejo ou projeto que não esteja atravessado de competição e capitalismo.
Passamos muitos de nossos dias tentando sobreviver, quando não em eliminar o oponente que nos oferece risco. Contudo, eu pergunto: Trata-se realmente de sobrevivência ou somente é um apelo irrefletido proveniente de um sulco cultural que foi se aprofundando no decorrer dos anos e que se entranhou como parasita em meio aos nossos mais primitivos instintos irracionais?
Na competição capitalista pressupostamente existem vencedores e perdedores. Os primeiros, necessariamente, em número bem menor aos segundos. O perdedor “morre” então é coisa de sobrevivência. Nessa guerra por sobrevivência poucos valores éticos teriam uma hierarquia superior à sobrevivência. Com isso, cada qual ao seu modo buscará se armar de todos os modos para ter um ganho competitivo nessa batalha pela vida. Fica instaurada uma dinâmica social onde o outro é, até que se prove contrário, meu adversário. Ficam, assim, justificadas todas as iniciativas capazes de nos proteger ou nos garantir um bom flanco de ataque. Gastamos mais tempo de nossas vidas nos protegendo e estrategiando nossas defesas ou ataques que não nos sobra tempo para sermos simplesmente nós mesmos.   
Não será possível propor uma nova dinâmica social?  Tenho para mim que cada um de nós tem um conjunto ímpar de capacidades, talentos, dons que o tornam o melhor em determinadas atividades, pouco eficaz em outras e incompetente nas demais. Querer concorrer em pé de igualdade na atividade que o outro executa melhor com seus talentos é estar certo de perder ou, se tanto, ganhar trapaceando. Mas para que é mesmo preciso competir? Meu conjunto de competências me torna ótimo em algumas atividades e bom em outras. Seria insano exercer uma atividade da qual eu tenho pouca ou nenhuma competência. Por esse ângulo, trata-se menos de competir e mais de re-escolher nossa atividade. Trata-se menos de competir e mais de contribuir. Contribuímos com aquilo que nos é mais fácil, mais prazeroso, sobretudo com aquilo que temos mais competência e prazer. Podemos, com isso menos “ter” para demonstrar uma vitória, mas apenas Usufruir. Usufruímos daquilo que necessitamos sem exageros, nem ganância? Em épocas de vacas gordas, podemos nos esparramar na fartura. Em época de vacas magras precisaremos contribuir mais, mas estaremos apenas contribuindo com aquilo que nos é mais fácil e mais prazeroso. Isso já não é um bom diferencial competitivo? 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Onde tudo começou e onde queremos chegar!


A época que precedeu a revolução industrial era orquestrada por duas grandes forças: A Igreja e a nobreza. As iniciativas de ordem privada ficavam restritas a uma agricultura de subsistência e a manufaturas fundamentalmente artesanais como a de ferreiros, alfaiates e pequenos produtores.
Pequenas monarquias, na medida em que foram se organizando em Estados foram também promovendo uma liberalização de iniciativas privadas. O crescimento das descobertas científicas como a máquina a vapor fizeram surgir uma nova ordem de iniciativa: as indústrias. A disputa entre indústrias de estados concorrentes promoveu uma corrida por ganho de escala e barateamento dos custos de produção. Durante um bom tempo as indústrias formaram poderosas instituições, maiores e mais poderosas que muitos dos antigos reinos. Mesmo hoje ainda cumprem um papel de bastante destaque.
Mas vale destacar que a iniciativa privada surge num momento bastante recente da história do homem e assumem um papel decisivo no progresso que fez a humanidade transformar suas viagens a cavalo para uma época onde em poucas horas se dá a volta ao mundo ou em alguns cliques falamos com qualquer parte dele.
Vale também dizer que embora a tônica fosse sempre a do lucro as empresas privadas promoveram um grande desenvolvimento social. Uma época monárquica, onde a educação era fundamentalmente religiosa, a propriedade era cedida a alguns e onde os signos distintivos da época ficavam restritos a poucos e escolhidos aristocratas a ascensão social não era prerrogativa privada senão concessão monárquica. A queda da bastilha derrubou cabeças, tanto quanto os muros que impediam a mobilidade nos diversos estratos sociais. Os caracteres distintivos agora eram outros. Menos importante agora um título de nobreza e mais a posse das condições de produção de bens. Menos importante as terras e mais importante a informação. Crescimento agora é menos questão de berço e mais de empenho e dedicação.
Nos últimos anos, a indústria se mecaniza sistematicamente e a demanda por mão de obra reduz sensivelmente. Há, com isso, outro grande ganho. As atividades mais extenuantes que antes eram feitas com grande esforço físico por trabalhadores ou escravos agora pode ser atenuada com a mecanização e robotização. Seguindo essa trilha era de se esperar que coubesse ao homem agora uma acentuada redução de jornada de trabalhos e um maior acesso ao laser ou a cultura. Todavia não é esse o registro que temos dos dias atuais.
 O edifício conceitual do capitalismo moderno une elementos que se tomados em separado são bastante sensatos, mas quando unidos formam um molho bastante explosivo. Nada contra o lucro ou a propriedade privada, tampouco com a acumulação de recursos, mas quando tudo isso vem junto com uma competitividade desenfreada, uma especulação sem produção e uma individualidade ferrenha. Ainda unida com a exigência de constante redução de custos e um apego ao descartável. Isso cria um ambiente de estratificação social que faz erguer novas barreiras a conquistada mobilidade fazendo nascer um novo império: o do capital.
Se pudermos representar graficamente a sociedade monárquica a figura geométrica que melhor se adequaria seria a de uma pirâmide, onde em seu topo ficariam o monarca e sua nobreza. Contudo, a despeito de uma generosa porção de modificações estruturais a pirâmide ainda representa com precisão o sistema capitalista. E o acesso ao topo, mesmo nos dias atuais é menos resposta de dedicação e empenho do que as condições de possibilidade desse acesso oferecida pelo próprio capital.

Se as mudanças efetuadas pela revolução francesa e pela revolução industrial foram bastante benéficas para a história da humanidade, ainda não creio que tenhamos alcançado Liberté, nem Egalité, muito menos Fraternité. Não será momento de se revolver novamente nossas estruturas conceituais e colocarmos em questão nossos próprios caracteres distintivos de modo a promover o desenvolvimento de um novo modelo social, genuinamente humano onde a cooperação seja mais valiosa que a competição; onde a gentileza seja mais valorizada do que a vitória; onde o alimento chegue ao seu consumo independente do lucro que ele possa produzir? 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Evolução das espécies?

A teoria evolucionista de Darwin não chegou às terras tupiniquins sem antes passar por uma alquimia onde se quis de algum modo extrair sua quintessência prática. Um pragmatismo utilitarista transformou a regra de sobrevivência do mais adaptado em um simples: “o mais forte vence!”. Por conseguinte “o mais fraco perde”. Isso produz um matiz que leva nossos olhos a ver o mundo a partir de uma perspectiva dual: Se você não é predador é presa e o perigo não é apenas de morte, na teoria darwiniana o risco é de extinção da espécie!
De fato, quando observamos a natureza mais bruta dos animais, por assim dizer, menos evoluídos, observamos até certo modo essa polaridade de presa e predador. Os comportamentos dos animais variam muito pouco em sua finalidade. Ou estão predando, ou fugindo de serem predados, descansando, se alimentando ou preservando a espécie, isto é acasalando... Se traçarmos um paralelo com o mundo corporativo, vemos muita gente “lutando pela sobrevivência”. Não que haja algum outro predador voraz capaz de nos transformar em almoço ou jantar, mas nossos comportamentos cotidianos mais premiados são os que levam o foco e a determinação do leopardo, a força do tigre, a grande visão da águia ou a astúcia do lobo. Certamente estas são características bastante interessantes, mas existe uma profunda diferença de propósito. Enquanto nos animais essas capacidades lhes rendem a adaptação necessária à sua sobrevivência. O ato é instintivo, tanto quanto natural. Resposta imediata à necessidade premente. Nos homens essa regra não se aplica.
Não corremos o risco de extinção de nossa espécie. Não há nenhum predador voraz ao nosso lado. Tampouco temos a necessidade de lutar por alimento ou ter a certeza de que não é a hora da onça beber água. Mas muitas vezes reagimos de modo imediato ao iminente risco. Que risco? Mapeamos as respostas aos nossos comportamentos e descobrimos como lidar com cada uma delas. Se alguém nos responde de modo imprevisível, ai está o risco! Essa pessoa é perigosa! Não sabemos que riscos ela ira nos oferecer, então, o melhor a fazer é eliminar o perigo. Resposta imediata ao perigo. Instinto? Não. Apenas um comportamento irrefletido frente ao medo de um risco inexistente.
Nos animais o instinto é natural. Uma resposta imediata, isto é, sem reflexão à demanda atual. Nos homens a ação imediata soa mais como uma fuga dos perigos, mas que perigos? Nossos medos são, na maioria das vezes altamente irracionais, para não dizer irreais. Temos medo de não atingir nossa expectativa, mas as expectativas somos nós mesmos que criamos e também podemos mudá-las. Isso quer dizer que temos medo de nossa própria criação, de nossas próprias fantasias. Contudo, é com tanta freqüência que vemos os mesmos tipos de comportamentos, tendo a fuga dos medos como propósito, que passamos a crer que, de fato, eles sejam reais. Pura generalização! É que nossa absorção das ideias darwinistas formou em nossa consciência, não somente um filtro da realidade, mas uma capacidade de produção de realidade distorcida. Mesmo que racionalmente saibamos que não há risco algum de extinção ou de morte, nossos comportamentos estão tão contaminados e atravessados desse medo irreal que a razão, ao menos em primeiro momento, será incapaz de transformar a conduta. Mesmo que a reflexão nos convença de que é preciso mudar nossa conduta o hábito ainda nos impelirá a ter os mesmos comportamentos. Ainda teremos os mesmos comportamentos imediatos, isto é, irrefletidos, por força desse mesmo hábito. Será preciso um esforço adicional para transformar nossa conduta.
Para uma gazela com sede a figura de um leão não despertará maior interesse se ele estiver aproveitando uma sombra refrescante após o fastio de uma bela refeição. O mesmo não se dará se o leão adotar outra atitude. O instinto da gazela dará conta das sutilezas. Enquanto sacia sua sede, naturalmente sua orelha pode virar e revirar de um lado para outro a procura de pequenos indícios de mudança de atitude do leão e qualquer indício fará com que se mobilize e empreenda esforços para a escapada. No animal a reação sucede a ação do leão de modo imediato, sem necessidade de reflexão. A resposta é, como se costuma dizer, instintiva.
No nosso caso as imagens formadas internamente como representação cumprem nesse contexto função análoga. Não se trata de iluminar tal ou tal aspecto com nosso intelecto, mas sim de obscurecer o que não é interessante para que se tenha vistas aos fins que interessam. Abstrair o que não interessa é também subtrair! Nossa atenção submetida às exigências da inteligência não tem competência apurada a ponto de processar todas as informações que nos circundam. Desse modo é preciso que de todo esse real se subtraia o que não interessa, para que possamos agir de modo eficiente àquilo que nos interessa.
O risco ocorre quando perdemos a conexão com a realidade e passamos a temer aquilo que nós mesmos criamos. Talvez ainda precisemos de alguns ajustes para nos considerarmos uma espécie mais evoluída. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Apropriação indébita!


Karl Marx no sec. XIX nos dava conta de uma apropriação feita pela classe dominante sobre o proletariado de horas de trabalho que seriam desnecessárias para sua melhor produção. Por exemplo, se um trabalhador levasse cerca de quatro horas para produzir 10 pares de sapato, o que já seria suficiente para pagar sua mão de obra, os custos fixos e variáveis de produção, bem como o lucro, ele, ainda assim, era obrigado a trabalhar outra seis ou sete horas adicionais pelo mesmo valor, isto é, os donos da produção se apropriavam, além do lucro, das demais horas do trabalhador. De um modo bem grosseiro essa é a idéia de “mais-valia”. 
Hoje no Brasil e em boa parte do mundo temos certas leis que regulam um tanto quanto melhor a relação entre as empresas e seus trabalhadores. Tanto quanto hoje é, em geral, um pouco mais difícil se estabelecer a relação entre horas de trabalho e produtividade. O valor de um planejamento, do envio de um email, elaboração de um cronograma... são atividades tão impalpáveis que pode valer X ou nX. Mas não é exatamente de Marx ou de mais-valia que eu quero falar, mas sim de uma apropriação de tempo que, por vezes, pode até parecer espontânea.
Pouco tempo atrás, me lembro que a diversidade de atividades que executávamos ao longo de uma semana tinha vários propósitos diferentes. Trabalhávamos e isso tinha relação com satisfação profissional ou com o dinheiro. Estudávamos e isso tinha relação com a educação, a civilidade, aquisição de conhecimento. Saiamos com amigos e criávamos relacionamentos sociais. Tínhamos algum tipo de atividade religiosa e isso era coisa espiritual. O descanso era para a saúde ou para o corpo, a TV era para entretenimento ou diversão. O passeio no final de semana era de convívio com amigos, familiares ou puro laser.
Hoje, por outro lado, se estudamos é para ter um ganho competitivo no mercado de trabalho. Se saímos com amigos estamos, na maior parte das vezes fazendo networking. A atividade religiosa pode ser aquela que te trará maior influência no ambiente de trabalho. No final de semana o churrasco é com os colegas do escritório, então não fica bem faltar. A TV serve para estar bem informado para os negócios ou para o assunto do cafezinho. Até o nosso sono, muitas vezes tem por objetivo muito menos nosso descanso físico e mais nos deixar preparados para trabalhar no dia seguinte.
Parece que todos os propósitos se voltam a uma única e mesma direção: o trabalho. Deixamos de descansar para o nosso corpo. Aqui se deve fazer uma pequena pausa para esclarecer um ponto que parece igual, mas não é. Quando dizemos “por que?”damos conta do motivo. Quando dizemos “para que?” dizemos o propósito. Claro que o motivo de dormirmos é descansar o corpo, mas muda o propósito. A diferença que estou apontando é que antes dormíamos por nosso corpo e para nosso corpo. Hoje é para o trabalho.
Outro ponto de nossa vida que fica bastante comprometido é a família quando fica doente ou mais velha, isto é, quando requer mais atenção. Poucos chefes ou empresários, ou se podemos dizer cronogramas toleram faltas, atrasos ou ausências devido a cuidados necessários com pais, ou avos idosos. Uma ou outra vez isso é tolerado, mas muitas vezes a dificuldade se alonga requerendo mais tempo e mais dedicação, mas não há nenhuma linha sequer em qualquer cronograma para “contratempos com doenças de idosos”. Nesse aspecto os idosos não passam de contratempos que devem ser eliminados. Em nossa organização social o idoso ou o doente somente cabem, na medida em que são consumidores de serviços ou de remédios ou de qualquer outro produto. Crianças não! Essas são um excelente mercado consumidor e ainda de longo prazo. Invista-se nesse mercado e é lucro na certa! Diria o mercado!
Nossa organização e planejamento social estão centrados no capital e não na realidade. O trabalho se apropria de nosso sono, pois não dormimos mais pelo corpo, mas dormimos para que o corpo esteja apto a realizar seu trabalho e não se torne um empecilho a realização das atividades. Já não comemos para o corpo, já não estudamos para nos, já não nos divertimos para nos, já não estudamos para nos, mas para o mercado de trabalho, pra o capital.
Muitas dessas escolhas ficam perdidas em nossa consciência somente na diferença entre o “por que” e o “para que”. Diferenças sutis no entendimento, mas que em termos gerais nos levam a outro destino. E ai voltamos a Marx: alienação. Pouco temos consciência da diferença de propósito, apenas dormimos, apenas vemos TV, apenas vamos ao churrasco, apenas nos encontramos com os amigos. Em grande parte das vezes absorvidos por um propósito que não é nosso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Criatividade, processos e boas práticas!


Com freqüência lemos em alguma revista especializada ou ouvimos dizer que as empresas valorizam profissionais criativos. Por outro lado percebe-se um grande empenho das organizações em mapear processos e listar e divulgar boas práticas. Nada contra qualquer uma dessas iniciativas, mas vale dizer que elas se auto-anulam.

            Processos são, bem grosso modo, sequencias de procedimentos repetidas ao longo do tempo e que mostraram sua eficiência para chegar ao resultado esperado. Boas práticas são o modo como são executados esses procedimentos como correções, verificações, check-list’s, que, se bem repetidas, terão a capacidade de arredondar o processo tornando-o ótimo ou excelente. Contudo precisamos esclarecer que expectativas, processos e boas práticas são sempre modos de repetir no futuro algo que “deu certo” no passado. Tanto quanto dar certo é ter uma expectativa determinada e agir de modo a que se atenda exatamente essa expectativa e que outras coisas não aconteçam.
            Diferente disso tudo criatividade pode ser entendida de dois modos: Primeiro como algo que é novo por se tratar claramente coisas que não se assemelham ao antigo e desse modo nunca podemos ter em mente processos, tampouco boas práticas, pois essas são representantes da repetição do antigo e segundo criatividade como algo que é completamente desprovido de expectativas, onde o que impera é a surpresa, isto é, não existe a comparação nem o contraste com o antigo e ai mais ainda o processo e as boas práticas nem sequer batem à nossa porta.

            Criatividade, sem bem podemos dizer de modo genuíno, é desprovida de expectativa, ou melhor as expectativas não são de ordem prática. Permite-se a surpresa e o brilhantismo. Não se pode falar em fracasso quando tratamos de criatividade, pois fracasso é tão somente a inadequação do resultado com o esperado. E na criatividade essa inadequação tem outro nome: surpresa! Claro, a surpresa pode ser agradável ou desagradável, mas a criatividade é evolutiva enquanto o processo é, quando muito, generativa. Podemos querer otimizar o processo, mas só a criatividade nos conduz a outro patamar evolutivo mais elevado. A otimização do processo pode somente nos levar ao ápice do patamar evolutivo que já nos encontramos. A criação é um salto! Nõa um salto quantitativo, mas qualitativo.
            Assim, se você, enquanto líder, tem em mãos realmente um profissional criativo e o coloca para atuar dentro de um processo e recomenda boas práticas, você está, sem saber, matando o potencial criativo do seu profissional. Senão matando ao menos amarrando seus braços e pernas. Do mesmo modo se sua métrica de avaliação tiver por base as mesmas metrificações do processo só enxergará diante de você uma pessoa medíocre. Dito de modo bem claro: o processo transforma o gênio em imbecil!
Quando você tem um bom processo e boas práticas bem mapeadas qualquer profissional mediano é capaz de executá-lo. Contudo, como falamos trata-se de repetição e, como tal, a repetição assim o é justamente pela falta da surpresa e a falta da surpresa é sempre enfadonha. Não estranhe se o nível de erros na condução do processo aumente de tempos em tempos. Não se trata de incompetência de seus profissionais, mas sim da falta de surpresa. Existem bons profissionais que se adaptam bem à execução de processos, mas não exija deles criatividade e brilhantismo. Tampouco coloque profissionais brilhantes e criativos sob o jugo do processo, isso irá cercear sua criatividade e apagar seu brilho.
E você que acredita ser um profissional criativo e está sendo fustigado por um alto índice de insatisfação, veja se isso não é por conta do processo que você esta sujeito.

De qualquer modo, é importante ressaltar que no processo o resultado é sempre previsível e será avaliado, de acordo com a expectativa em sucesso ou fracasso, já na criatividade o resultado é sempre surpreendente. Mesmo que exista alguma expectativa qualquer inadequação ao resultado é simples surpresa, mas nunca fracasso. Portanto pensar em profissionais criativos dentro de processos é sistematicamente anular a criatividade ou inutilizar o processo.        

domingo, 24 de junho de 2012

Talento e mercado de trabalho!


Interessante ver como algumas práticas comuns em épocas antigas ainda resistem nos dias de hoje. Ainda verificamos passar de pai para filho ou de mãe para filha o “ofício” de rendeira, a manufatura de cestas de vime, o artesanato de carrancas; o fabrico de barcos artesanais, a própria atividade da pesca. Novas gerações continuando o ofício dos pais. Em tempos idos essa era uma prática tão comum que por vezes oferecia o sobrenome à família. Ainda hoje vemos gente famosa preservando o sobrenome de Sapateiro, Açougueiro, Alfaiate, entre outros tantos. Contudo, nas grandes metrópoles o que mais se verifica é a escolha da profissão balizada pelo mercado de trabalho.
Certa sazonalidade pode fazer com que tenhamos em um período, menor número de engenheiros, em outra de médicos... Avanços tecnológicos podem fazer esse mercado padecer da falta de especialistas na dita tecnologia e, com isso, sobrevalorizar a atividade especializada, tanto quanto provocar uma corrida desenfreada para se conseguir formação adequada nessa área e,  com isso, aproveitar o momento para dar um upgrade na remuneração.

Seria prematuro dizer que o talento para exercer o ofício de alfaiate fosse preservado de pai para filho por algum tipo de hereditariedade, tanto quanto seria imaturo dizer que o mercado de trabalho teria a capacidade de forjar engenheiros, médicos ou professores. Mas também ficar dentro desses limites das profissões classicamente demarcadas e estabelecidas é acreditar que a marcha do progresso se dê apenas dentro de muros estreitos. Não é isso que se verifica. Embora as universidades ainda formem, administradores, médico e engenheiros, na prática surgem a todo instante determinados tipos de atividade profissional que até então não existiam. Hoje temos designers de todos os tipos para uma variada sorte de produtos; Programadores de computadores, líderes de projetos e toda uma sorte de atividades que seria insano mapear.
Em termos gerais poderíamos pensar, de modo abstrato, que cada uma dessas atividades (já não falo mais em profissão e nem oficio), requeira um mix de competências, que muitos de nós podemos desenvolver, mas gostaria de concentrar o foco na ideia de talento.

Quero chamar de talento, até para não confundir com a ideia de competência ou de inteligência, aquelas aptidões naturais que afloram sem o menor treinamento, muitas vezes até em terna idade. Gostaria de definir talento como aquelas atividades que realizamos com imensa facilidade, grande prazer e que não nos requerem qualquer esforço e que por serem assim tão simples para quem realiza, muitas vezes não damos o menor valor, muito embora outros, sem a mesma aptidão achem impressionantes!
Lembro de um amigo que tinha um filho bem pequeno que fazia bonecos de argila com tanta facilidade e perfeição que conseguiria arrancar elogios até de mestre Vitalino. Colocá-lo para realizar atividades burocráticas dentro de um banco seria ao mesmo tempo assassinar um artista quanto forjar um incompetente. Digamos até que a atividade bancária pudesse se apresentar tentadora, na medida em que, com a participação nos resultados isso pudesse oferecer uma remuneração superior à que ele conseguiria com as artes plásticas, mas a atividade do artista se não fosse exercida ao menos como hobby, certamente provocaria um sentimento de profunda insatisfação.
Percebo no mundo corporativo uma quantidade enorme desse tipo de exemplo. Pessoas suportando atividades que lhes exigem grande esforço por não terem aptidão alguma para executá-las e talentos desperdiçados competindo em desigualdade com os mesmos incompetentes que cobram menos para fazer de qualquer jeito.
São essas mesmas pessoas que quando acordam pela manhã vão à luta, que quando voltam do almoço vão para o segundo round!
Por outro lado, quando já em idade madura resolvi trocar a análise de sistemas pela filosofia, muitos acreditavam tratar-se de uma mudança radical. Ledo engano, pois os talentos exigidos para ambas atividades é bastante similar. Se como analista de sistemas eu buscava entender o funcionamento de determinado processo de uma empresa, sua sequencia lógica e buscar os meios de racionalizá-los de modo a serem executados com maior eficácia, eu utilizava de uma alta capacidade de abstração e sistematização. Para a filosofia isso também é válido. O que mudou foi o tamanho do sistema. De um processo de compras ou de cálculo de juros passei a pensar um processo histórico de formação de uma cultura. 



              Chegamos agora aos pontos precisos que gostaria de tocar: Primeiro, que tomar como critério de escolha de nossa atividade o mercado de trabalho ou a atividade dos pais é ficar sujeito a fatores que nos são bastante alheios e com isso entregar à sorte os rumos de nossa força produtiva. Se conseguirmos encaixar nossos talentos nessa atividade muito bem, caso contrário, teremos de lidar todo o tempo com a amargura da incompetência. Se, por outro lado, tomarmos por base primeiro nossos talentos mais naturais e com ele descartarmos as atividades onde esses talentos não são interessantes. Teremos diante de nós apenas atividades que poderemos exercer com facilidade, desenvoltura e prazer. Transformar essa atividade que realizamos com talento em uma atividade lucrativa passa agora a uma mera questão de: “como?”

domingo, 8 de abril de 2012

Segurança e equilíbrio!


Secretamente, lá no nosso íntimo ainda reside um anseio por segurança. Veladamente ele guia nossos passos e inibe ações mais destemidas. Assim vivendo, nos habituamos sempre a pisar somente em solo firme. A buscar por pontos de apoio ao alcance das mãos. Pode-se pensar a princípio que seja algum tipo de instinto ancestral de preservação e, portanto, que seja algo bastante natural.  Todavia prefiro crer que se trate mais de uma busca pelo conforto do conhecido. Um hábito cultural que tem seu lugar de nascimento num tempo determinado.
Á medida em que a ciência, em seus primórdios em fins da idade média, permitiu ao homem desvencilhar-se de horrores como monstros marinhos ou quiçá nos libertar dos “humores” divinos que provocavam chuvas, tormentas ou secas desoladoras, pôde proporcionar certo grau de previsibilidade, e porque não dizer controle sobre os eventos da natureza. Esse grau de previsibilidade sobre eventos da natureza nos permite uma confiança crescente e chega a ser tentador para nossa inteligência crer que em dado momento se atingirá uma total previsibilidade, e, consequentemente, na nossa libertação do cárcere da ignorância. Tudo isso poderia nos fazer crer numa previsibilidade total. Isso certamente nos livra de eventos inoportunos imponderáveis, mas ao preço da perda da surpresa. Com isso, creio que nos habituamos buscar sempre o previsível e evitar sempre que possível a surpresa acreditando que ela sempre seria inoportuna. A vida dividiu-se em sucesso ou fracasso e o inesperado, o surpreendente acabou por perder seu posto de mensageiro do sublime.
Mesmo o equilíbrio, sonho de consumo da maioria das pessoas, quando mal entendido se torna cárcere de seu possuidor. Se entendermos equilíbrio como aquilo que não se abala, aquilo que mantém estabilidade, ficaremos prisioneiros da mesmice, do igual, do constante. Novamente perderemos o doce sabor da surpresa. Equilíbrio não é sinônimo de estabilidade, mas de manter-se fluindo mesmo nas instabilidades. O surfista tem equilíbrio mesmo sobre as ondas instáveis. Equilíbrio é mais um fluir entre instabilidades. Equilíbrio é ter a capacidade de responder adequadamente às ondulações do imprevisível.
Juntos segurança e equilíbrio, quando mal entendido tem a capacidade de matar uma das coisas que mais nos enchem de vida: a surpresa, o inusitado, o novo. Com isso a vida perde em muito seu frescor e vivacidade, tornando-se enfadonha e fabricando pessoas amedrontadas.
Nos momentos difíceis quando nossas dificuldades ultrapassam nossos conhecimentos, precisamos dar um passo no insólito. A segurança só serve para nos mantermos onde estamos. Será preciso abandonar a certeza e assumir riscos. Ai nos é mais útil a confiança do que a segurança. A do que a certeza. Aliás, arriscaria a dizer que a fé é muito mais a capacidade de ir em frente mesmo diante das adversidades. Diria ainda mais. Fé é aquela força que nos move adiante, mesmo que a razão nos diga em nosso íntimo que o fracasso é inevitável. Claro que com essa definição corremos o risco de nos lançarmos temerariamente contra a sensatez, mas a fé não é do âmbito do explicável. Só você conseguirá ou não dizer se o que te move é realmente a fé.
É que nossos medos nos paralisam. Não um medo de um futuro que desconhecemos, mas um medo de perder o que acreditamos ter conquistado. Mas o que conquistamos no passado não pode se tornar em pesado fardo que nos impeça de abraçar o novo. Temos o hábito de nos apegar ao passado seguro buscando reeditá-lo. Contudo um passado reeditado no mínimo terá perdido a fragrância do novo!
Mas tudo isso não sou apenas eu que digo. Termino citando uma passagem que, penso, até hoje não foi bem compreendida:

Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida perde-la-á. Mas qualquer que por amor de mim, perder a sua vida a salvará. (Lucas 9:24)

Contradição ou sabedoria?      

terça-feira, 27 de março de 2012

Quem é voce?

Tenho percebido um acentuado aumento de visitas no blog e gostaria tando de estreitar o relacionamento com meus leitores, tanto quanto poder discutir os temas das postagens. Para tanto peço que postem comentários ou me enviem um email. jadirmg@yahoo.com.br.
Terei o maior prazer em conhecê-los.

Abraços

Jadir Mauro Galvão

segunda-feira, 26 de março de 2012

Planejamento!


Certa feita estava ministrando um curso de liderança e abordando a importância do planejamento, quando um dos participantes me interpelou com a pergunta: por que os planejamentos falham? Parecia ser uma daquelas perguntas típicas para derrubar o palestrante. Uma pergunta no intuito de suscitar polêmicas e controvérsias apenas para checar o peso do alforje do instrutor. Claro que o participante em questão já tinha em seu arsenal umas três ou quatro respostas consideradas por ele justas e para outras tantas refutações implacáveis, mas creio que ele não esperava por uma resposta tão avessa. Na época meu projeto de mestrado ainda estava em patamar embrionário, mas já tinha algumas convicções a respeito do previsível e do previsível.
Vale destacar que vivi cerca de 30 anos de minha vida em ambiente empresarial e em funções de planejamento. Fora o que seja talvez uma competência nata também tive a oportunidade de acertar e errar em inúmeras oportunidades de planejamento o que também me conferia uma experiência nada desprezível. Contudo minha resposta foi tanto direta quanto inesperada, dada o semblante do inquiridor ao ouvi-la: Minha resposta foi, ao que me recordo, algo parecido com isso: todo planejamentos está fadado a falhar! E quando acertam é meramente fruto de um golpe de sorte!
A polêmica se instaurou, pois talvez muitos dos participantes nutrissem a secreta esperança de que um curso ou outro a mais os tornariam infalíveis em seus planejamentos. Assim, ou o instrutor estaria redondamente errado ou cairia por terra uma grande porção de esperanças, tanto quanto um dos maiores motivadores para o participante estar exatamente ali sentado me ouvindo. A conseqüência dessa afirmação, se analisada ingenuamente, seria a de que não vale a pena investir em planejamento, uma vez que ele está fadado ao fracasso.
Caberia a mim agora lidar com o imbróglio no qual havia me metido. Mas minha resposta não era ingênua, senão fruto de uma longa experiência prática no assunto aliada justamente à minha pesquisa de mestrado. Ora, um planejamento é algo que visa antever um resultado futuro qualquer. Com a maior precisão possível, Com o menor empenho e custo possível. Com o menor dispêndio de recursos possível. Planejamento também envolve uma série de ações para se obter os resultados. Essas ações podem ser executadas por pessoas com mais ou menos prática ou talento para executá-las. Cercada ou não de métodos eficazes obtê-los. Com mais ou menos estratégias para lidar com contingências. Tudo isso com mais ou menos experiência em planejamento torna-se dado previsível. E persegue-se sempre o maior grau de maturidade na intenção de se antever o maior número de situações variáveis no intuito de prever tudo o que é passível de previsão. Contudo não há como prever se o indivíduo que irá executar uma das atividades mais preponderantes dentro do planejamento irá ter uma diarréia, ou se seu filho acabará tendo uma luxação no pé ou uma forte gripe ou mesmo se o marido da babá do seu filho sofrerá um acidente. Mesmo que se coloque certa margem de erro no planejamento 10, 15 ou 20%, ainda não temos como lidar com o inusitado, com o imponderável. Ele sempre irá assaltar todas as tentativas de previsão e é bom que assim seja!
Por outro lado, não cumprir o planejado soa sempre como fracasso punível com reprimendas ou até demissão. Têm-se que o fracasso no planejamento é sempre fruto de incompetência. Quer seja no planejamento ou na condução do processo e buscam-se os culpados para jogá-los ao rio feito bois de piranha. Errar em não prever ingenuamente eventos altamente previsíveis, de fato pode ser considerado um erro, mas uma coisa é versar sobre obviedade do fato depois de ocorrido outra é prevê-lo antes do acontecimento. É que ainda vigora a crença de que o imprevisível somente o é por ignorância ou incompetências. Nascemos e crescemos acreditando no plano, no modelo, no sucesso e sob a ameaça do fracasso. Contudo efetuar apenas o que foi planejado, seguir o modelo é apenas repetir o passado querendo obter algo novo. Insano! Analisar o erro pode levar um foco de luz para o novo. O Erro pode ser menos horrendo do que parece. O erro pode ser em algum momento o vislumbre do novo ou uma imprecisão do processo até então maquiada pelos esforços anteriores.
Por fim, planejamento é sempre um esforço no sentido de se precaver contra a incidência de fatores altamente previsíveis e reduzir ao máximo o erro na pontaria.
O alvo dá a direção da seta. A nitidez do centro do alvo te permite a precisão. Para se ganhar é necessário acertar o maior número de setas no alvo. Algumas ficaram próximas e te ajudarão a calibrar o arco. Exercitar, exercitar e exercitar. Só assim a maestria será alcançada e voce será um grande arqueiro! Ficar esperando o melhor arco, o melhor alvo e que não haja vento torna-o limitado em sua precisão. Aprender a lidar com fatores que voce não pode controlar, te dará a flexibilidade necessária para atingir uma andorinha em pleno vôo.